OS TRS MOSQUETEIROS

Volume Segundo


ALEXANDRE DUMAS


Coleco Livros de Bolso - 401


Publicaes Europa-Amrica




Ttulo original: Les Trois Mousquetaires

Traduo de Adelino dos Santos Rodrigues


Direitos reservados por Publicaes Europa-Amrica, Lda.


PUBLICAES EUROPA-AMRICA, LDA.


Apartado 8

2726 MEM MARTINS CODEX

PORTUGAL


NDICE


        XIX - Plano de campanha ........................ 11
        XX - A viagem .................................. 18
        XXI - A condessa de Winter ..................... 27
        XXII - O bailado da Merlaison .................. 34
        XXIII - O encontro ............................. 39
        XXIV - O pavilho .............................. 48
        XXV - Porthos .................................. 55
        XXVI - A tese de Aramis ........................ 69
        XXVII - A mulher de Athos ...................... 82
        XXVIII - Regresso .............................. 97
        XXIX - A caa ao equipamento .................. 108
        XXX - Milady .................................. 114
        XXXI - Ingleses e Franceses ................... 120
XXXII - Um jantar de procurador ............... 126
XXXIII - Criadita e ama ....................... 133
XXXIV - Onde se trata do equipamento de
                              Aramis e Porthos ............... 141
        XXXV - De noite todos os gatos so pardos ..... 147
        XXXVI - Sonho de vingana ..................... 153
        XXXVII - O segredo de Milady .................. 159
        XXXVIII - Como,  sem se incomodar, Athos
                              arranjou o seu
equipamento ........................................ 164
        XXXIX - Uma viso ............................. 172
        XL - O cardeal ................................ 179



        XIX - PLANO DE CAMPANHA


        D'Artagnan foi direito ao palcio do Sr. de Trville. Reflectira que dentro de poucos minutos o cardeal seria avisado pelo maldito desconhecido que parecia 
ser seu agente, e pensava com razo que no havia um instante a perder.
O corao do jovem transbordava de alegria. Apresentava-se-lhe uma oportunidade onde havia ao mesmo tempo glria a conquistar e dinheiro a ganhar, e como primeiro 
encorajamento essa oportunidade acabava de o aproximar de uma mulher que adorava. O acaso fazia portanto por ele, quase desde o primeiro momento, mais do que se 
atreveria a pedir  Providncia.
O Sr. de Trville estava no seu salo com a sua habitual corte de gentis-homens. D'Artagnan, conhecido como familiar da casa, foi direito ao gabinete do Sr. de Trville 
e mandou-o avisar de que o esperava por assunto importante.
D'Artagnan encontrava-se no gabinete havia apenas cinco minutos quando o Sr. de Trville entrou.  primeira vista e perante a satisfao que transparecia do rosto 
de d'Artagnan, o digno capito compreendeu que se passava efectivamente algo de novo.
Durante todo o caminho, d'Artagnan perguntava a si prprio se se confiaria ao Sr. de Trville ou se se limitaria a pedir-lhe carta branca para tratar de um assunto 
secreto. Mas o Sr. de Trville fora sempre to correcto com ele, era to dedicado ao rei e  rainha e detestava to cordialmente o cardeal que o jovem resolveu contar-lhe 
tudo.
- Mandou-me chamar, meu jovem amigo? - perguntou o Sr. de Trville.
- Mandei, senhor - respondeu d'Artagnan. - E espero que me perdoeis vir incomodar-vos quando souberdes de que assunto importante se trata.
- Dizei, ento. Escuto-vos.
- Trata-se nada mais, nada menos - disse d'Artagnan, baixando a voz -, do que da honra e talvez da vida da rainha.
- Que dizeis? - perguntou o Sr. de Trville, olhando  sua volta para se certificar se estavam de facto ss, e voltando a fitar interrogadoramente d'Artagnan.

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- Digo, senhor, que o acaso me ps no conhecimento de um segredo...
- Que espero guardareis toda a vida.
- Mas que vos devo confiar, senhor, porque s vs me podeis ajudar na misso que acabo de receber de Sua Majestade.
- Esse segredo pertence-vos?
- No, senhor, pertence  rainha.
- Estais autorizado por Sua Majestade a confiar-mo?
- No, senhor; pelo contrrio, recomendaram-me a maior discrio.
- Nesse caso, por que quereis atraioar a confiana que depositaram em vs revelando-me esse segredo?
- Porque, como vos disse, sem vs nada posso e porque receio que me recuseis a merc que vos venho pedir se no souberdes com que fim a peo.
- Guardai o vosso segredo, rapaz, e dizei-me o que desejais.
- Desejo que obtenhais para mim, do Sr. dos Essarts, uma licena de quinze dias.
- Quando?
- Esta mesma noite.
- Deixais Paris?
- Vou em misso.
- Podeis dizer-me aonde?
- A Londres.
- Algum tem interesse em que no chegueis ao vosso destino?
- Creio que o cardeal daria tudo no mundo para me impedir de l chegar.
- E partis sozinho? - Parto.
- Nesse caso, no passareis de Bondy, sou eu que vo-lo digo, palavra de Trville.
- Como assim?
- Mandar-vos-o assassinar.
- Morrerei no cumprimento do meu dever.
- Mas a vossa misso no ser cumprida.
-  verdade - reconheceu d'Artagnan.
- Acreditai no que vos digo - continuou Trville -, nas empresas desse gnero so precisos quatro para chegar um.
- Tendes razo, senhor - declarou d'Artagnan. - Mas vs conheceis Athos, Porthos e Aramis e sabeis se posso dispor deles...
- Sem lhes confiardes o segredo que eu no quis saber?
- Jurmo-nos para sempre confiana cega e dedicao a toda a prova. Alm disso, podeis dizer-lhes que tendes toda a confiana em mim e no se mostraro mais incrdulos 
do que vs.
- Posso apenas conceder a cada um uma licena de quinze dias: a Athos, a quem o seu ferimento continua a fazer sofrer, para ir s guas de Forges; a Porthos e a 
Aramis, para acompanharem o amigo, que no querem abandonar em to dolorosa situao.

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A concesso da licena ser a prova de que lhes autorizo a viagem.
- Obrigado, senhor, sois cem vezes bom.
- Ide ento procur-los imediatamente, para que tudo fique pronto esta noite. Ah, mas primeiro escrevei-me o vosso requerimento ao Sr. dos Essarts! Talvez tenhais 
algum espio  perna e a vossa visita, que nesse caso j  conhecida do cardeal, ficar assim justificada.
D'Artagnan formulou o pedido e o Sr. de Trville garantiu-lhe, ao receb-lo, que antes das duas horas da madrugada as quatro licenas estariam no domiclio respectivo 
dos viajantes.
- Tende a bondade de enviar a minha para casa de Athos - pediu d'Artagnan. - Receio ter algum mau encontro no caso de ir para casa.
- Ficai descansado. Adeus e boa viagem! A propsito - disse o Sr. de Trville, chamando-o.
D'Artagnan voltou para trs.
- Tendes dinheiro?
D'Artagnan fez soar a bolsa que tinha na algibeira.
- Suficiente? - perguntou o Sr. de Trville.
- Trezentas pistolas.
- Vai-se ao fim do mundo com isso; ide ento.
D'Artagnan cumprimentou o Sr. de Trville, que lhe estendeu a mo; d'Artagnan apertou-lha com um respeito laivado de reconhecimento. Desde que chegara a Paris s 
tivera motivos da maior gratido para com aquele excelente homem, que sempre achara digno, leal e grande.
A sua primeira visita foi para Aramis. No voltara a casa do amigo desde a famosa noite em que seguira a Sr.a Bonacieux. Mais: mal vira o jovem mosqueteiro e de 
todas as vezes que o encontrara julgara notar-lhe no rosto uma profunda tristeza.
Naquela noite, Aramis tambm velava, sombrio e sonhador. D'Artagnan fez-lhe algumas perguntas acerca daquela profunda melancolia; Aramis esquivou-se, desculpando-se 
com um comentrio do dcimo oitavo captulo de Santo Agostinho, que tinha de escrever em latim na semana seguinte e que o preocupava muito.
Quando os dois amigos conversavam havia alguns instantes, chegou um criado do Sr. de Trville com um documento lacrado.
- Que  isto? - perguntou Aramis.
- A licena que o senhor pediu - respondeu o lacaio.
- Mas eu no pedi nenhuma licena! ...
- Calai-vos e recebei-a - interveio d'Artagnan. - E vs, meu amigo, aqui tendes meia pistola pelo vosso incmodo. Dizei ao Sr. de Trville que o Sr. Aramis lhe agradece 
muito sinceramente. Ide.
O lacaio inclinou-se at ao cho e saiu.
- Que significa isto? - perguntou Aramis.
- Reuni o preciso para uma viagem de quinze dias e acompanhais-me.
- Mas eu no posso deixar Paris neste momento, sem saber...

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Aramis deteve-se.
- Que lhe aconteceu, no ? - acrescentou d'Artagnan.
- A quem? - perguntou Aramis.
-  mulher que esteve aqui,  mulher do leno bordado.
- Quem vos disse que esteve aqui uma mulher? - perguntou Aramis, tornando-se plido como a morte.
- Vi-a.
- E sabeis quem ?
- Desconfio, pelo menos.
- Escutai - disse Aramis -, uma vez que sabeis tantas coisas, sabeis que foi feito dessa mulher?
- Presumo que voltou para Tours.
- Para Tours? Sim,  isso... Conhecei-la... Mas como voltou para Tours sem me dizer nada?
- Com medo de ser presa.
- Por que no me escreveu?
- Por recear comprometer-vos.
- D'Artagnan, restituis-me a vida! - exclamou Aramis. - Julgava-me desprezado, trado... Fiquei to feliz quando a tornei a ver! No podia acreditar que arriscasse 
a sua liberdade por mim, e no entanto por que motivo voltaria a Paris?
- Pelo mesmo motivo que hoje nos faz ir a Inglaterra.
- E que motivo  esse? - perguntou Aramis.
- Sab-lo-eis um dia, Aramis; mas de momento imitarei a discrio da sobrinha do doutor.
Aramis sorriu, pois lembrava-se da histria que contara certa noite aos amigos.
- Bom, uma vez que ela deixou Paris e que tendes a certeza disso, d'Artagnan, nada j me retm aqui e estou pronto a acompanhar-vos. Dizeis que vamos?...
- De momento, a casa de Athos, e se quereis vir convido-vos at a apressar-vos, pois j perdemos muito tempo. A propsito, preveni Bazin.
- Bazin vai connosco? - perguntou Aramis.
- Talvez. Em todo o caso, ser bom que nos acompanhe a casa de Athos, por ora.
Aramis chamou Bazin e, depois de lhe ordenar que fosse ter consigo a casa de Athos, disse:
- Vamos!
Pegou na capa, na espada e nas trs pistolas e abriu inutilmente trs ou quatro gavetas, para ver se no estaria por l alguma moeda perdida, e depois de estar bem 
certo de que semelhante busca era suprflua seguiu d'Artagnan, perguntando a si prprio como era possvel que o jovem cadete dos guardas soubesse to bem como ele 
quem era a mulher a que concedera hospitalidade e melhor do que ele o que acontecera a essa mulher.
S  sada, Aramis pousou a mo no brao de d'Artagnan e perguntou ao jovem, olhando-o fixamente:
- No falaste dessa mulher a ningum?
- A ningum no mundo.
- Nem mesmo a Athos ou a Porthos?
- No lhes disse absolutamente nada.
- Ainda bem.
E, tranquilo a respeito de to importante ponto, Aramis continuou o seu caminho com d'Artagnan e no tardaram a chegar a casa de Athos.
Encontraram-no segurando a sua licena com uma das mos e uma carta do Sr. de Trville com a outra.
- Podeis explicar-me que significam esta licena e esta carta que acabo de receber? - perguntou Athos, atnito.


Meu caro Athos:

Desejo, visto a vossa sade o exigir absolutamente, que descanseis quinze dias. Ide pois tomar as guas de Forges ou quaisquer outras que vos convenham, e restabelecei-vos 
prontamente.
Vosso dedicado,

Trville.


- Bom, essa licena e esta carta significam que me deveis seguir, Athos.
- s guas de Forges?
- A ou a outro lado.
- Ao servio do rei?
- Do rei ou da rainha. No estamos ao servio de Suas Majestades? Neste momento entrou Porthos.
- Com a breca, aqui est uma coisa estranha! - exclamou. - Desde quando nos mosqueteiros concedem licenas s pessoas sem as pedirem?
- Desde que tm amigos que as pedem por elas - respondeu d'Artagnan.
- Hum... parece-me que h novidades por aqui!... - observou Porthos.
- Pois h. Partamos - interveio Aramis.
- Para que pas? - perguntou Porthos.
- Palavra que no sei absolutamente nada - confessou Athos. - perguntai a d'Artagnan.
- Para Londres, meus senhores - informou d'Artagnan.
- Para Londres! - exclamou Porthos. - E que vamos fazer a Londres?
- A est o que no vos posso dizer, meus senhores; tendes de confiar em mim.


14 - 15


- Mas para ir a Londres - acrescentou Porthos -  preciso dinheiro, e eu no o tenho.
- Nem eu - confessou Aramis.
- Nem eu - declarou Athos.
- Tenho-o eu - tranquilizou-os d'Artagnan, tirando o seu tesouro da algibeira e pondo-o em cima da mesa. - Essa bolsa contm trezentas pistolas; tiremos cada um 
setenta e cinco;  quanto basta para ir a Londres e voltar. De resto, estai tranquilos, pois no chegaremos todos a Londres.
- Porqu?
- Porque segundo todas as probabilidades alguns de ns ficaro pelo caminho.
- Mas ento vamos entrar nalguma campanha?
- E das mais perigosas, previno-vos.
- L por isso!... No entanto, uma vez que nos arriscamos a ser mortos, gostaria ao menos de saber porqu - declarou Porthos.
- No insistas que da no levas nada! - observou Athos.
- Mesmo assim, sou da opinio de Porthos - disse Aramis.
- O rei tem porventura o hbito de vos dar contas? No! Diz-vos muito simplesmente: "Meus senhores, combate-se na Gasconha ou na Flandres; ide bater-vos." E vs 
ides. Porqu?  coisa que nem sequer vos passa pela cabea perguntar.
- D'Artagnan tem razo - interveio Athos. - Temos as nossas trs licenas passadas pelo Sr. de Trville, e temos trezentas pistolas vindas no sei de onde. Vamos 
fazer-nos matar onde nos dizem para irmos. Valer a pena o trabalho de fazer tantas perguntas? d'Artagnan, estou pronto a acompanhar-te.
- E eu tambm - disse Porthos.
- E eu - acrescentou Aramis. - De resto, no me custa nada deixar Paris; preciso de me distrair.
- Pois no vos faltaro distraces, meus senhores, podeis estar tranquilos - redarguiu d'Artagnan.
- Quando partimos? - perguntou Athos.
- Imediatamente - respondeu d'Artagnan. - No h um minuto a perder.
- Ol, Grimaud, Planchet, Mousqueton, Bazin! - gritaram os quatro jovens, chamando os seus lacaios. - Engraxai-nos as botas e ide buscar os cavalos  estalagem.
Com efeito, todos os mosqueteiros deixavam na estalagem geral, como se fosse um quartel, o seu cavalo e o do seu criado. Planchet, Grimaud, Mousqueton e Bazin saram 
a correr.
- Agora tracemos o plano de campanha - disse Porthos. - Aonde vamos primeiro?
- A Calais - respondeu d'Artagnan. -  a linha mais directa para chegar a Londres.
- Bom, se quereis saber a minha opinio... - tornou Porthos.

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- Dizei.
- Quatro homens viajando juntos tornar-se-iam suspeitos. D'Artagnan dar a cada um as suas instrues e eu partirei  frente pela estrada de Bolonha, a fim de explorar 
o caminho. Athos partir duas horas depois pela estrada de Amiens e Aramis seguir-nos- pela de Noyon. Quanto a d'Artagnan, partir pela que quiser com as roupas 
de Planchet, enquanto Planchet nos seguir como d'Artagnan e com o uniforme dos guardas.
- Meus senhores - disse Athos -, a minha opinio  que no convm meter em nada lacaios num caso destes: um segredo pode por acaso ser revelado por gentis-homens, 
mas  quase sempre vendido por lacaios.
- O plano de Porthos parece-me impraticvel - disse d'Artagnan -, pois eu prprio ignoro que instrues vos posso dar. Sou portador de uma carta e mais nada. No 
tenho nem posso tirar trs cpias da carta, visto estar lacrada; portanto, na minha opinio, temos de viajar juntos. A carta est aqui, nesta algibeira - e mostrou 
a algibeira onde estava a carta. - Se for morto, um de vs guard-la- e continuareis a viagem; se esse for morto, ser a vez de outro, e assim sucessivamente. Contanto 
que um chegue,  tudo quanto  preciso.
- Bravo, d'Artagnan! A tua opinio  a minha - disse Athos. - De resto,  preciso ser consequente: eu vou para guas e vs acompanhais-me; em vez das guas de Forges, 
vou tomar as guas do mar; sou livre, posso escolher. Se nos quiserem deter, mostrarei a carta do Sr. de Trville e vs mostrareis as vossas licenas; se nos atacarem, 
defender-nos-emos; se nos interrogarem, sustentaremos obstinadamente que a nossa nica inteno era mergulhar certo nmero de vezes no mar; dominariam facilmente 
quatro homens isolados, mas quatro homens reunidos fazem um exrcito. Armaremos os quatro lacaios com pistolas e mosquetes; se mandarem um exrcito contra ns travaremos 
batalha e o sobrevivente, como disse d'Artagnan, levar a carta.
- Bom - disse Aramis -, no falas muitas vezes, Athos, mas quando falas  como se falasse So Joo Boca de Ouro. Aprovo o plano de Athos. E tu, Porthos?
- Tambm, se agrada a d'Artagnan - respondeu Porthos. - D'Artagnan, portador da carta,  naturalmente o chefe da empresa; ele que decida e ns executaremos.
- Visto isso - disse d'Artagnan -, decido que adoptemos o plano de Athos e que partamos dentro de meia hora.
- Aprovado! - gritaram em coro os trs mosqueteiros.
E cada um estendeu a mo para a bolsa, da qual tirou setenta e cinco pistolas, e foi fazer os seus preparativos para partir  hora combinada.

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        XX - A VIAGEM


        s duas horas da madrugada os nossos quatro aventureiros saram de Paris pela Barreira de Saint-Denis. Enquanto foi de noite, conservaram-se calados; a seu 
pesar, sofriam a influncia da obscuridade e viam emboscadas por toda a parte.
Aos primeiros alvores do dia as lnguas destravaram-se-lhes com o sol, a boa disposio voltou. Era como na vspera de um combate: o corao batia, os olhos riam; 
sentia-se que a vida que talvez se fosse deixar era, no fim de contas, uma coisa boa.
O aspecto da caravana era dos mais formidveis: os cavalos dos mosqueteiros, o seu ar marcial, o hbito do esquadro que faz trotar regularmente esses nobres companheiros 
do soldado, trairiam o mais rigoroso incgnito.
Os criados iam armados at aos dentes.
Foi tudo bem at Chantilly, onde chegaram por volta das oito horas da manh. Precisavam de tomar o pequeno-almoo. Desmontaram diante de uma estalagem recomendada 
por uma tabuleta que representava So Martinho dando a metade da sua capa a um pobre. Recomendaram aos lacaios que no desselassem os cavalos e que estivessem prontos 
para partir  primeira voz.
Entraram na sala comum e sentaram-se  mesa.
Um gentil-homem que acabara de chegar pela estrada de Dammartin estava sentado a essa mesma mesa e tomava o pequeno-almoo. Meteu conversa sobre o estado do tempo 
e os viajantes responderam; bebeu  sua sade e os viajantes retriburam-lhe a delicadeza.
Mas no momento em que Mousqueton vinha anunciar que os cavalos estavam prontos e se levantavam da mesa, o desconhecido props a Porthos uma sade ao cardeal. Porthos 
respondeu-lhe que estava de acordo se por sua vez o desconhecido bebesse  sade do rei. O desconhecido gritou que no conhecia outro rei alm de Sua Eminncia. 
Porthos chamou-lhe bbado; o desconhecido puxou da espada.
- Cometestes uma tolice - disse Athos a Porthos. - Pacincia, agora j no  possvel recuar: matai esse homem e juntai-vos a ns o mais depressa que puderdes.
E todos trs montaram e partiram a toda a brida, enquanto Porthos prometia ao seu adversrio perfur-lo com todos os botes conhecidos na esgrima.
- Sempre h cada um! - exclamou Athos, ao cabo de quinhentos passos.
- Mas por que seria que aquele homem se meteu com Porthos em vez de com qualquer outro? - perguntou Aramis.

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- Porque como Porthos falava mais alto do que ns o tomou pelo chefe - respondeu d'Artagnan.
- Sempre disse que este cadete da Gasconha era um poo de sabedoria - murmurou Athos.
E os viajantes continuaram o seu caminho.
Em Beauvais pararam duas horas, tanto para deixar descansar os cavalos como para esperar por Porthos. Passadas essas duas horas, como Porthos no chegasse nem houvesse 
qualquer notcia dele, puseram-se novamente a caminho.
A uma lgua de Beauvais, num stio em que o caminho se encontrava apertado entre dois taludes, deram com oito ou dez homens que, dado o facto de a estrada no ser 
calcetada naquele stio, pareciam estar ali a trabalhar, abrindo buracos nos trilhos lamacentos.
Receando sujar as botas naquele lamaceiro artificial, Aramis apostrofou-os duramente. Athos quis cham-lo  razo, mas era demasiado tarde. Os operrios desataram 
a troar dos viajantes e com a sua insolncia fizeram perder a cabea at ao frio Athos, que lanou o cavalo contra um deles.
Ento cada um dos homens recuou at  vala e pegou num mosquete que l tinha escondido. Resultado: os nossos sete viajantes foram literalmente passados pelas armas. 
Aramis recebeu uma bala que lhe atravessou o ombro e Mousqueton outra bala que se lhe alojou nas partes carnudas que se prolongavam por baixo dos rins. Contudo, 
Mousqueton s caiu do cavalo, no por estar gravemente ferido, mas sim porque, como no podia ver o ferimento, julgou sem dvida estar mais gravemente ferido do 
que na realidade estava.
-  uma emboscada! - gritou d'Artagnan. - No percamos tempo a responder ao fogo; a caminho.
Por muito ferido que estivesse, Aramis agarrou-se  crina do cavalo, que o levou com os outros. O de Mousqueton tambm se lhes juntara e galopava sozinho no seu 
lugar.
- Servir-nos- de cavalo de reserva - disse Athos.
- Preferia um chapu - declarou d'Artagnan. - O meu foi levado por uma bala. Foi uma sorte, palavra, a carta de que sou portador no estar dentro dele.
- Se foi! Mas eles vo matar o pobre Porthos quando passar por l - lembrou Aramis.
- Se Porthos ainda se aguentasse nas pernas, j se nos teria juntado - observou Athos. - Mas parece-me que no campo da honra o bbado ficou sbrio de um momento 
para o outro.
Galoparam durante mais duas horas, embora os cavalos estivessem to cansados que era de recear que ficassem em breve incapacitados para prosseguir.
Os viajantes tinham metido por atalhos, esperando serem assim menos inquietados, mas em Crvecoeur o pobre Aramis declarou que no podia ir mais longe. Com efeito, 
precisara de toda a sua coragem, que ocultava sob o seu aspecto elegante e sob as suas maneiras distintas, para chegar at ali.

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A todo o momento empalidecia e tinham de o amparar no cavalo. Desmontaram-no  porta de um botequim e deixaram-lhe Bazin, que de resto, numa escaramua, era mais 
incmodo do que til, e voltaram a partir esperanados em irem dormir a Amiens.
- Com mil demnios - exclamou Athos quando se viram na estrada reduzidos a dois amos e a Grimaud e Planchet -, com mil demnios, nunca mais me levaro  certa! Garanto-vos 
que ningum me far abrir a boca nem puxar da espada daqui a Calais. Juro-vos que...
- No juremos - atalhou d'Artagnan. - Galopemos, se os nossos cavalos ainda o consentem.
E os viajantes cravaram as esporas no ventre dos cavalos que, energicamente estimulados, recuperaram foras. Chegaram a Amiens  meia-noite e desmontaram na estalagem 
do Lis d'Or.
O estalajadeiro tinha o ar do mais honesto homem do mundo e recebeu os viajantes de vela numa mo e de barrete de algodo na outra. Quis instalar os viajantes nos 
seus melhores quartos, mas infelizmente cada um desses quartos ficava numa extremidade da estalagem. D'Artagnan e Athos recusaram; o estalajadeiro respondeu que 
no tinha outros dignos de Suas Excelncias; mas os viajantes declararam que dormiriam na camarata comum, cada um numa enxerga posta no cho. O estalajadeiro insistiu, 
os hspedes teimaram, e teve de se fazer como eles queriam.
Acabavam de fazer a cama no cho e de barricar a porta por dentro quando bateram ao postigo do ptio; perguntaram quem era, reconheceram a voz dos seus dois lacaios 
e abriram.
Eram, com efeito, Planchet e Grimaud.
- Grimaud chega para guardar os cavalos - disse Planchet. - Se os senhores quiserem, dormirei atravessado na porta; assim, ningum os incomodar.
- E onde dormirs? - perguntou d'Artagnan.
- Nesta cama - respondeu Planchet. E mostrou um fardo de palha.
- Est bem, entra - concordou d'Artagnan. - Tens razo, a cara do estalajadeiro no me agrada;  demasiado amvel.
- Nem a mim - disse Athos.
Planchet entrou pela janela e instalou-se atravessado na porta, enquanto Grimaud se ia fechar na cavalaria, depois de informar que s cinco horas da manh ele e 
os quatro cavalos estariam prontos.
A noite foi bastante sossegada. Por volta das duas da madrugada tentaram abrir a porta, mas como Planchet acordasse em sobressalto e gritasse: "Quem est a?", responderam-lhe 
que se tinham enganado e afastaram-se.
s quatro horas da manh ouviu-se grande barulho nas cavalarias. Grimaud quisera acordar os moos de estrebaria e estes tinham-lhe cado em cima. Quando abriram 
a janela viram o pobre rapaz sem sentidos, com a cabea rachada por uma cacetada com o cabo de uma forquilha.

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Planchet desceu ao ptio e quis selar os cavalos; os cavalos estavam aguados. O de Mousqueton era o nico que, por ter viajado sem cavaleiro durante cinco ou seis 
horas, na vspera, poderia continuar; mas por um erro inconcebvel, o cirurgio-veterinrio que tinham mandado chamar, ao que parece para sangrar o cavalo do estalajadeiro, 
sangrara o de Mousqueton.
Aquilo comeava a tornar-se inquietante: todos aqueles acidentes sucessivos deviam-se talvez ao acaso, mas tambm podiam ser fruto de uma conspirao. Athos e d'Artagnan 
saram, enquanto Planchet se ia informar se no haveria trs cavalos  venda nos arredores.  porta estavam dois cavalos completamente arreados, frescos e vigorosos. 
Era precisamente o que lhe convinha. Perguntou onde estavam os donos; responderam-lhe que os donos tinham passado a noite na estalagem e estavam a fazer contas com 
o estalajadeiro.
Athos desceu para pagar a despesa, enquanto d'Artagnan e Planchet esperavam  porta da rua; o estalajadeiro estava num quarto baixo e recuado e pediu a Athos para 
entrar.
Athos entrou sem desconfiana e puxou de duas pistolas para pagar. O estalajadeiro estava sozinho e sentado  secretria, que tinha uma das gavetas entreaberta. 
Pegou no dinheiro que lhe apresentou Athos, virou-o e revirou-o nas mos e de sbito, gritando que a moeda era falsa, declarou que o ia mandar prender, a ele e ao 
companheiro, como moedeiros falsos.
- Velhaco! - gritou Athos correndo para ele. - Vou-te cortar as
orelhas!
No mesmo instante, quatro homens armados at aos dentes entraram pelas portas laterais e atiraram-se a Athos.
- Apanharam-me! - gritou Athos com toda a fora dos seus pulmes. - Foge, d'Artagnan! D de esporas! D de esporas! - e disparou dois tiros de pistola.
D'Artagnan e Planchet no esperaram que Athos repetisse o aviso; desamarraram os dois cavalos que esperavam  porta, montaram-nos, cravaram-lhes as esporas no ventre 
e partiram a todo o galope.
- Sabes o que aconteceu a Athos? - perguntou d'Artagnan a Planchet enquanto corriam.
- Ah, senhor, vi cair dois com os seus dois tiros e pareceu-me, atravs da porta envidraada, que esgrimia com os outros! - respondeu Planchet.
- Bravo, Athos! - murmurou d'Artagnan. - E pensar que tive de o abandonar! Talvez nos espere o mesmo a dois passos daqui... Em frente, Planchet, em frente! s um 
excelente homem.
- J vos tinha dito, senhor - respondeu Planchet -, que os Picardos se reconhecem pelas obras. De resto, como estou na minha regio, isso excita-me.

21

Esporeando constantemente os cavalos, chegaram a Saint-Omer numa s tirada. Em Saint-Omer fizeram descansar os cavalos com as rdeas passadas pelos braos, com receio 
de algum acidente, e comeram qualquer coisa  pressa, de p na rua, depois do que voltaram a partir.
A cem passos das portas de Calais, o cavalo de d'Artagnan caiu e no houve maneira de o levantar: o sangue saa-lhe pelas ventas e pelos olhos; restava o de Planchet, 
mas esse parara e foi impossvel obrig-lo a partir.
Felizmente, como dissemos, estavam a cem passos da cidade; deixaram as duas montadas na estrada real e correram para o porto. Planchet chamou a ateno do amo para 
um gentil-homem que chegava com o seu criado e que os precedia apenas uns cinquenta passos.
Aproximaram-se rapidamente do gentil-homem, que parecia muito apressado. Tinha as botas cobertas de poeira e perguntava se no poderia atravessar imediatamente para 
Inglaterra.
- Nada mais fcil - respondeu o patro de um barco pronto para se fazer  vela -, mas esta manh chegou uma ordem para no deixar partir ningum sem licena expressa 
do Sr. Cardeal.
- Tenho essa licena - respondeu o gentil-homem, tirando um pedao de papel da algibeira. - Ei-la.
- Fazei-a visar pelo governador do porto e dai-me a preferncia - disse o patro.
- Onde poderei encontrar o governador?
- Na sua quinta.
- Pois sim, mas onde fica essa quinta?
- A um quarto de lgua da cidade. Olhai, podeis v-la daqui, ao p daquele cabeo, aquele telhado de ardsia.
- ptimo! - exclamou o gentil-homem.
E seguido do lacaio tomou o caminho da casa de campo do governador.
D'Artagnan e Planchet seguiram o gentil-homem a quinhentos passos de distncia.
Uma vez fora da cidade, d'Artagnan estugou o passo e juntou-se ao gentil-homem quando este entrava num bosquezinho.
- Pareceis-me muito apressado, senhor - observou d'Artagnan.
- De facto, senhor, ningum tem mais pressa do que eu.
- Sinto-me desesperado - disse d'Artagnan -, pois tambm tenho pressa e queria pedir-vos um favor.
- Qual?
- Deixar-me passar em primeiro lugar.
- Impossvel - respondeu o gentil-homem. - Percorri sessenta lguas em quarenta e quatro horas e tenho de estar amanh ao meio-dia em Londres.
- Pois eu percorri o mesmo caminho em quarenta horas e tenho de estar amanh s dez horas da manh em Londres.

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- Desesperado, senhor; mas fui o primeiro a chegar e no passarei em segundo lugar.
- Desesperado, senhor; mas cheguei em segundo e passarei em primeiro.
- Servio do rei! - exclamou o gentil-homem.
- Servio meu! - redarguiu d'Artagnan.
- Parece-me que procurais provocar-me...
- Por Deus, s agora o descobristes?
- Que desejais?
- Quereis saber?
- Certamente.
- Quero a ordem de que sois portador, atendendo a que no tenho nenhuma e preciso dela.
- Gracejais, presumo.
- Nunca gracejo.
- Deixai-me passar!
- No passareis.
- Meu pobre rapaz, vou estoirar-vos os miolos. Ol, Lubin, as minhas pistolas.
- Planchet - disse d'Artagnan -, encarrega-te do criado que eu encarrego-me do amo.
Planchet, estimulado pela primeira faanha, saltou sobre Lubin e, como era forte e vigoroso, derrubou-o de costas e ps-lhe o joelho no peito.
- Tratei da vossa parte, senhor, que eu j tratei da minha - informou Planchet.
Ao ver aquilo, o gentil-homem desembainhou a espada e caiu sobre d'Artagnan; mas tinha pela frente um adversrio de respeito.
Em trs segundos, d'Artagnan aplicou-lhe trs estocadas, dizendo a cada uma:
- Uma por Athos, uma por Porthos, uma por Aramis.
 terceira estocada o gentil-homem caiu como uma massa.
D'Artagnan julgou-o morto, ou pelo menos desmaiado, e aproximou-se para lhe tirar a ordem; mas no momento em que estendia o brao para o revistar, o ferido, que 
no largara a espada, vibrou-lhe um bote de ponta no peito dizendo:
- Uma por vs!
- E uma por mim! Os ltimos so sempre os primeiros! - gritou d'Artagnan, furioso, pregando-o ao cho com quarta estocada no ventre.
Desta vez o gentil-homem fechou os olhos e perdeu os sentidos.
D'Artagnan revistou-lhe a algibeira onde o vira guardar a ordem de passagem e tirou-lha. Estava passada em nome do conde de Wardes.
Depois, deitando um derradeiro olhar ao belo jovem de vinte e cinco anos apenas, que deixara ali estendido, sem sentidos ou talvez morto, soltou um suspiro a propsito 
do estranho destino que levava os homens a destrurem-se uns aos outros

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pelos interesses de pessoas que lhes so estranhas e que muitas vezes no sabem sequer que eles existem.
Mas no tardou a ser arrancado s suas reflexes por Lubin, que berrava a plenos pulmes por socorro.
Planchet ps-lhe a mo na garganta e apertou com toda a fora, ao mesmo tempo que dizia:
- Senhor, enquanto o mantiver assim, no gritar, tenho absoluta certeza; mas assim que o largar, desatar outra vez a gritar. Reconheo-o,  normando, e os Normandos 
so teimosos.
Com efeito, apesar de ter o gasganete bem apertado, Lubin ainda tentava emitir alguns sons.
- Espera! - disse d'Artagnan.
E pegando no seu leno amordaou-o.
- Agora - disse Planchet - amarremo-lo a uma rvore.
A coisa foi feita conscienciosamente e depois arrastaram o conde de Wardes para junto do criado; e como comeava a anoitecer e o amarrado e o ferido estavam alguns 
passos dentro do bosque, era evidente que ficariam ali at ao dia seguinte.
- E agora a casa do governador! - disse d'Artagnan.
- Mas parece-me que estais ferido - observou Planchet.
- No  nada, ocupemo-nos do mais urgente; depois cuidaremos do meu ferimento, que de resto no me parece muito perigoso.
E dirigiram-se ambos em grandes passadas para a quinta do digno funcionrio.
Anunciaram o Sr. Conde de Wardes. D'Artagnan foi introduzido.
- Tendes uma ordem assinada pelo cardeal? - perguntou o governador.
- Tenho, sim, senhor; ei-la - respondeu d'Artagnan.
- ptimo, est em ordem e bem recomendada! - disse o governador.
- Por um motivo muito simples - respondeu d'Artagnan. - Sou um dos seus mais fiis.
- Parece que Sua Eminncia quer impedir algum de chegar a Inglaterra.
- Sim, um tal d'Artagnan, um gentil-homem bearns que partiu de Paris com trs dos seus amigos na inteno de chegar a Londres.
- Conhecei-lo pessoalmente? - perguntou o governador.
- Quem?
- Esse d'Artagnan.
- De ginjeira!
- Nesse caso, dai-me os seus sinais.
- Nada mais fcil.
E d'Artagnan deu trao por trao os sinais do conde de Wardes.
- Est acompanhado? - perguntou o governador.

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- Est; acompanha-o um criado chamado Lubin.
- Estaremos de olho neles e se lhe pusermos a mo em cima Sua Eminncia pode estar tranquilo que sero reconduzidos a Paris sob escolta.
- Se fizerdes isso, Sr. Governador, bem merecereis do cardeal - disse d'Artagnan.
- V-lo-eis no vosso regresso, Sr. Conde?
- Sem dvida nenhuma.
- Pois ento dizei-lhe, peo-vos, que sou um seu dedicado servidor.
- No me esquecerei.
E satisfeito com esta garantia, o governador visou o livre-trnsito e entregou-o a d'Artagnan.
D'Artagnan no perdeu o seu tempo com cumprimentos inteis; saudou o governador, agradeceu-lhe e partiu.
Uma vez c fora, ele e Planchet desataram a correr e, dando uma grande volta, evitaram o bosque e entraram por outra porta.
O barco continuava pronto a partir e o patro esperava no cais.
- Ento? - perguntou ao ver d'Artagnan.
- Aqui tem o meu passe visado - respondeu o jovem.
- E o outro gentil-homem?
- No partir hoje - respondeu d'Artagnan -, mas estai tranquilo que pagarei a passagem dos dois.
- Nesse caso, partamos - disse o patro.
- Partamos! - repetiu d'Artagnan.
E saltou com Planchet para o escaler. Cinco minutos depois estavam a bordo.
Era tempo: a cerca de meia lgua da costa, d'Artagnan viu brilhar uma luz e ouviu uma detonao. Era o tiro de canho que anunciava o encerramento do porto.
Chegara a altura de se ocupar do seu ferimento. Felizmente, como pensara d'Artagnan, no era dos mais perigosos: a ponta da espada encontrara uma costela e deslizara 
ao longo do osso; alm disso, a camisa colara-se imediatamente  ferida e esta mal vertera algumas gotas de sangue.
D'Artagnan estava morto de cansao; estenderam-lhe uma enxerga na coberta, deitou-se e adormeceu.
No dia seguinte, ao amanhecer, encontrava-se ainda a trs ou quatro lguas da costa da Inglaterra; a brisa fora fraca toda a noite e o barco pouco avanara. Mas 
s dez horas ancorava no porto de Dover.
s dez e meia, d'Artagnan punha p em terra inglesa e exclamava:
- Enfim, c estou!
Mas isso no era tudo: faltava chegar a Londres. Na Inglaterra a posta era bastante eficiente. D'Artagnan e Planchet pediram cada um seu garrano, um postilho apressou-se 
a servi-los e em quatro horas chegaram s portas da capital.
D'Artagnan no conhecia Londres nem sabia uma palavra de ingls; mas escreveu o nome de Buckingham num papel e toda a gente lhe indicou o palcio do duque.


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O duque andava  caa em Windsor, com o rei.
D'Artagnan perguntou pelo criado de quarto de confiana do duque, que, tendo-o acompanhado em todas as suas viagens, falava perfeitamente francs, e disse-lhe que 
vinha de Paris por causa de um assunto de vida ou de morte e que precisava de falar imediatamente com Buckingham.
A convico com que d'Artagnan falava convenceu Patrice, pois assim se chamava aquele ministro do ministro. Mandou selar dois cavalos e encarregou-se de acompanhar 
o jovem guarda. Quanto a Planchet, tinham-no descido da sua montada, teso como um pau: o pobre rapaz estava exausto; d'Artagnan parecia de ferro.
Chegaram ao castelo; informaram-se: o rei e Buckingham caavam aves nos pntanos situados a duas ou trs lguas dali.
Em vinte minutos chegaram ao local indicado. Patrice no tardou a ouvir a voz do amo, que chamava o seu falco.
- Quem devo anunciar a milorde-duque? - perguntou Patrice.
- O jovem que uma noite o desafiou na Ponte Nova, diante da Samaritana.
- Singular apresentao.
- Vereis que vale tanto como qualquer outra.
Patrice meteu o cavalo a galope, alcanou o duque e anunciou-lhe nos termos que dissemos que o esperava um mensageiro.
Buckingham reconheceu imediatamente d'Artagnan e, desconfiado de que alguma coisa se passava em Frana de que lhe trazia notcia, limitou-se a perguntar onde estava 
o mensageiro; e tendo reconhecido ao longe o uniforme dos guardas, meteu o cavalo a galope e veio direito a d'Artagnan. Patrice, por discrio, manteve-se afastado.
- Aconteceu alguma coisa  rainha? - perguntou Buckingham, deixando transparecer todo o seu pensamento e todo o seu amor nesta interrogao.
- No creio. Mas parece-me que corre qualquer grande perigo de que s Vossa Graa a pode tirar.
- Eu?! - exclamou Buckingham. - Pois qu, serei bastante feliz para lhe poder ser til nalguma coisa? Falai! Falai!
- Tomai esta carta - disse d'Artagnan. Esta carta?... De quem vem esta carta?
- Creio que de Sua Majestade.
- De Sua Majestade! - exclamou Buckingham, empalidecendo tanto que d'Artagnan julgou se sentisse maL.
Quebrou o lacre.
- Que rasgo  este? - perguntou, mostrando a d'Artagnan um stio onde a carta estava furada.
- No tinha reparado nisso! - exclamou d'Artagnan. - Foi a espada do conde de Wardes que fez esse buraco quando me furou o peito.

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- Estais ferido? - perguntou Buckingham, abrindo a carta.
- Oh, no  nada! - respondeu d'Artagnan. - Apenas um arranho?
- Valha-me Deus, que leio eu?! - exclamou o duque. - Patrice, fica aqui, ou antes, vai ter com o rei onde quer que se encontre, e diz a Sua Majestade que lhe suplico 
muito humildemente que me desculpe, mas que um assunto da mais alta importncia me chama a Londres. Vinde, senhor, vinde.
E ambos retomaram a galope o caminho da capital.


        XXI - A CONDESSA DE WINTER


        Durante o percurso, o duque ps-se ao corrente, por intermdio de d'Artagnan, no de tudo o que se passara, mas sim do que d'Artagnan sabia. Conjugando o 
que ouvia da boca do jovem com as suas prprias recordaes, pde no entanto fazer ideia bastante exacta de uma situao cuja gravidade, de resto, a carta da rainha, 
por mais curta e pouco explcita que fosse, lhe dava a medida. Mas o que sobretudo o admirava era que o cardeal, interessado como estava em que o jovem no pusesse 
p em Inglaterra, no tivesse conseguido det-lo na viagem. Foi ento, e perante a manifestao dessa surpresa, que d'Artagnan lhe contou as precaues tomadas e 
como, graas  dedicao dos seus trs amigos, que disseminara ensanguentados pelo caminho, conseguira chegar ali, apenas com o precalo da estocada que furara a 
carta da rainha e que ele retribuira ao Sr. de Wardes de forma to terrvel. Enquanto escutava este relato feito com a maior simplicidade, o duque olhava de vez 
em quando para o jovem, com ar atnito, como se no pudesse compreender que tanta prudncia, coragem e dedicao estivessem de acordo com uma cara que ainda no 
indicava vinte anos.
Os cavalos voavam como o vento e em poucos minutos chegaram s portas de Londres. D'Artagnan julgara que quando chegassem  cidade o duque diminusse o andamento 
da sua montada, mas no foi isso que aconteceu: continuou o seu caminho a todo o galope, pouco se preocupando com o derrube de quem se lhe atravessasse diante das 
patas do cavalo. Com efeito, ao atravessar a City aconteceram dois ou trs acidentes desse gnero; mas Buckingham nem sequer virara a cabea para ver o que acontecera 
aos atropelados. D'Artagnan seguia-o no meio de gritos que se assemelhavam muito a maldies.
Mal entrou no ptio do palcio, Buckingham saltou do cavalo e, sem se preocupar mais com o animal, atirou-lhe as rdeas para o pescoo e correu para a escadaria. 
D'Artagnan fez o mesmo,

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embora com um pouco mais de preocupao pelos animais, cujo mrito tivera ensejo de apreciar; mas teve a consolao de ver que trs ou quatro criados vinham a correr 
das cozinhas e das cavalarias e tomavam imediatamente conta das montadas.
O duque caminhava to rapidamente que d'Artagnan tinha dificuldade em segui-lo. Atravessou sucessivamente vrias salas, de uma elegncia que os maiores fidalgos 
de Frana nem sequer faziam ideia, e chegou por fim a um quarto de dormir que era simultaneamente um milagre de bom gosto e riqueza. Na alcova do quarto havia uma 
porta aberta na prpria parede que o duque abriu com uma chavinha de ouro que trazia ao pescoo suspensa por um fio do mesmo metal. Por discrio d'Artagnan ficara 
para trs; mas no momento em que Buckingham transpunha o limiar da porta virou-se e, vendo a hesitao do jovem, disse-lhe:
- Vinde e se tiverdes a felicidade de ser admitido  presena de Sua Majestade dizei-lhe o que vistes.
Encorajado pelo convite, d'Artagnan seguiu o duque, que voltou a fechar a porta atrs de si.
Ambos se encontraram ento numa capelinha toda forrada de seda da Prsia e brocado dourado, profusamente iluminada por numerosas velas. Por cima de uma espcie de 
altar e por baixo de um dossel de veludo azul encimado por plumas brancas e vermelhas encontrava-se um retrato em tamanho natural de Ana de ustria, de semelhana 
to flagrante que d'Artagnan soltou um grito de surpresa; dir-se-ia que a rainha ia falar.
No altar e debaixo do retrato estava o cofrezinho que encerrava as agulhetas de diamantes.
O duque aproximou-se do altar e ajoelhou-se como faria um padre diante de Cristo; depois abriu o cofre.
- Tomai - disse, tirando do cofre um grande lao de fita azul todo cintilante de diamantes. - Aqui tendes as preciosas agulhetas com as quais jurara ser enterrado. 
A rainha mas deu, a rainha mas tira: a sua vontade, como a de Deus, seja feita em todas as coisas.
Depois ps-se a beijar uma aps outra as agulhetas de que se ia separar. Mas de sbito soltou um grito terrvel.
- Que aconteceu? - perguntou d'Artagnan, com inquietao. - Que vos aconteceu, milorde?
- Est tudo perdido! - gritou Buckingham, empalidecendo como um morto. - Faltam duas agulhetas, s aqui esto dez.
- Milorde t-las- perdido ou julga que lhas roubaram?
- Roubaram-mas - respondeu o duque - e foi obra do cardeal. Vede, as fitas que as prendiam foram cortadas  tesoura.
- Se milorde desconfiasse de quem cometeu o roubo... Talvez essa pessoa ainda as tenha em seu poder.
- Esperai, esperai! - gritou o duque. - A nica vez que usei as agulhetas foi no baile do rei, h oito dias, em Windsor.

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A condessa de Winter, com quem estava zangado, aproximou-se de mim no baile. A reconciliao era uma vingana de mulher ciumenta. Desde esse dia no a tornei a ver. 
Essa mulher  um agente do cardeal.
- Mas ento, tem-nos no mundo inteiro! - exclamou d'Artagnan.
- Pois tem, pois tem - confirmou Buckingham, apertando os dentes com clera. - Sim,  um terrvel lutador. Mas quando  o baile?
- Na prxima segunda-feira.
- Na prxima segunda-feira! Daqui a cinco dias?  tempo mais do que suficiente. Patrice! - chamou o duque abrindo a porta da capela. - Patrice!
O seu criado de quarto de confiana apareceu.
- O meu joalheiro e o meu secretrio!
O criado saiu com uma prontido e um mutismo que demonstravam estar habituado a obedecer cegamente e sem rplica.
Mas embora o joalheiro tivesse sido chamado  frente, foi o secretrio quem apareceu primeiro. Era muito simples: residia no palcio. Encontrou Buckingham sentado 
a uma mesa, no seu quarto de dormir a escrever algumas ordens pelo seu prprio punho.
- Sr. Jackson - disse-lhe o duque -, ide imediatamente a casa do lorde-chanceler e dizei-lhe que o encarrego da execuo destas ordens. Desejo que sejam publicadas 
imediatamente.
- Mas, monsenhor, se o lorde-chanceler me interrogar sobre os motivos que levaram Vossa Graa a tomar uma medida to extraordinria, que responderei?
- Que tal foi a minha deciso e que no tenho de prestar contas a ningum da minha vontade.
- Ser essa a resposta que dever transmitir a Sua Majestade - insistiu, sorrindo o secretrio - se por acaso Sua Majestade tiver a curiosidade de saber por que 
motivo nenhum navio pode sair dos portos da Gr-Bretanha?
- Tendes razo, senhor - respondeu Buckingham. - Nesse caso diria ao rei que decidi a guerra e que esta medida  o meu primeiro acto de hostilidade contra a Frana.
O secretrio inclinou-se e saiu.
- Eis-nos tranquilos por esse lado - disse Buckingham, virando-se para d'Artagnan. - Se as agulhetas ainda no partiram para Frana, s l chegaro depois de vs.
- Como assim?
- Acabo de decretar um embargo sobre todos os navios que se encontrem neste momento nos portos de Sua Majestade, e a no ser com licena especial nenhum se atrever 
a levantar ferro.
D'Artagnan olhou com estupefaco aquele homem que colocava o poder ilimitado de que estava revestido pela confiana de um rei ao servio dos seus amores. Buckingham 
notou a expresso do rosto do jovem e o que se passava no seu pensamento e sorriu.
- Sim,  verdade, Ana de ustria  a minha verdadeira rainha;

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a uma palavra sua, traria o meu pas, traria o meu rei, traria o meu Deus. Pediu-me que no enviasse aos protestantes de La Rochelle o socorro que lhes prometera, 
e assim fiz. Faltei  minha palavra, mas no importa, obedeci ao seu desejo. No fui generosamente recompensado pela minha obedincia, dizei? Porque  a essa obedincia 
que devo o seu retrato.
D'Artagnan registou com admirao por que fios frgeis e desconhecidos esto por vezes suspensos os destinos de um povo e a vida dos homens.
Estava mergulhado profundamente nas suas reflexes quando o joalheiro entrou. Era um irlands dos mais hbeis na sua arte e que confessava pessoalmente que ganhava 
cem mil libras por ano com o duque de Buckingham.
- Sr. O'Reilly - disse-lhe o duque, conduzindo-o  capela -, examinai estas agulhetas de diamantes e dizei-me quanto vale cada uma.
O joalheiro deitou uma nica olhadela  forma elegante como estavam montadas, calculou em mdia o valor dos diamantes e respondeu sem qualquer hesitao:
- Mil e quinhentas pistolas cada uma.
- Quantos dias seriam precisos para fazer duas agulhetas como estas? Como vedes, faltam aqui.
- Oito dias, milorde.
- Pagarei trs mil pistolas por cada uma, mas quero-as depois de amanh.
- Milorde t-las-.
- Sois um homem precioso, Sr. O'Reilly, mas no  tudo: estas agulhetas no podem ser confiadas a ningum; portanto as outras tm de ser feitas neste palcio.
- Impossvel, milorde: s eu as posso executar para que se no note a diferena entre as novas e as antigas.
- Por isso, meu caro Sr. O'Reilly, sois meu prisioneiro e se quissseis sair agora do meu palcio no o conseguireis; decidi-vos, pois. Indicai-me quais os vossos 
ajudantes de que precisais, e os utenslios que devem trazer.
O joalheiro conhecia o duque e sabia que qualquer observao seria intil; tomou portanto imediatamente a sua deciso.
- Ser-me- permitido prevenir a minha mulher? - perguntou.
- Oh, at vos ser permitido v-la, meu caro Sr. O'Reilly! O vosso cativeiro ser suave, estai tranquilo; e como todo o incmodo merece indemnizao, aqui tendes, 
alm do preo das duas agulhetas, um bnus de mil pistolas para vos fazer esquecer o transtorno que vos causo.
D'Artagnan no cabia em si da surpresa que lhe causava aquele ministro que assim dispunha a seu bel-prazer dos homens e dos milhes.
Quanto ao joalheiro, escrevia  mulher, a quem mandava o bnus de mil pistolas e encarregava de lhe mandar em troca o seu mais hbil ajudante, um sortido de diamantes 
de que indicava

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o peso e a qualidade e as ferramentas constantes de uma lista que lhe eram necessrias.
Buckingham conduzia o joalheiro ao quarto que lhe fora destinado e que, passada meia hora, estava transformado em oficina. Em seguida colocou uma sentinela a cada 
porta, com ordem de no deixarem entrar quem quer que fosse, excepto o seu criado de quarto Patrice. Escusado ser acrescentar que era absolutamente proibido ao 
joalheiro O'Reilly e ao seu ajudante sair do quarto fosse sob que pretexto fosse.
Resolvido este pormenor, o duque ocupou-se de d'Artagnan.
- E agora, meu jovem amigo, a Inglaterra  nossa; que quereis, que desejais?
- Uma cama - respondeu d'Artagnan. - De momento, confesso,  a coisa de que mais necessito.
Buckingham deu a d'Artagnan um quarto que comunicava com o seu. Queria ter o jovem constantemente  mo, no porque desconfiasse dele, mas sim para ter algum com 
quem pudesse falar a todo o momento da rainha.
Uma hora depois foi publicada em Londres a ordem de no deixar sair dos portos nenhum navio mercante para Frana, nem mesmo o paquete do correio. Aos olhos de todos 
tratava-se de uma declarao de guerra entre os dois reinos.
Dois dias depois, s onze horas, as duas agulhetas de diamantes estavam acabadas, to exactamente iguais s outras, to perfeitamente idnticas, que Buckingham foi 
incapaz de distinguir as novas das velhas, o que alis tambm teria acontecido a outros mais experientes do que ele na matria.
Mandou chamar imediatamente d'Artagnan.
- Aqui tendes as agulhetas de diamantes que viestes buscar e sede minha testemunha de que tudo o que o poder humano podia fazer foi feito.
- Ficai tranquilo, milorde: direi o que vi; mas Vossa Graa entrega-me as agulhetas sem a caixa?
- A caixa estorvar-vos-ia. De resto, a caixa -me agora tanto mais preciosa quanto  certo ser a nica coisa que me resta. Direis que a guardei.
- Transmitirei o que acabais de me dizer palavra por palavra, milorde.
- E agora - prosseguiu Buckingham, olhando fixamente o jovem - como me desobrigarei alguma vez para convosco?
D'Artagnan corou at  raiz dos cabelos. Viu que o duque procurava maneira de o fazer aceitar qualquer coisa e a ideia de o sangue dos seus companheiros e o seu 
serem pagos por ouro ingls repugnava-lhe estranhamente.
- Entendamo-nos, milorde - respondeu d'Artagnan -, e pesemos bem os factos antecipadamente, para que no haja sombra de equvoco. - Estou ao servio do rei e da 
rainha de Frana e fao parte da companhia de guardas do Sr. dos Essarts, o qual,
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assim como o seu cunhado, o Sr. de Trvlle,  muito especialmente dedicado a Suas Majestades. Fiz portanto tudo pela rainha e nada por Vossa Graa. Mais, talvez 
no tivesse dado um passo em tudo isto se no fosse para ser agradvel a algum que  tanto minha dama como a rainha  vossa.
- Sim - disse o duque, sorrindo - e creio at conhecer essa pessoa. ...
- Milorde, eu no disse quem era - interrompeu-o vivamente o jovem.
- Tendes razo - admitiu o duque. -  portanto a essa pessoa que devo estar reconhecido pela vossa dedicao.
-  como dizeis, milorde, porque precisamente neste momento, em que j estamos em guerra, confesso-vos que s vejo em Vossa Graa um ingls, e por consequncia um 
inimigo que ficaria mais encantado por encontrar no campo de batalha do que no parque de Windsor ou nos corredores do Louvre; o que, alis, no me impedir de cumprir 
ponto por ponto a minha misso e de me fazer matar, se for necessrio, para a cumprir; mas repito a Vossa Graa: no tendes de me agradecer pessoalmente mais por 
isso, que fao por mim neste segundo encontro, do que j fiz por vs no primeiro.
- Ns costumamos dizer: "Orgulhoso como um escocs" - murmurou Buckingham.
- E ns dizemos: "Orgulhoso como um gasco" - redarguiu d'Artagnan. - Os gasces so os Escoceses da Frana.
D'Artagnan saudou o duque e preparou-se para partir.
- Ento, ides assim sem mais nem menos? Por onde? Como?
-  verdade...
- Diabos me levem, os Franceses julgam-se capazes de tudo!
- Esquecera-me de que a Inglaterra  uma ilha da qual sois o rei.
- Dirigi-vos ao porto, perguntai pelo brigue Sund e entregai esta carta ao comandante; ele vos levar a um portinho onde decerto vos no esperam e onde habitualmente 
s aportam barcos de pesca.
- Como se chama esse porto?
- Saint-Valery. Mas ateno: chegado l, entrareis numa estalagem miservel, sem nome nem tabuleta, uma verdadeira espelunca de marinheiros; no tendes que vos enganar, 
pois no h outra assim.
- E depois?
- Perguntareis pelo estalajadeiro e dir-lhe-eis: "Forward."
- Que significa isso?
- "Em frente".  um santo-e-senha. Ele dar-vos- um cavalo selado e indicar-vos- o caminho que deveis seguir. Encontrareis assim quatro mudas no caminho. Se em 
cada uma delas quiserdes dar o vosso endereo em Paris os quatro cavalos ser-vos-o l entregues. J conheceis dois e pareceu-me que os apreciastes como amador; 
refiro-me queles que montmos. Acreditai em mim: os outros no lhes so inferiores. Os quatro cavalos esto equipados para campanha.

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Por muito orgulhoso que sejais, no recusareis decerto aceitar um e fazer aceitar os outros trs pelos vossos companheiros;  para nos guerrearem, de resto. O fim 
justifica os meios, como vs, Franceses, dizeis, no  verdade?
- Est bem, milorde, aceito - respondeu d'Artagnan. - E se aprouver a Deus faremos bom uso dos vossos presentes.
- Agora, a vossa mo, meu jovem amigo. Talvez nos encontremos brevemente no campo de batalha, mas entretanto espero que nos separemos como bons amigos.
- Sim, milorde, mas com a esperana de em breve nos tornarmos inimigos.
- Prometo-vo-lo, podeis estar tranquilo.
- Confio na vossa palavra, milorde.
D'Artagnan saudou o duque e dirigiu-se rapidamente para o porto. Encontrou o navio indicado diante da torre de Londres, entregou a sua carta ao comandante, que a 
fez visar pelo governador do porto e aparelhou imediatamente.
Cinquenta navios estavam prontos para largar e esperavam.
Ao passar junto de um deles, d'Artagnan julgou reconhecer a mulher de Meung, a mesma que o gentil-homem desconhecido tratara por "milady" e que ele, d'Artagnan, 
achara to bela; mas graas  corrente do rio e ao bom vento que soprava o seu navio ia to depressa que pouco depois o outro ficou fora de vista.
No dia seguinte, cerca das nove horas da manh, aportaram a Saint-Valery.
D'Artagnan dirigiu-se imediatamente para a estalagem indicada e reconheceu-a pelos gritos que dela saam: falava-se de guerra entre a Inglaterra e a Frana como 
coisa prxima e indubitvel e os marujos, satisfeitos, entregavam-se a grande pndega.
D'Artagnan abriu caminho atravs da multido, dirigiu-se ao estalajadeiro e pronunciou a palavra Forward, O estalajadeiro fez-lhe imediatamente sinal para o seguir, 
saiu com ele por uma porta que dava para o ptio, conduziu-o  cavalaria onde o esperava um cavalo selado e perguntou-lhe se precisava de mais alguma coisa.
- Preciso de conhecer o caminho que devo seguir - respondeu d'Artagnan.
- Ide daqui a Blangy e de Blangy a Neufchtel. Em Neufchtel entrai na estalagem da Herse d'Or, dai o santo-e-senha ao estalajadeiro e encontrareis como aqui um 
cavalo selado.
- Devo alguma coisa? - perguntou d'Artagnan.
- Est tudo pago, e generosamente - respondeu o estalajadeiro. - Ide e que Deus vos acompanhe!
- men! - redarguiu o jovem, partindo a galope. Quatro horas mais tarde estava em Neufchtel.
Seguiu  risca as instrues recebidas; em Neufchtel, como em Saint-Valery, encontrou  sua espera uma montada selada;

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quis levar as pistolas da sela que acabava de deixar para a sela que ia utilizar, mas os coldres estavam guarnecidos de pistolas idnticas.
- O vosso endereo em Paris?
- Quartel das Guardas, companhia do Sr. dos Essarts.
- Muito bem - respondeu o homem.
- Que estrada devo seguir? - perguntou por seu turno d'Artagnan.
- A de Ruo; mas deixareis a cidade  vossa direita. Parai na aldeiazinha de Ecouis, onde s h uma estalagem, o cu de France. No a julgueis pela aparncia; ter 
nas suas cavalarias um cavalo to bom como este.
- O mesmo santo-e-senha?
- Exactamente.
- Adeus, mestre!
- Boa viagem, gentil-homem! Precisais de alguma coisa? D'Artagnan acenou com a cabea que no e partiu a toda a brida.
Em Ecouis repetiu-se a mesma cena: encontrou um estalajadeiro igualmente prevenido e um cavalo fresco e descansado; deixou o seu endereo, como fizera anteriormente, 
e partiu da mesma forma para Pontoise. Em Pontoise mudou pela ltima vez de montada e s nove horas entrava a todo o galope no ptio do palcio do Sr. de Trville.
Percorrera cerca de sessenta lguas em doze horas.
O Sr. de Trville recebeu-o como se j o tivesse visto naquela mesma manh; apenas ao apertar-lhe a mo um pouco mais vivamente do que de costume anunciou-lhe que 
a companhia do Sr. dos Essarts estava de guarda ao Louvre e podia ir ocupar o seu posto.


        XXII - O BAILADO DA MERLAISON


        No dia seguinte no se falava doutra coisa em todo o Paris a no ser no baile que os Srs. Almotacs da cidade davam em honra do rei e da rainha e no qual 
Suas Majestades deveriam danar o famoso bailado da Merlaison, que era o bailado favorito do rei.
Com efeito, havia oito dias que se preparava tudo na Cmara Municipal para a solene soire. O carpinteiro da cidade erguera estrados para as damas convidadas e o 
merceeiro guarnecera as salas com duzentas tochas de cera branca, o que era um luxo inaudito para a poca; finalmente, tinham sido contratados vinte violinistas 
pelo dobro do preo habitual, atendendo, diz o documento a que nos reportamos, a que deviam tocar toda a noite.
s dez horas da manh, o Sr. de La Coste, porta-bandeira das Guardas do rei, acompanhado de dois agentes da Polcia e de vrios archeiros, foi pedir ao escrivo 
da cidade,

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chamado Clment, todas as chaves das portas, das salas e das reparties da Cmara. As chaves foram-lhe imediatamente entregues; cada uma delas tinha uma etiqueta 
para ser reconhecida e a partir daquele momento o Sr. de La Coste ficou encarregado da guarda de todas as portas e de todos os acessos.
s onze horas chegou por seu turno Duhallier, capito das Guardas, trazendo consigo cinquenta archeiros que se distriburam imediatamente pela Cmara Municipal, 
junto das portas que lhes tinham sido indicadas.
s trs horas chegaram duas companhias de guardas, uma francesa e outra sua. A companhia de guardas franceses era constituda metade por homens do Sr. Duhallier 
e metade por homens do Sr. dos Essarts.
s seis horas da tarde comearam a entrar os convidados.  medida que entravam eram instalados no salo, nos estrados preparados.
s nove horas chegou a Sr.a Primeira-Presidente. Como era, depois da rainha, a pessoa mais importante da festa, foi recebida por dignitrios da cidade e instalada 
no camarote fronteiro quele que devia ocupar a rainha.
s onze horas preparou-se a mesa de confeitos para o rei na salinha do lado da Igreja de Saint-Jean e defronte do bufete de prata da cidade, guardado por quatro 
archeiros.
 meia-noite ouviram-se grandes gritos e numerosas aclamaes: era o rei que vinha atravs das ruas que levavam do Louvre  Cmara Municipal, as quais estavam todas 
iluminadas com lanternas coloridas.
Imediatamente os Srs. Almotacs, envergando as suas tnicas de pano e precedidos pelos seis agentes da Polcia, cada um com a sua tocha na mo, foram ao encontro 
do rei, que encontraram nos degraus, onde o preboste dos mercadores o cumprimentou e lhe deu as boas- vindas, cumprimento a que Sua Majestade respondeu desculpando-se 
de vir to tarde, mas atribuindo a culpa ao Sr. Cardeal, que o retivera at s onze horas com os negcios do Estado.
Sua Majestade, em traje de cerimnia, era acompanhado de Sua Alteza Real Monsieur, do conde de Soissons, do prior-mor, do duque de Longueville, do duque de Elbeuf, 
do conde de Harcourt, do conde de La Roche-Guyon, do Sr. de Liancourt, do Sr. de Baradas, do conde de Cramail e do cavaleiro de Souveray.
Todos notaram que o rei estava triste e preocupado.
Fora preparado um gabinete para o rei e outro para Monsieur. Em cada um deles encontravam-se trajes de mscaras. Procedera-se de igual modo para com a rainha e a 
Sr.a Presidente. Os cavalheiros e as damas dos squitos de Suas Majestades deveriam vestir-se dois a dois em gabinetes preparados para o efeito.
Antes de entrar no gabinete o rei recomendou que o viessem imediatamente prevenir da chegada do cardeal.
Cerca de meia hora depois da entrada do rei ouviram-se novas aclamaes, estas anunciando a chegada da rainha.

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Os almotacs procederam como j tinham procedido com o rei e, precedidos de sergentes, foram ao encontro da sua ilustre convidada.
A rainha entrou no salo: notou-se que, como o rei, tinha um ar triste e sobretudo cansado.
Quando entrou, a cortina de uma tribunazinha que at ali estivera fechada abriu-se e apareceu o rosto plido do cardeal, vestido de fidalgo espanhol. Os seus olhos 
fixaram-se nos da rainha e um sorriso de terrvel satisfao passou-lhe pelos lbios: a rainha no trazia as agulhetas de diamantes.
A rainha ficou algum tempo a receber os cumprimentos dos dignitrios da cidade e a responder s saudaes das damas.
De sbito, o rei apareceu com o cardeal a uma das portas da sala. O cardeal falava-lhe baixinho e o rei estava muito plido.
O rei abriu caminho atravs da multido e sem mscara e com as fitas do gibo quase desatadas aproximou-se da rainha e perguntou-lhe com a voz alterada:
- Senhora, dizei-me, por favor, por que motivo no trazeis as vossas agulhetas de diamantes, quando sabeis que gostaria de as ver?
A rainha olhou  sua volta e viu atrs do rei o cardeal sorrir diabolicamente.
- Sire, porque receei que no meio desta grande multido lhes acontecesse alguma coisa - respondeu a rainha.
- Pois fizestes mal, senhora! Se vos dei esse presente era para que o ussseis. Repito-vos que fizestes mal.
E a voz do rei tremia de clera. Todos olhavam e escutavam com espanto, sem compreenderem nada do que se passava.
- Sire, posso mandar busc-las ao Louvre, onde esto, e assim os desejos de Vossa Majestade sero satisfeitos - sugeriu a rainha.
- Pois mandai, senhora, mandai, e depressa, porque dentro de uma hora o bailado vai comear.
A rainha inclinou-se em sinal de submisso e seguiu as damas que deviam acompanh-la ao seu gabinete.
Pela sua parte o rei voltou para o seu.
Houve na sala um momento de alvoroo e confuso.
Toda a gente notara que se passara qualquer coisa entre o rei e a rainha; mas ambos haviam falado to baixo que, como cada um por respeito se afastara alguns passos, 
ningum ouvira nada. Os violinos tocavam ruidosamente, mas ningum os escutava.
O rei foi o primeiro a sair do seu gabinete; estava em traje de caa, muito elegante, e Monsieur e os outros fidalgos vestiam como ele. Era o traje que melhor ficava 
ao rei; assim vestido parecia realmente o primeiro gentil-homem do seu reino.
O cardeal aproximou-se do rei e entregou-lhe uma caixa. O rei abriu-a e encontrou duas agulhetas de diamantes.
- Que quer isto dizer? - perguntou ao cardeal.

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- Nada - respondeu este. - Apenas que, se a rainha tiver as agulhetas, do que duvido, as deveis contar, Sire, e se no encontrardes mais de dez perguntai a Sua Majestade 
quem lhe roubou as duas agulhetas que esto a.
O rei olhou o cardeal como se o fosse interrogar, mas no teve tempo de lhe dirigir nenhuma pergunta: um grito de admirao saiu de todas as bocas. Se o rei parecia 
o primeiro gentil-homem do seu reino, a rainha era sem dvida a mais bela mulher de Frana.
 certo que o seu traje de caadora lhe ficava maravilhosamente. Trazia um chapu de feltro com plumas azuis, uma sobreveste de veludo cinzento-prola presa com 
colchetes de diamantes e uma saia de cetim azul toda bordada a prata. No ombro esquerdo cintilavam as agulhetas, presas por um lao da mesma cor das plumas e da 
saia.
O rei estremeceu de alegria e o cardeal de clera; todavia, distantes como estavam da rainha, no podiam contar as agulhetas; a rainha tinha-as, mas tinha dez ou 
doze?
Neste momento os violinos deram o sinal para o bailado. O rei dirigiu-se para a Sr.a Presidente, com quem devia danar, e Sua Alteza Monsieur para a rainha. Tomaram 
as suas posies e o bailado comeou.
O rei ocupava o lugar fronteiro ao da rainha e todas as vezes que passava junto dela devorava com a vista as agulhetas, cujo nmero ignorava. Um suor frio cobria 
a testa do cardeal.
O bailado durou uma hora; tinha dezasseis entradas.
O bailado terminou no meio dos aplausos de toda a sala e cada um reconduziu a sua dama ao seu lugar; mas o rei aproveitou o privilgio de poder deixar a sua onde 
se encontrava e dirigiu-se rapidamente ao encontro da rainha.
- Agradeo-vos, senhora - disse-lhe -, a deferncia que mostrastes para com os meus desejos, mas creio que vos faltam duas agulhetas e trago-vo-las.
Ditas estas palavras, estendeu  rainha as duas agulhetas que lhe dera o cardeal.
- Como, Sire, dais-me mais duas?! - exclamou a jovem rainha, simulando surpresa. - Mas assim fico com catorze...
Com efeito o rei contou-as e encontrou doze agulhetas no ombro de Sua Majestade.
O rei chamou o cardeal.
- Que significa isto, Sr. Cardeal? - perguntou-lhe em tom severo.
- Significa, Sire - respondeu o cardeal -, que desejava oferecer essas duas agulhetas a Sua Majestade, mas como no me atrevia a oferecer-lhas eu prprio, recorri 
a este meio.
- E eu estou tanto mais reconhecida a Vossa Eminncia - respondeu Ana de ustria com um sorriso que provava no se deixar iludir com to engenhosa galanteria - quanto 
 certo estar convencida de que essas duas agulhetas vos custaram tanto, elas s, como as doze que Sua Majestade me ofereceu.

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Depois, saudou o rei e o cardeal e dirigiu-se para o seu gabinete, onde devia mudar de roupa.
A ateno que fomos obrigados a dispensar no comeo deste captulo s personagens ilustres que nele introduzimos afastaram-nos um instante daquele a quem Ana de 
ustria devia o triunfo inaudito que acabava de obter sobre o cardeal, e que, embaraado, ignorado, perdido no meio da multido aglomerada a uma das portas, observava 
da aquela cena compreensvel apenas para quatro pessoas: o rei, a rainha, Sua Eminncia e ele.
A rainha acabava de entrar no seu gabinete e d'Artagnan preparava-se para se retirar quando sentiu tocarem-lhe levemente no ombro; virou-se e viu uma jovem fazer-lhe 
sinal para a seguir. A jovem tinha o rosto coberto com uma mascarilha de veludo preto, mas apesar dessa precauo, de resto tomada mais por causa dos outros do que 
dele, d'Artagnan reconheceu imediatamente a sua guia habitual, a gil e graciosa Sr.a Bonacieux.
Na vspera, tinham-se visto apenas em casa do suo Germain, onde d'Artagnan a mandara chamar; mas a pressa da jovem em levar  rainha a excelente notcia do feliz 
regresso do seu mensageiro no permitiu que os dois apaixonados trocassem mais do que algumas palavras. D'Artagnan seguiu, portanto a Sr.a Bonacieux movido por um 
duplo sentimento: o amor e a curiosidade. Durante todo o caminho, e  medida que os corredores se tornavam mais secretos, d'Artagnan quis deter a jovem, agarr-la, 
contempl-la, nem que fosse s um instante; mas esquiva como um passarinho ela deslizava-lhe sempre por entre as mos, e quando d'Artagnan tentava falar a jovem 
levava um dedo  boca num gesto imperioso cheio de encanto, recordando-lhe que estava sob o domnio de um poder ao qual devia obedecer cegamente e que lhe proibia 
at o mais leve queixume. Por fim, depois de um minuto ou dois de voltas e contravoltas, a Sr.a Bonacieux abriu uma porta e introduziu d'Artagnan num gabinete completamente 
s escuras. A fez-lhe novo sinal de mutismo e, abrindo segunda porta oculta por um reposteiro, atravs do qual penetrou de sbito uma luz viva, desapareceu.
D'Artagnan ficou um instante imvel, perguntando a si mesmo onde estaria, mas em breve um raio de luz vindo do outro lado e o ar quente e perfumado que penetrava 
at ali, bem como a conversa de duas ou trs mulheres em tom simultaneamente respeitoso e distinto e a palavra "Majestade" vrias vezes repetida, lhe indicaram claramente 
que se encontrava num gabinete contguo ao da rainha. O jovem esperou no escuro.
A rainha parecia alegre e feliz, e dava ideia que isso admirava grandemente as pessoas que a rodeavam e estavam, pelo contrrio, habituadas a v-la quase sempre 
preocupada. A rainha atribuia a sua boa disposio  beleza da festa e ao prazer que lhe proporcionara o bailado, e como no era permitido contradizer uma rainha, 
quer ela sorrisse,


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quer ela chorasse, toda a gente louvava a forma como os Srs. Almotacs da cidade de Paris tinham sabido organizar as coisas.
Embora d'Artagnan no conhecesse a rainha, distinguiu a sua voz das outras vozes, primeiro devido a uma leve pronncia estrangeira, depois graas a esse tom de domnio 
naturalmente impresso em todas as palavras soberanas. Ouviu-a aproximar-se e afastar-se da porta entreaberta, e duas ou trs vezes viu mesmo a sombra de um corpo 
interceptar a luz.
Por fim, de repente, uma mo e um brao adorveis de forma e brancura passaram atravs do reposteiro. D'Artagnan adivinhou que era a sua recompensa: caiu de joelhos, 
pegou naquela mo e beijou-a respeitosamente; depois a mo retirou-se, deixando nas suas um objecto que reconheceu ser um anel. A porta fechou-se imediatamente e 
d'Artagnan encontrou-se na mais completa escurido.
D'Artagnan meteu o anel no dedo e esperou de novo; era evidente que nem tudo terminara ainda. Depois da recompensa da sua dedicao viria a recompensa do seu amor. 
Alis, o bailado terminara, mas a festa ainda mal comeara. Ceava-se s trs horas e o relgio de Saint-Jean havia j algum tempo que dera duas horas e trs quartos.
Com efeito, pouco a pouco o barulho das vozes diminuiu no gabinete vizinho; depois, afastaram-se; por fim a porta do gabinete onde estava d'Artagnan voltou a abrir-se 
e a Sr.a Bonacieux entrou.
- Vs, finalmente! - exclamou d'Artagnan.
- Silncio! - recomendou-lhe a jovem, colocando a mo nos lbios de d'Artagnan. - Silncio e ide-vos por onde viestes!
- Mas onde e quando vos tornarei a ver? - perguntou d'Artagnan.
- Um bilhete que encontrareis em casa vo-lo dir. Ide, ide!
E ditas estas palavras a jovem abriu a porta do corredor e empurrou d'Artagnan para fora do gabinete.
D'Artagnan obedeceu como uma criana, sem resistncia e sem qualquer objeco, o que prova que estava realmente apaixonado.

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        XXIII - O ENCONTRO


        D'Artagnan voltou para casa a correr, e, embora fossem mais de trs horas da madrugada e tivesse de atravessar os piores bairros de Paris, no teve nenhum 
mau encontro. Como se sabe, h um deus que protege os bbedos e os apaixonados.
Encontrou a porta do seu passadio entreaberta, subiu a escada e bateu devagarinho e de forma convencionada entre ele e o seu lacaio.
Planchet, que mandara embora da Cmara Municipal duas horas antes, com a recomendao de o esperar, veio abrir-lhe a porta.
- Algum trouxe uma carta para mim? - perguntou vivamente d'Artagnan.
- Ningum trouxe nenhuma carta, senhor - respondeu Planchet. - Mas est c uma que veio sozinha.
- Que queres dizer, imbecil?
- Quero dizer que quando entrei, embora tivesse a chave da vossa casa na algibeira e ela no me tivesse sido roubada, encontrei uma carta em cima do pano verde da 
mesa, no vosso quarto de dormir.
- E onde est essa carta?
- Deixei-a onde estava, senhor. No  natural que as cartas entrem assim em casa das pessoas. Se a janela estivesse aberta, ou mesmo apenas entreaberta, ainda compreendia; 
mas no, estava tudo hermeticamente fechado. Acautelai-vos, senhor, pois h com toda a certeza alguma magia nisso.
Entretanto, o jovem correra para o quarto e abria a carta. Era da Sr.a Bonacieux e concebida nestes termos:


Tenho vivos agradecimentos a dar-vos e a transmitir-vos. Encontrai-vos esta noite por volta das dez horas em Saint-Cloud, defronte do pavilho que se ergue  esquina 
da casa do Sr. de Estries.

C. B.


Ao ler esta carta, d'Artagnan sentiu o corao dilatar-se-lhe e contrair-se-lhe nesse doce espasmo que tortura e acaricia o corao dos amantes.
Era o primeiro bilhete que recebia, era o primeiro encontro que lhe era concedido. O seu corao, intumescido pela embriaguez da alegria, sentia-se prestes a desfalecer 
no limiar desse paraso terrestre chamado amor.
- Ento, senhor - disse Planchet, ao ver o amo corar e empalidecer sucessivamente -, ento? No  verdade que adivinhei e que se trata de qualquer coisa desagradvel?
- Enganas-te, Planchet - respondeu d'Artagnan -, e a prova  que tens aqui um escudo para beberes  minha sade.
- Agradeo, senhor, o escudo que me dais e prometo-vos seguir exactamente as vossas instrues; mas nem por isso  menos verdade que as cartas que entram assim nas 
casas fechadas...
- Caem do cu, meu amigo, caem do cu.
- Ento o senhor est contente? - perguntou Planchet.
- Meu caro Planchet, sou o mais feliz dos homens!
- E posso aproveitar a felicidade do senhor para me ir deitar?
- Podes, sim.

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- Que todas as bnos do Cu caiam sobre o senhor, mas a verdade  que essa carta...
E planchet retirou-se abanando a cabea com ar de dvida, um ar de dvida que a liberalidade de d'Artagnan no conseguia apagar inteiramente.
Quando ficou s, d'Artagnan leu e releu o bilhete e depois beijou e tornou a beijar vinte vezes aquelas linhas traadas pela mo da sua bela amada. Por fim deitou-se, 
adormeceu e teve sonhos dourados.
s sete horas da manh levantou-se e chamou Planchet, que ao segundo chamamento abriu a porta, com a cara ainda mal desanuviada das preocupaes da vspera.
- Planchet - disse d'Artagnan -, saio talvez durante todo o dia; ests portanto livre at s sete horas da noite; mas s sete horas da noite est pronto com dois 
cavalos.
- Pronto, parece que vamos outra vez fazer com que nos furem a pele em vrios stios! - comentou Planchet.
- No te esqueas do teu mosqueto e das tuas pistolas.
- Que dizia eu? - tornou Planchet. - Eu tinha a certeza! Maldita carta!
- Sossega, imbecil! - Trata-se simplesmente de um passeio.
- Sim, como as viagens de recreio do outro dia, em que choviam balas e no faltavam ciladas.
- Alis, se tendes medo, Sr. Planchet - acrescentou d'Artagnan -, irei sem vs; prefiro viajar sozinho a ter um companheiro que treme.
- O senhor insulta-me - redarguiu Planchet. - No entanto, parece-me que j viu do que sou capaz.
- Pois vi, mas julguei que tivesses gastado toda a tua coragem de uma s vez.
- O senhor ver que chegada a ocasio ainda me resta alguma. S vos peo que no a esbanjeis demasiado se quereis que me dure bastante tempo.
- Achas que poders despender um bocadinho dela esta noite?
- Espero que sim.
- Nesse caso, conto contigo.
- Estarei pronto  hora indicada; mas julgava que o senhor s tinha um cavalo na cavalaria dos guardas.
- Neste momento talvez s l tenha um, mas esta noite terei l quatro.
- At parece que a nossa viagem foi uma viagem de remonta.
-  verdade - concordou d'Artagnan.
E depois de fazer a Planchet uma ltima recomendao, saiu.
O Sr. Bonacieux estava  sua porta. A inteno de d'Artagnan era seguir o seu caminho sem falar ao digno retroseiro; mas este dirigiu-lhe um cumprimento to afvel 
e benvolo que o seu locatrio no teve outro remdio seno retribuir-lho e meter conversa com ele.

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Alis, como no ser um pouco condescendente com o marido de uma mulher que nos concede um encontro na mesma noite em Saint-Cloud, defronte do pavilho do Sr. de 
Estres? D'Artagnan aproximou-se portanto com o ar mais amvel que pde tomar.
A conversa derivou naturalmente para a priso do pobre homem. O Sr. Bonacieux, que ignorava que d'Artagnan ouvira a sua conversa com o desconhecido de Meung, contou 
ao seu jovem inquilino as perseguies de que fora vtima por parte do monstro do Sr. de Laffemas, como no cessou de o classificar durante toda a sua narrativa, 
bem como de lhe chamar carrasco do cardeal. Alm disso, espraiou-se longamente sobre a Bastilha, os ferrolhos, os postigos, os respiradouros, as grades e os instrumentos 
de tortura.
D'Artagnan escutou-o com uma complacncia exemplar; e quando o outro terminou perguntou-lhe:
- E a Sr.a Bonacieux, j sabeis quem a raptou? Porque no esqueo que devo a essa circunstncia desagradvel a ventura de vos conhecer.
- Oh, eles tomaram o cuidado de no mo dizer, e pela sua parte a minha mulher jurou-me por todos os santos da corte do Cu que no sabia! - respondeu o Sr. Bonacieux. 
- Mas vs prprio - continuou num tom de perfeita bonomia - onde estivestes durante todos estes dias? No vos vi, nem a vs nem aos vossos amigos, e creio que no 
foi nas caladas de Paris que acumulastes toda a poeira que Planchet vos limpava ontem das botas.
- Tendes razo, meu caro Sr. Bonacieux: os meus amigos e eu fizemos uma pequena viagem.
- Longe daqui?
- Oh, meu Deus, no! Apenas umas quarenta lguas; fomos levar o Sr. Athos s guas de Forges, onde os meus amigos ficaram.
- Mas vs regressastes, no  verdade? - observou o Sr. Bonacieux, dando  fisionomia o seu ar mais malicioso. - Um belo moo como vs no obtm longas dispensas 
da amante, e esperavam-vos impacientemente em Paris, no  assim?...
- Confesso que sim, tanto mais, meu caro Sr. Bonacieux, que verifico no se pode esconder-vos nada - respondeu o jovem, rindo. -  verdade, esperavam-me com muita 
impacincia, garanto-vos.
Uma leve nuvem passou pela testa de Bonacieux, mas foi to leve que d'Artagnan nem deu por ela.
- E ides ser recompensado da vossa diligncia? - continuou o retroseiro, com uma ligeira alterao na voz, alterao que d'Artagnan no notou mais do que notara 
a nuvem momentnea que momentos antes nublara o rosto do digno homem.
- Estais hoje muito curioso! - observou d'Artagnan, rindo.
- No - redarguiu Bonacieux -, pergunto isto apenas para saber se regressais tarde.
- Porqu essa pergunta, meu caro senhorio? Tencionais esperar-me?
- No.  que desde a minha priso e do roubo cometido em minha casa, assusto-me todas as vezes que ouo abrir uma porta,

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sobretudo de noite. Que quereis, no sou homem de espada!
- Seja como for, no vos assusteis se eu regressar  uma hora, s duas ou s trs horas da madrugada; e tambm no vos assusteis se no regressar mesmo.
Desta vez, Bonacieux empalideceu tanto que d'Artagnan no pde deixar de o notar e de lhe perguntar o que tinha.
- Nada - respondeu Bonacieux -, nada. Desde as minhas desgraas sou sujeito a fraquezas que se apoderam de mim de repente e acabo de sentir um arrepio. Mas no vos 
preocupeis comigo; agora a vossa nica preocupao deve-se limitar a serdes feliz.
- Isso no me preocupa, pois sou-o.
- Ainda no; lembrai-vos de que dissestes "esta noite"...
- Oh, a noite chegar, graas a Deus! Talvez a espereis com tanta impacincia como eu; talvez esta noite a Sr.a Bonacieux visite o domiclio conjugal...
- A Sr.a Bonacieux no est livre esta noite - respondeu gravemente o marido. - Est retida no Louvre pelo seu servio.
- Tanto pior para vs, meu caro senhorio, tanto pior. J que sou feliz, gostaria que toda a gente o fosse tambm; mas parece que no 
possvel
E o jovem afastou-se rindo s gargalhadas do gracejo que s ele,
pensava, podia compreender.
- Diverti-vos bem! - exclamou Bonacieux em tom sepulcral. Mas d'Artagnan ia j demasiado longe para o ouvir, e se o tivesse
ouvido, no estado de esprito em que se encontrava, no teria certamente ligado importncia.
Dirigiu-se para o palcio do Sr. de Trville; a sua visita da vspera fora, recorde-se, muito curta e muito pouco explicativa.
Encontrou o Sr. de Trville alegre como um passarinho. O rei e a rainha tinham sido amabilissimos com ele no baile.  certo que o cardeal fora perfeitamente insuportvel.
 uma hora da manh retirara-se, a pretexto de estar indisposto. Quanto a Suas Majestades, s tinham regressado ao Louvre s seis horas da manh.
- Agora - disse o Sr. de Trville, baixando a voz e examinando com a vista todos os cantos do aposento para ver se no havia ali mais ningum -, agora falemos de 
vs, meu jovem amigo, porque  evidente que o vosso feliz regresso contribuiu alguma coisa para a boa disposio do rei, para o triunfo da rainha e para a humilhao 
de Sua Eminncia. Trata-se de vos defender.
- Que tenho a temer enquanto tiver a ventura de fruir da proteco de Suas Majestades? - perguntou d'Artagnan.
- Tudo, acreditai-me. O cardeal no  homem que esquea uma mistificao enquanto no ajustar contas com o mistificador, e o mistificador tem todo o ar de ser certo 
gasco que conheo.

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- Parece-vos que o cardeal esteja to adiantado como vs e saiba que fui eu que fui a Londres?
- Diabo, fostes a Londres! E foi de Londres que trouxestes o belo diamante que brilha no vosso dedo? Acautelai-vos, meu caro d'Artagnan, no h nada pior do que 
o presente de um inimigo; existem at uns versos latinos a tal respeito... Esperai...
- Sim, decerto - redarguiu d'Artagnan, que nunca conseguira meter na cabea a primeira regra do rudimento e que, por ignorncia, fora o desespero do seu preceptor. 
- Sim, decerto, devem existir.
- H pelo menos um, com certeza - insistia o Sr. de Trville, que tinha umas luzes de letras -, que o Sr. de Benserade me citava outro dia... Esperai... Ah, j me 
lembro!  assim:... timeo Danaos et dona frentes. O que significa: "Desconfiai do inimigo que vos d presentes."
- Este diamante no me foi dado por um inimigo, senhor - esclareceu d'Artagnan -, foi-me dado pela rainha.
- Pela rainha? Oh, oh! - exclamou o Sr. de Trville. - Efectivamente,  uma verdadeira jia real, que vale bem mil pistolas. Por que motivo vos mandou a rainha dar 
esse presente?
- Deu-mo ela prpria.
-Sim?...
- No gabinete contguo quele onde mudou de roupa.
- E como?
- Dando-me a mo a beijar.
- Beijastes a mo da rainha?! - exclamou o Sr. de Trville, fitando d'Artagnan.
- Sua Majestade deu-me a honra de me conceder essa graa.
- E na presena de testemunhas? Imprudente, trs vezes imprudente!
- No, senhor, tranquilizai-vos, ningum a viu - Redarguiu d'Artagnan.
E contou ao Sr. de Trville como as coisas se tinham passado.
- Oh, as mulheres, as mulheres! - exclamou o velho soldado. - Conheo bem a sua imaginao romanesca; tudo o que cheira a mistrio as encanta. Portanto, vistes o 
brao e mais nada; se encontrsseis a rainha no a reconhecereis, e se ela vos encontrasse tambm no vos reconheceria.
- No, mas graas a este diamante... - insinuou o jovem.
- Escutai - atalhou o Sr. de Trville. - Quereis que vos d um conselho, um bom conselho, um conselho de amigo?
- Seria uma honra para mim, senhor - respondeu d'Artagnan.
- Ento, entrai no primeiro ourives que encontrardes e vendei-lhe esse diamante pela importncia que vos oferecer. Por muito judeu que seja, sempre obtereis pelo 
menos oitocentas pistolas. As pistolas no tm nome, meu rapaz, e esse anel tem um, terrvel, que pode atraioar quem o usa.

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- Vender este anel? Um anel que me deu a minha soberana? - Nunca! - exclamou d'Artagnan.
- Nesse caso virai a pedra para dentro, pobre louco, pois toda a gente sabe que um filho segundo da Gasconha no encontra semelhantes jias no escrnio da me.
- Achais de facto que tenho alguma coisa a temer? - perguntou
d'Artagnan.
- Por outras palavras, meu rapaz: comparado convosco, aquele que dormir sobre uma mina com o rastilho aceso tem motivos para se considerar mais seguro do que vs.
- Demnio! - exclamou d'Artagnan, a quem o tom convincente do Sr. de Trville comeava a abalar. - Demnio, que devo fazer?
- Estar de p atrs, sempre e antes de mais nada. O cardeal tem a memria tenaz e a mo comprida; acreditai em mim, pregar-vos- qualquer partida.
- Mas qual?
- Sei l! No tem ao seu servio todas as astcias do Demnio? O menos que vos pode acontecer  prenderem-vos.
- Como? Ousariam prender um homem ao servio de Sua Majestade?
- Com a breca, bem se importaram de prender Athos! Mas seja como for, meu rapaz, acreditai num homem que vive na corte h trinta anos: no adormeais confiado na 
vossa segurana ou estareis perdido. Muito pelo contrrio, e sou eu quem vo-lo digo, vede inimigos por toda a parte. Se vos provocarem, no vos deis por achado, 
ainda que a provocao provenha de uma criana de dez anos; se vos atacarem, de noite ou de dia, batei em retirada e sem vergonha; se atravessardes uma ponte, tacteai 
as pranchas, no v alguma faltar-vos debaixo dos ps; se passardes diante de um prdio em construo, olhai para o alto, no acontea alguma pedra cair-vos em cima; 
se recolherdes tarde, fazei-vos acompanhar pelo vosso lacaio, e que o vosso lacaio esteja armado, isto se tiverdes confiana no vosso lacaio... Desconfiai de toda 
a gente: do vosso amigo, do vosso irmo, da vossa amante... sobretudo da vossa amante.
D'Artagnan corou.
- Da minha amante - repetiu maquinalmente. - E porqu mais
dela do que doutrem?
- Porque a amante  um dos meios favoritos do cardeal, e de facto no h outro mais expedito: uma mulher vende-nos por dez pistolas, como o prova Dalila. Conheceis 
as Escrituras, no  verdade?
D'Artagnan lembrou-se do encontro que lhe marcara a Sr.a Bonacieux para aquela mesma noite; mas devemos dizer, em louvor do nosso heri, que a m opinio que o Sr. 
de Trville tinha das mulheres em geral no lhe inspirou a mais pequena desconfiana contra a sua bonita senhoria.
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- Mas a propsito, que  feito dos vossos trs companheiros? - perguntou o Sr. de Trville.
- Ia perguntar-vos se no tnheis recebido notcias deles.
- Nenhuma.
-  que fui-os deixando pelo caminho: Porthos em Chantilly, a contas com um duelo; Aramis em Crvecoeur, com uma bala no ombro, e Athos em Amiens, com uma acusao 
de moedeiro falso s costas.
- Vedes? - observou o Sr. de Trville. - E vs, como conseguistes escapar?
- Por milagre, senhor, devo confessar, com uma estocada no peito e deixando espetado o Sr. Conde de Wardes nas imediaes da estrada de Calais, como uma borboleta 
numa tapearia.
- Vedes?, vedes? - insistiu o Sr. de Trville. - Wardes, um homem do cardeal, um primo de Rochefort. Olhai, meu caro amigo, tenho uma ideia.
- Dizei, senhor.
- No vosso lugar faria uma coisa. - Qual?
- Enquanto Sua Eminncia me mandava procurar em Paris, eu, Ia calado, tomava a estrada da Picardia e ia saber notcias dos meus trs companheiros. Que diabo, eles 
merecem bem essa pequena ateno da vossa parte!
- O conselho  bom, senhor, e partirei amanh.
- Amanh! E por que no esta noite?
- Esta noite, senhor, estou retido em Paris por via de um assunto inadivel.
- Ah, rapaz, rapaz!... Alguma paixoneta? Tende cautela, repito-vos: a mulher  que nos perdeu e h-de ser ela que nos voltar a perder. Acreditai em mim, parti esta 
noite.
- Impossvel, senhor!
- Destes a vossa palavra?
- Dei, senhor.
- Ento  diferente; mas prometei-me que se no fordes morto esta noite partireis amanh.
- Prometo-vos.
- Precisais de dinheiro?
- Ainda tenho cinquenta pistolas. Creio no precisar de mais.
- E os vossos companheiros?
- Penso que tambm no precisaro. Samos de Paris levando cada um setenta e cinco pistolas na algibeira.
- Ver-vos-ei antes da vossa partida?
- No, ao que penso, senhor, a menos que haja alguma novidade.
- Ento, boa viagem!
- Obrigado, senhor.
E d'Artagnan despediu-se do Sr. de Trville, impressionado como
nunca pela sua solicitude to paternal para com os seus mosqueteiros.

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Passou sucessivamente por casa de Athos, de Porthos e de Aramis; nenhum deles regressara. Os seus lacaios tambm estavam ausentes e ningum tinha notcias nem de 
uns nem de outros.
Ter-se-ia informado junto das suas amantes, mas no conhecia nem a de Porthos, nem a de Aramis; quanto a Athos, no tinha.
Ao passar diante do aquartelamento das Guardas deitou uma olhadela  cavalaria: dos quatro cavalos, trs j tinham chegado. Planchet, muito admirado, estava a limp-los 
e j despachara dois deles.
- Ah, senhor, que prazer em ver-vos! - exclamou Planchet ao ver d'Artagnan.
- Porqu, Planchet? - perguntou o jovem.
- Confiais no Sr. Bonacieux, nosso senhorio?
- Eu? Absolutamente nada.
- E fazeis muito bem, senhor.
- Mas a que propsito vem essa conversa?
- Enquanto conversveis com ele, eu observava-vos sem vos escutar; senhor, a cara dele mudou duas ou trs vezes de cor.
-Ora!...
- O senhor no notou isso porque estava preocupado com a carta que acabara de receber: mas eu, pelo contrrio, a quem a forma estranha como a carta fora parar l 
a casa pusera de sobreaviso, no perdi uma expresso da sua fisionomia.
- E achaste-a?...
- Traioeira, senhor.
- Deveras?
- Alm disso, assim que o senhor o deixou e desapareceu  esquina da rua, o Sr. Bonacieux pegou no chapu, fechou a porta e meteu a correr pela rua oposta.
- Com efeito, tens razo, Planchet, tudo isso me parece muito suspeito, e podes estar tranquilo que no lhe pagaremos a renda enquanto a coisa no nos for categoricamente 
explicada.
- O senhor graceja, mas ver...
- Que queres, Planchet, o que tem de acontecer est escrito!
- O senhor no desiste portanto do seu passeio desta noite?
- Muito pelo contrrio, Planchet, quantos mais motivos tenho para desconfiar do Sr. Bonacieux, mais acho que devo ir ao encontro que me marcaram nessa carta que 
tanto te preocupa.
- Ento, se  essa a resoluo do senhor...
- Inabalvel meu amigo. Portanto, s nove horas est por aqui; virei buscar-te.
Vendo que no havia nenhuma esperana de levar o amo a renunciar ao seu projecto, Planchet soltou um profundo suspiro e ps-se a escovar o terceiro cavalo.
Quanto a d'Artagnan, como no fundo era um rapaz cheio de prudncia, em vez de ir para casa, foi almoar com o padre gasco que num momento de penria dos quatro 
amigos lhes oferecera um pequeno-almoo de chocolate.

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        XXIV - O PAVILHO


        s nove horas, d'Artagnan estava no aquartelamento das Guardas; encontrou Planchet armado e equipado. O quarto cavalo chegara.
Planchet estava armado com o seu mosqueto e uma pistola.
D'Artagnan tinha a sua espada, mas meteu duas pistolas no cinturo; depois, montaram a cavalo e saram sem rudo. Era noite fechada e ningum os viu sair. Planchet 
colocou-se atrs do amo e cavalgou a dez passos de distncia.
D'Artagnan atravessou os cais, saiu pela Porta da Conferncia e seguiu ento o caminho, bem mais belo naquela poca do que hoje, que levava a Saint-Cloud.
Enquanto estiveram na cidade, Planchet guardou respeitosamente a distncia que se impusera; mas assim que o caminho comeou a tornar-se mais deserto e escuro, aproximou-se 
devagarinho. Deste modo, quando entrou no bosque de Bolonha encontrou-se muito naturalmente a cavalgar ao lado do amo. Com efeito, no devemos ignorar que a oscilao 
das grandes rvores e o reflexo do luar nas matas sombrias lhe causava viva inquietao. D'Artagnan adivinhou que se passava com o lacaio algo extraordinrio e perguntou-lhe:
- Ento, Sr. Planchet, que tendes?
- No vos parece, senhor, que os bosques so como as igrejas? - Porqu, Planchet?
- Porque nem numas nem noutros as pessoas ousam falar alto.
- Por que no ousas falar alto, Planchet, porque tens medo?
- Sim, tenho medo de ser ouvido, senhor.
- Medo de ser ouvido! Mas a nossa conversa no tem nada de imoral, meu caro Planchet, e ningum encontraria motivo para nos criticar.
- Ah, senhor - respondeu Planchet, voltando  sua ideia fixa -, garanto-vos que o Sr. Bonacieux tem qualquer coisa de dissimulado nos olhos e de desagradvel na 
forma como mexe os lbios!
- Por que diabo pensas em Bonacieux?
- Senhor, as pessoas pensam no que podem e no no que querem.
- s um poltro, Planchet!
- Senhor, no confundamos a prudncia com a poltronice; a prudncia  uma virtude.
- E tu s virtuoso, no  verdade, Planchet?
- Senhor, no  o cano de um mosquete que brilha ali adiante? Devamos baixar a cabea.
- Na verdade - murmurou d'Artagnan, a quem as recomendaes do Sr. de Trville acudiam  memria -, na verdade, este animal acabar por me meter medo...
Ps o cavalo a trote.

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Planchet seguiu o movimento do amo exactamente como se fosse a sua sombra e encontrou-se a trotar ao p dele.
- Vamos cavalgar assim toda a noite, senhor? - perguntou.
- No, Planchet, porque tu chegaste.
- Cheguei como? e o senhor?
- Eu tenho de dar ainda mais uns passos.
- E o senhor deixa-me aqui sozinho?
- Tens medo, Planchet?
- No, mas quero apenas observar ao senhor que a noite ser muito fria, que os resfriamentos provocam reumatismos e que um lacaio com reumatismo  um pobre servidor, 
sobretudo para um amo activo como o senhor.
- Bom, se tiveres frio, Planchet, entra num daqueles botequins que vs l adiante e espera-me amanh de manh, s seis horas, defronte da porta.
- Senhor, bebi e comi respeitosamente o escudo que me destes esta manh, de modo que no me resta nem um msero soldo para o caso de ter frio.
- Aqui tens uma pistola. At amanh.
D'Artagnan desceu do cavalo, atirou as rdeas para o brao de Planchet e afastou-se rapidamente, envolto na sua capa.
- Meu Deus, estou cheio de frio! - exclamou Planchet assim que perdeu o amo de vista; e com a pressa que tinha de se aquecer apressou-se a ir bater  porta de uma 
casa com todos os atributos prprios de um botequim dos subrbios.
Entretanto, d'Artagnan, que metera por um atalho, continuava o seu caminho e alcanava Saint-Claud. Mas em vez de seguir pela rua principal, virou por detrs do 
palcio, foi dar a uma espcie de ruela bastante afastada e em breve se encontrou diante do pavilho indicado, situado num ponto absolutamente deserto. Um grande 
muro,  esquina do qual ficava o pavilho, ocupava um lado da ruela, e do outro uma sebe defendia dos transeuntes um jardinzinho ao fundo do qual se erguia uma modesta 
cabana.
Chegara ao ponto do encontro, e como lhe no tinham dito que anunciasse a sua presena por meio de algum sinal, esperou.
No se ouvia nenhum rudo; dir-se-ia estar-se a cem lguas da capital. D'Artagnan encostou-se  sebe, depois de deitar uma olhadela para trs de si. Para l da sebe, 
do jardim e da cabana, um nevoeiro denso envolvia a imensidade onde dormia Paris, vazia, hiante, imensidade onde brilhavam alguns pontos luminosos, estrelas fnebres 
daquele inferno.
Mas para d'Artagnan todos os aspectos se revestiam de uma forma agradvel, todas as ideias tinham um sorriso, todas as trevas eram difanas. A hora do encontro ia 
soar.
Com efeito, passados alguns instantes a torre sineira de Saint-Cloud deixou cair lentamente dez badaladas da sua bocarra mugidora.

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Havia qualquer coisa de lgubre naquela voz de bronze que se lamentava assim no meio da noite.
Mas cada uma das horas que compunham a hora esperada vibrava harmoniosamente no corao do jovem.
Tinha os olhos fixos no pavilhozinho situado  esquina da rua, com todas as janelas fechadas por persianas, excepto uma s, no primeiro andar.
Atravs dessa janela brilhava uma luz suave que prateava a folhagem trmula de duas ou trs tlias que se erguiam, formando grupo, fora do parque. Evidentemente, 
atrs daquela janelinha to graciosamente iluminada esperava-o a bonita Sr.a Bonacieux.
Embalado por esta terna ideia, d'Artagnan esperou da sua parte cerca de meia hora, sem qualquer impacincia, de olhos postos no encantador pavilho, de que distinguia 
parte do tecto de molduras douradas, que atestavam a elegncia do resto do aposento.
Os sinos de Saint-Cloud deram dez e meia.
Desta vez, sem que d'Artagnan compreendesse porqu, percorreu-lhe as veias um arrepio. Talvez o frio comeasse a invadi-lo e tomasse por impresso moral uma sensao 
exclusivamente fsica.
Depois acudiu-lhe a ideia de que talvez tivesse lido mal e o encontro fosse para as onze horas.
Aproximou-se da janela, colocou-se debaixo de um raio de luz, tirou a carta da algibeira e releu-a. No se enganara: o encontro era, de facto, s dez horas.
Voltou para o seu posto; comeava a estar inquieto com aquele silncio e aquela solido.
Soaram onze horas.
D'Artagnan comeou a temer que tivesse realmente acontecido alguma coisa  Sr.a Bonacieux.
Bateu trs vezes as mos, sinal habitual dos apaixonados; mas ningum lhe respondeu, nem mesmo o eco.
Pensou ento com certo despeito que talvez a jovem tivesse adormecido enquanto o esperava.
Aproximou-se do muro e tentou subi-lo; mas o muro estava rebocado de novo e d'Artagnan partiu inutilmente as unhas.
Reparou ento nas rvores, cujas folhas continuavam a ser prateadas pela luz, e como uma delas se apresentava saliente em relao ao caminho pensou que do meio dos 
seus ramos o seu olhar poderia penetrar no pavilho.
A rvore era fcil de trepar. De resto, d'Artagnan contava apenas vinte anos e por consequncia lembrava-se dos seus tempos de escola. Num instante encontrou-se 
no meio dos ramos e atravs dos vidros transparentes os seus olhos mergulharam no interior do pavilho.
Coisa estranha e que fez tremer d'Artagnan da planta dos ps  raiz dos cabelos: aquela luz suave, aquela calma lamparina, iluminava uma cena de desordem espantosa.

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Um dos vidros da janela estava partido, a porta da sala fora arrombada e pendia dos gonzos semipartida; uma mesa que devia ter estado posta para uma ceia elegante 
jazia por terra; as garrafas estilhaadas e os frutos esmagados juncavam o pavimento; tudo testemunhava naquela sala uma luta violenta e desesperada. d'Artagnan 
julgou mesmo reconhecer no meio daquela desordem estranha pedaos de roupas e algumas manchas de sangue na toalha e nos cortinados.
Apressou-se a descer para a rua, com o corao a pulsar-lhe horrivelmente; queria ver se no encontraria outros vestgios de violncia.
A luzinha suave continuava a brilhar na noite calma. D'Artagnan verificou ento, coisa que no notara ao princpio, porque nada o impelira a esse exame, que o solo, 
batido nuns lados e esburacado noutros, apresentava vestgios confusos de passos de homens e de patas de cavalos. Alm disso, as rodas de uma carruagem que parecia 
ter vindo de Paris tinham deixado na terra mole sulcos profundos que no iam alm do pavilho e voltavam para Paris.
Por fim, d'Artagnan, prosseguindo nas suas buscas, encontrou junto do muro uma luva de mulher rasgada. Contudo essa luva, em todos os stios onde no tocara na terra 
lamacenta, estava impecvel. Era uma dessas luvas perfumadas que os apaixonados gostam de arrancar de uma bonita mo.
 medida que prosseguia as suas investigaes, d'Artagnan sentia um suor mais abundante e gelado perlar-lhe a testa, o corao apertar-se-lhe de horrvel angstia 
e a respirao tornar-se-lhe arquejante; e entretanto dizia para consigo, a fim de se tranquilizar, que aquele pavilho talvez no tivesse nada de comum com a Sr.a 
Bonacieux; que a jovem lhe marcara encontro diante do pavilho e no no pavilho; que podia ter sido retida em Paris pelo seu servio, talvez pelo cime do marido.
Mas todos estes raciocnios caam pela base ou eram destrudos, derrubados, por essa sensao de dor ntima que em certas ocasies se apodera de todo o nosso ser 
e nos grita, atravs de tudo que em ns est destinado a ouvir, que uma grande desgraa paira sobre ns.
Ento, d'Artagnan tornou-se quase insensato: correu para a estrada, percorreu o mesmo caminho que j percorrera, dirigiu-se para a barca e interrogou o barqueiro.
Por volta das sete horas da noite o barqueiro fizera atravessar uma mulher envolta numa capa preta, que parecia ter o maior interesse em no ser reconhecida; mas 
precisamente devido s precaues que tomava o barqueiro prestara-lhe mais ateno e verificara que a mulher era nova e bonita.
Havia ento, como ainda hoje h, muitas mulheres jovens e bonitas que vinham a Saint-Cloud e tinham interesse em no ser vistas; contudo, d'Artagnan no duvidou 
um instante que fosse a Sr.a Bonacieux aquela em que reparara o barqueiro.

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D'Artagnan aproveitou a lanterna acesa na cabana do barqueiro para reler mais uma vez o bilhete da Sr.a Bonacieux e assegurar-se de que no se enganara, que o encontro 
era de facto em Saint-Cloud e no noutro stio, diante do pavilho do Sr. de Estres e no noutra rua.
Tudo concorria para provar a d'Artagnan que os seus pressentimentos eram certos e que acontecera uma grande desgraa.
Voltou pelo caminho do palcio a correr; talvez durante a sua ausncia tivesse acontecido algo de novo no pavilho e o esperassem l informaes.
A ruela continuava deserta e a mesma luz calma e suave saa pela janela.
D'Artagnan pensou ento na cabana cega e muda, mas que sem dvida vira e talvez pudesse falar.
A cancela estava fechada, mas ele saltou por cima da sebe e apesar dos ladridos do co acorrentado aproximou-se da cabana.
s primeiras pancadas que bateu ningum respondeu.
Um silncio de morte reinava na cabana, tal como no pavilho; no entanto, como a cabana era o seu ltimo recurso, insistiu.
Em breve lhe pareceu ouvir um ligeiro rudo interior, rudo receoso, que parecia temer ele prprio ser ouvido.
Ento, d'Artagnan cessou de bater e pediu, num tom to cheio de inquietao e promessas, de terror e cortesia, que dir-se-ia capaz de tranquilizar o mais medroso. 
Por fim abriu-se um velho postigo carcomido, ou antes entreabriu-se e voltou a fechar-se assim que a luz de uma candeia miservel que ardia a um canto iluminou o 
boldri, o punho da espada e as coronhas das pistolas de d'Artagnan. No entanto, por muito rpido que tivesse sido o movimento, d'Artagnan tivera tempo de entrever 
a cabea de um velho.
- Em nome do Cu, escutai-me! - suplicou. - Esperava algum que no vem e morro de inquietao. Ter-lhe- acontecido algum mal nas imediaes? Falai.
A janela tornou a abrir-se lentamente e apareceu de novo a mesma cara: s que estava ainda mais plida do que da primeira vez.
D'Artagnan contou ingenuamente a sua histria, embora omitindo os nomes. Disse que tinha um encontro marcado com uma jovem diante do pavilho e que, no a vendo 
chegar, trepara pela tlia e  luz da lamparina vira a desordem da sala.
O velho escutou-o atentamente, acenando em sinal de concordncia; depois, quando d'Artagnan terminou, abanou a cabea com um ar que no anunciava nada de bom.
- Que quereis dizer? - perguntou d'Artagnan. - Em nome do Cu, explicai-vos!
- No me pergunteis nada, senhor - respondeu o velho. - Porque se vos dissesse o que vi, com toda a certeza no me aconteceria nada de bom.
- Vistes portanto qualquer coisa? - insistiu d'Artagnan. - Nesse caso, por Deus - continuou, dando-lhe uma pistola -, dizei, dizei o que
vistes e dou-vos a minha palavra de gentil-homem de que nem uma das vossas palavras me sair da boca.
O velho leu tanta franqueza e dor no rosto de d'Artagnan que lhe fez sinal para escutar e lhe disse em voz baixa:
- Eram mais ou menos nove horas. Ouvira barulho na rua, tive curiosidade de saber o que seria, mas quando me aproximei da porta verifiquei que procuravam entrar. 
Como sou pobre e no tenho medo que me roubem, abri e vi trs homens a poucos passos de mim. No escuro estava uma carruagem com cavalos atrelados e cavalos de montar. 
Os cavalos de montar pertenciam evidentemente aos trs homens, que estavam vestidos de cavaleiros.
"-Que desejais, meus bons senhores? - perguntei.
"Tens uma escada? - perguntou-me o que parecia o chefe da escolta.
"Tenho, sim, senhor; aquela com que apanho a fruta.
"D-no-la e volta para casa. Aqui tens um escudo pelo incmodo que te causamos. Lembra-te apenas de que, se disseres uma palavra a respeito do que vais ver e ouvir 
(porque vers e escutars, tenho a certeza, por mais que te ameacemos), estars perdido."
- Depois destas palavras, atirou-me um escudo, que apanhei, e levou-me a escada.
"Efectivamente, depois de fechar a porta da sebe atrs deles, fingi entrar em casa, mas sa imediatamente pelas traseiras e, deslizando no escuro, alcancei aquele 
tufo de sabugueiro, do meio do qual podia ver tudo sem ser visto.
"Os trs homens tinham feito avanar a carruagem sem nenhum rudo e dela tiraram um homenzinho gordo, baixo e grisalho, pobremente vestido de escuro, o qual subiu 
com precauo a escada, olhou sorrateiramente para dentro da sala, desceu com pezinhos de l e informou em voz baixa:
"-  ela!"
"Imediatamente aquele que falara comigo se aproximou da porta do pavilho, abriu-a com uma chave que trazia consigo, fechou a porta e desapareceu; ao mesmo tempo, 
os outros dois homens subiram a escada. O velho baixinho permanecia  portinhola, o cocheiro mantinha preparados os cavalos da carruagem e um lacaio os cavalos de 
sela.
"De sbito, soaram grandes gritos no pavilho, uma mulher correu Para a janela e abriu-a como que para se atirar dela abaixo. Mas assim que viu os dois homens recuou 
e eles entraram na sala atrs dela.
"Ento no vi mais nada, mas ouvi o barulho dos mveis a partirem-se. A mulher gritava e pedia socorro, mas os seus gritos no tardaram a ser abafados. Os trs homens 
aproximaram-se da janela com a mulher nos braos; dois desceram pela escada e transportaram-na para a carruagem, onde o velho baixinho entrou atrs dela. O que ficara 
no pavilho fechou a janela, saiu pouco depois pela porta e assegurou-se de que a mulher estava na carruagem. Os seus companheiros esperavam-no j a cavalo e ele 
saltou tambm para a sela;

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o lacaio reocupou o seu lugar ao p do cocheiro; a carruagem afastou-se a galope, escoltada pelos trs cavaleiros, e tudo acabou. A partir da no vi nem ouvi mais 
nada." Esmagado por to terrvel notcia, d'Artagnan ficou imvel e mudo, enquanto todos os demnios da clera e do cime bramiam no seu corao.
- Ento, gentil-homem - procurou anim-lo o velho, em quem aquele desespero mudo causava decerto mais efeito do que gritos e lgrimas -, ento, no vos desoleis; 
eles no a mataram e isso  o essencial.
- Sabeis mais ou menos quem era o homem que comandava essa expedio infernal? - perguntou d'Artagnan.
- No o conheo.
- Mas como vos falou pudestes v-lo...
- Ah! So os seus sinais o que me pedis? -Sim.
- Alto, magro, moreno, bigode e olhos pretos, ar de gentil-homem.
- Exacto! - exclamou d'Artagnan. - Outra vez ele, sempre ele!  o meu demnio, ao que parece! E o outro?
-Qual?
- O baixinho.
- Oh, esse no era nenhum fidalgo, garanto-vos! Alis, no trazia espada e os outros tratavam-no sem nenhuma considerao.
- Algum lacaio - murmurou d'Artagnan. - Pobre mulher! Pobre mulher, que te tero feito?
- Prometeste-me segredo - lembrou o velho.
- E renovo-vos a promessa. Estai tranquilo, sou um gentil-homem e um gentil-homem s tem uma palavra; e eu dei-vos a minha.
D'Artagnan retomou, abatido, o caminho da barca. To depressa no podia crer que fosse a Sr.a Bonacieux e esperava encontr-la no Louvre no dia seguinte, como temia 
que ela tivesse tido um namorico com qualquer outro e que um despeitado a tivesse surpreendido e mandado raptar. Hesitava, desolava-se, desesperava.
"Oh, se tivesse c os meus amigos, teria ao menos alguma esperana de a encontrar! Mas quem sabe o que aconteceu a eles prprios?", dizia para consigo.
Era cerca da meia-noite; era preciso encontrar Planchet. D'Artagnan fez com que lhe abrissem sucessivamente todos os botequins em que divisou alguma luz; nos primeiros 
no encontrou Planchet.
No sexto, comeou a pensar que a busca era de resultado problemtico. D'Artagnan marcara encontro ao lacaio apenas s seis da manh e para onde quer que tivesse 
ido Planchet estava no seu direito.
Alm disso, assaltou-o a ideia de que permanecendo nas imediaes do local onde o acontecimento se dera talvez obtivesse algum esclarecimento acerca do misterioso 
rapto. Portanto, no sexto botequim, como dissemos, d'Artagnan deteve-se, pediu uma garrafa de vinho de primeira qualidade,

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encostou-se ao canto mais escuro e decidiu-se a esperar assim que amanhecesse. Mas mais uma vez a sua esperana foi lograda, pois embora escutasse atentamente no 
ouviu, no meio das pragas, das graolas e das obscenidades que trocavam entre si os operrios, os lacaios e os carreiros que constituam a respeitvel sociedade 
de que fazia parte, nada que o pudesse pr na pista da pobre mulher raptada. Teve pois, uma vez bebida a garrafa, por no ter mais nada que fazer e para no despertar 
suspeitas, de procurar no seu canto a posio mais satisfatria possvel e de dormir de qualquer maneira. Mas d'Artagnan tinha, no o esqueamos, vinte anos, e nessa 
idade o sono tem direitos imprescindveis que reclama imperiosamente, mesmo dos coraes mais desesperados.
Por volta das seis da manh, d'Artagnan acordou com esse mal-es-tar que acompanha habitualmente o amanhecer depois de uma noite mal passada. No perdeu tempo com 
ablues; apalpou-se para saber se no teriam aproveitado o seu sono para o roubar, e tendo encontrado o seu diamante no dedo, a sua bolsa na algibeira e as suas 
pistolas  cintura, levantou-se, pagou a sua garrafa e saiu para ver se teria mais sorte na procura do criado de manh do que de noite. Com efeito, a primeira coisa 
que distinguiu atravs do nevoeiro hmido e acinzentado foi o honesto Planchet que, com os dois cavalos pela mo, o esperava  porta de uma taberna miservel, diante 
da qual d'Artagnan passara sem sequer suspeitar da sua existncia.


        XXV - PORTHOS


        Em vez de se dirigir directamente para casa, d'Artagnan desmontou  porta do Sr. de Trville e subiu rapidamente a escada. Desta vez estava disposto a contar-lhe 
tudo o que se passara. Dar-lhe-ia sem dvida os bons conselhos a respeito de todo aquele caso e depois, como o Sr. de Trville via quase diariamente a rainha, talvez 
pudesse obter de Sua Majestade alguma informao acerca da pobre mulher a quem decerto faziam pagar a sua dedicao  ama.
O Sr. de Trville escutou o relato do jovem com uma gravidade que provava ver outra coisa em toda aquela aventura que no uma intriga amorosa. Por isso, quando d'Artagnan 
acabou resmungou:
- Hum, tudo isso me cheira  lgua a Sua Eminncia!...
- Mas que fazer? - perguntou d'Artagnan.
- Nada, absolutamente nada, neste momento, a no ser deixar Paris, como j vos disse, o mais depressa possvel. Falarei com a rainha e contar-lhe-ei os pormenores 
do desaparecimento dessa pobre mulher, que ela ignora sem dvida:

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esses pormenores orient-la-o pelo seu lado e no vosso regresso talvez eu tenha j alguma boa notcia para vos dar. Confiai em mim.
D'Artagnan sabia que, apesar de gasco, o Sr. de Trville no tinha o hbito de prometer, e que quando prometia fazia mais do que prometera. Despediu-se portanto 
cheio de reconhecimento pelo passado e pelo futuro, e o digno capito, que pela sua parte experimentava vivo interesse por aquele jovem to bravo e resoluto, apertou-lhe 
afectuosamente a mo e desejou-lhe boa viagem.
Decidido a pr imediatamente em prtica os conselhos do Sr. de Trville, d'Artagnan encaminhou-se para a Rua dos Fossoyeurs, a fim de mandar preparar a sua bagagem. 
Ao aproximar-se de casa, reconheceu o Sr. Bonacieux, de roupo, no limiar da sua porta. Tudo o que lhe dissera na vspera o prudente Planchet a respeito do carcter 
sinistro do senhorio acudiu ento ao esprito de d'Artagnan, que o olhou mais atentamente do que at ali. Com efeito, alm da sua palidez macilenta e doentia que 
indicava a infiltrao da blis no sangue e que de resto poderia ser apenas acidental, d'Artagnan notou qualquer coisa velhacamente prfida no aspecto das rugas 
do seu rosto. Um tratante no ri da mesma maneira que um homem honesto, um hipcrita no chora as mesmas lgrimas que um homem de boa f. Toda a falsidade  uma 
mscara, e por muito bem feita que seja essa mscara consegue-se sempre, com um bocadinho de ateno, distingui-la do rosto.
Pareceu portanto a d'Artagnan que o Sr. Bonacieux trazia uma mscara, e at que essa mscara era das mais desagradveis  vista.
Consequentemente, dominado pela repugnncia que experimentava pelo homem, ia a passar por ele sem lhe falar quando, como na vspera, o Sr. Bonacieux o interpelou.
- Ento, ento, parece que fazemos grandes noitadas, hem?... Sete horas da manh, apre! Parece-me que vos desviais um tanto dos hbitos inculcados e que entrais 
em casa  hora a que os outros saem.
- Ningum vos far a mesma censura, mestre Bonacieux; sois o modelo das pessoas ordenadas.  certo que quando se possui uma jovem e bonita mulher no h necessidade 
de correr atrs da felicidade:  a felicidade que vem ao nosso encontro. No  verdade, Sr. Bonacieux?
Bonacieux tornou-se plido como a morte e esboou um sorriso amarelo. Mas sempre foi dizendo:
- Oh, oh, sois um camarada pndego! Mas por onde diabo andastes esta noite, meu jovem amo? Parece que vos metestes por atalhos... i
D'Artagnan olhou para as botas, todas cobertas de lama; mas ao mesmo tempo olhou para os sapatos e para as meias do retroseiro, que dir-se-ia terem andado pelo mesmo 
lamaal, pois uns e outras estavam cobertas de manchas absolutamente idnticas.
Ento, uma ideia sbita atravessou o esprito de d'Artagnan: o homenzinho gordo, baixo e grisalho, aquela espcie de lacaio vestido de escuro, tratado sem considerao 
pelos espadachins que constituam a escolta, era o prprio Bonacieux.

56


O marido presidira ao rapto da mulher.
Apoderou-se de d'Artagnan uma terrvel vontade de saltar  garganta do retroseiro e estrangul-lo; mas, como j dissemos, era um rapaz muito prudente e conteve-se. 
No entanto, a modificao que se operara no seu rosto era to visvel que Bonacieux assustou-se e tentou recuar um passo. Mas encontrava-se precisamente diante do 
batente da porta que estava fechado e o obstculo com que deparou obrigou-o a conservar-se no mesmo lugar.
- Sois um brincalho, meu excelente amigo - redarguiu d'Artagnan. - Porque se as minhas botas esto precisadas de ser lavadas  esponja, as vossas meias e os vossos 
sapatos no o esto menos. Andastes s pegas, mestre Bonacieux? Diabo, isso seria imperdovel num homem da vossa idade e que ainda por cima tem uma mulher nova e 
bonita como a vossa!
- Meu Deus, no! - protestou Bonacieux. -  que ontem fui a Saint-Mand tirar informaes acerca de uma criada sem a qual no posso de modo nenhum passar, e como 
os caminhos estavam maus apanhei toda esta lama que ainda no tive tempo de limpar.
A localidade que Bonacieux indicava como sendo aquela onde estivera foi uma nova prova em apoio das suspeitas concebidas por d'Artagnan. Bonacieux dissera Saint-Mand 
porque Saint-Mand ficava em direco diametralmente oposta a Saint-Cloud.
Esta probabilidade foi a sua primeira consolao. Se Bonacieux soubesse onde estava a mulher, seria sempre possvel, empregando meios extremos, obrigar o retroseiro 
a abrir a boca e revelar o seu segredo. Tratava-se apenas de transformar tal probabilidade em certeza.
- Desculpe, meu caro Sr. Bonacieux, se fui indelicado consigo - disse d'Artagnan. - Mas nada me irrita mais do que no dormir e alm disso tenho uma sede dos diabos. 
Permiti-me tomar um copo de gua em vossa casa; como sabeis,  coisa que no se recusa entre vizinhos.
E sem esperar autorizao do senhorio, d'Artagnan entrou rapidamente na casa e deitou uma olhadela  cama. A cama no estava desfeita. Bonacieux no se deitara. 
Regressara havia apenas uma ou duas horas; acompanhara a mulher at ao local para onde a tinham levado ou pelo menos at  primeira muda.
- Obrigado, mestre Bonacieux - disse d'Artagnan, despejando o copo. - Era tudo o que queria de vs. Agora vou para casa, para que Planchet me escove as botas, e 
quando ele acabar mandar-vo-lo-ei, se quiserdes, para vos escovar os sapatos.
E deixou o retroseiro embasbacadssimo com to singular despedida e perguntando a si mesmo se no se teria metido ele prprio na boca do lobo.
D'Artagnan encontrou Planchet ao cimo da escada, muito agitado.
- Ah, senhor - exclamou Planchet assim que viu o amo -, temos novidade e estava ansioso que chegsseis!

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- Porqu? Que aconteceu? - perguntou d'Artagnan.
- Oh, dava-vos um doce, senhor, se adivinhsseis a visita que recebi por vs na vossa ausncia!
- Quando?
- H cerca de meia hora, quando estveis com o Sr. de Trville.
- E quem foi que veio? Vamos, fala.
- O Sr. de Cavois.
- O Sr. de Cavois?
- Em pessoa.
- O capito dos guardas de Sua Eminncia?
- O prprio.
- Vinha prender-me?
- Desconfio que sim, senhor, apesar do seu ar bajulador.
- Tinha ar bajulador, dizes tu?
- Quero dizer que era todo mel, senhor.
- Deveras?
- Vinha, disse, da parte de Sua Eminncia, que vos desejava muitas felicidades, pedir-vos que o acompanhsseis ao Palais-Royal.
- E tu que lhe respondestes?
- Que era impossvel, atendendo a que no estveis em casa, como ele podia ver.
- E que disse ele?
- Que no deixsseis de passar por sua casa durante o dia. "Diz ao teu amo que Sua Eminncia est muito contente com ele e que a sua fortuna talvez dependa desse 
encontro".
- A ratoeira  demasiado grosseira para o cardeal - comentou o jovem, sorrindo.
- Foi tambm o que me pareceu e por isso respondi que ficareis desolado quando regresssseis.
"- Aonde foi ele? - perguntou o Sr. de Cavois."
- A Troyes, na Champanha - respondi."
- E quando partiu?"
- Ontem  noite."
- Planchet, meu amigo - interrompeu-o d'Artagnan -, s realmente um homem precioso.
- Como compreendeis, senhor, pensei que seria sempre tempo de me desmentirdes, se desejsseis falar ao Sr. de Cavois, dizendo que no chegreis a partir; nesse caso, 
seria eu quem teria mentido, e como no sou gentil-homem posso mentir.
- Sossega, Planchet, que conservars a tua reputao de homem verdico: partimos dentro de um quarto de hora.
- Era o conselho que vos ia dar, senhor. E aonde vamos, se no sou demasiado curioso?
- Meu Deus, vamos para o lado oposto quele para onde disseste que amos. Alis, no tens tanta pressa de ter notcias de Grimaud, de Mousqueton e de Bazin como 
eu de saber o que aconteceu a Athos, Porthos e Aramis?

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- Tenho, sim senhor - respondeu Planchet -, e partirei quando quiserdes; o ar da provncia  melhor para ns, do que o ar de Paris. Portanto...
- Portanto, faz a nossa trouxa, Planchet, e partamos; eu vou  frente, de mos nas algibeiras, para que no desconfiem de nada. Tu vai ter comigo ao aquartelamento 
das Guardas. A propsito, Planchet, creio que tens razo a respeito do nosso senhorio e que se trata decididamente de um grande canalha.
- Acreditai sempre em mim, senhor, quando vos disser alguma coisa; sou fisionomista!
D'Artagnan desceu  frente, como se combinara; depois, para no ter nada de que se censurar, dirigiu-se pela ltima vez a casa dos seus trs amigos: no tinham recebido 
nenhuma notcia deles; apenas chegara para Aramis uma carta perfumadissima e de letra elegante e mida. D'Artagnan encarregou-se dela. Dez minutos depois, Planchet 
encontrava-se com ele nas cavalarias do aquartelamento das Guardas. Para no perderem mais tempo, d'Artagnan j selara ele prprio o seu cavalo.
- E agora - disse a Planchet quando este juntou o saco de sela ao equipamento-, agora sela os outros trs e partamos.
- Parece-vos que iremos mais depressa cada um com dois cavalos? - perguntou Planchet com o seu ar trocista.
- No, senhor gracejador de mau gosto - respondeu d'Artagnan -, mas com os nossos quatro cavalos poderemos trazer os nossos trs amigos, se ainda os encontrarmos 
vivos.
- O que seria uma grande sorte - observou Planchet. - Mas enfim, no se deve desesperar da misericrdia de Deus.
- men - disse d'Artagnan, montando a cavalo.
Saram ambos do aquartelamento das Guardas e afastaram-se cada um por uma extremidade da rua. Um devia deixar Paris pela Barreira de Villette e outro pela Barreira 
de Montmartre, para se juntarem depois de Saint-Denis, manobra estratgica que executada com igual pontualidade foi coroada dos mais felizes resultados. D'Artagnan 
e Planchet entraram juntos em Pierrefitte.
 preciso dizer que Planchet era mais corajoso de dia do que de noite.
Contudo, a sua prudncia natural no o abandonava um s instante; no esquecera nenhum dos incidentes da primeira viagem e considerava inimigos todos aqueles que 
encontrava na estrada. Resultava da andar constantemente de chapu na mo, o que lhe valia severas reprimendas da parte de d'Artagnan, que receava que graas quele 
excesso de polidez o tomassem pelo criado de um homem de baixa condio.
No entanto, fosse porque efectivamente os transeuntes se impressionassem com a urbanidade de Planchet, fosse porque desta vez ningum se encontrasse postado no caminho 
do jovem,

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o certo  que os nossos dois viajantes chegaram a Chantilly sem acidente algum e desmontaram  porta da estalagem do Grand Saint Martin, a mesma em que tinham parado 
aquando da primeira viagem.
Ao ver um jovem acompanhado de um lacaio com dois cavalos  mo, o estalajadeiro veio respeitosamente  porta. E como j tinha percorrido onze lguas, d'Artagnan 
julgou a propsito deter-se, quer Porthos estivesse, quer no estivesse na estalagem. Alm disso, talvez no fosse prudente informar-se logo de entrada do que acontecera 
ao mosqueteiro. Resultou destas reflexes que d'Artagnan, sem pedir qualquer notcia de quem quer que fosse, desmontou, recomendou os cavalos ao criado, entrou num 
compartimentozinho destinado a receber aqueles que desejavam estar ss e pediu ao estalajadeiro uma garrafa do seu melhor vinho e um pequeno-almoo to bom quanto 
possvel, pedido que corroborou ainda mais a boa opinio que o estalajadeiro formara  primeira vista do seu viajante.
Por isso, d'Artagnan foi servido com celeridade miraculosa. O Regimento das Guardas recrutava os seus elementos entre os primeiros gentis-homens do reino, e d'Artagnan, 
acompanhado de um lacaio e viajando com quatro cavalos magnficos, no podia, apesar da simplicidade do seu uniforme, deixar de causar sensao. O estalajadeiro 
quis servi-lo pessoalmente; vendo isso, d'Artagnan mandou vir dois copos e encetou a seguinte conversa:
- Meu caro estalajadeiro - disse d'Artagnan, enchendo os dois copos -, pedi-vos o vosso melhor vinho e se me enganastes ides ser castigado porque pecastes, atendendo 
a que como detesto beber sozinho, ides beber comigo. Pegai pois nesse copo e bebamos. A que beberemos, para no ferir nenhuma susceptibilidade? Bebamos  prosperidade 
do vosso estabelecimento!
- Vossa Senhoria honra-me - respondeu o estalajadeiro - e agradeo-vos muito sinceramente os vossos bons desejos.
- Mas no vos iludais - prosseguiu d'Artagnan -, pois talvez haja mais egosmo do que pensais no meu brinde: no h como os estabelecimentos prsperos para se ser 
bem recebido; nos periclitantes, anda tudo ao deus-dar e o viajante  vtima das dificuldades do estalajadeiro; ora eu, que viajo muito e sobretudo por esta estrada, 
gostaria de ver todos os estalajadeiros fazerem fortuna.
- Com efeito - disse o estalajadeiro -, parece-me no ser a primeira vez que tenho a honra de vos ver, senhor.
- Sim? De facto, talvez tenha passado dez vezes por Chantilly e dessas dez vezes detive-me pelo menos trs ou quatro em vossa casa. Ainda c estive h dez ou doze 
dias, pouco mais ou menos, com uns amigos mosqueteiros, por tal sinal que um deles se envolveu em disputa com um estrangeiro, um desconhecido, um homem que discutiu 
com ele no sei porqu.

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- Ah, sim,  verdade! - exclamou o estalajadeiro. - Recordo-me perfeitamente. No  ao Sr. Porthos que Vossa Senhoria se refere?
- Era precisamente esse o nome do meu companheiro de viagem. Meu Deus, meu caro estalajadeiro, dizei-me: aconteceu-lhe algum mal?
- Vossa Senhoria deve ter notado que ele no pde continuar o seu caminho.
- Com efeito, prometera juntar-se-nos, mas nunca mais o vimos.
- Deu-nos a honra de ficar aqui.
- Como? Deu-vos a honra de ficar aqui?...
- Sim, senhor, nesta estalagem; estamos at muito preocupados.
- E com qu?
- Com certas despesas que tem feito...
- Bom, se tem feito despesas pag-las-!
- Ah, senhor, que peso me tirais de cima! Fizemos-lhe grandes adiantamentos e ainda esta manh o cirurgio nos declarava que se o Sr. Porthos lhe no pagasse era 
a mim que viria cobrar, visto ter sido eu quem o mandara chamar.
- Isso quer dizer que Porthos est ferido?
- No vo-lo saberia dizer, senhor.
- Como, no sabereis dizer-mo?... No entanto, devereis estar melhor informado do que ningum!
- Pois sim, mas no nosso estado no dizemos tudo o que sabemos, senhor, sobretudo depois de nos prevenirem de que as nossas orelhas responderiam pela nossa lngua.
- Posso ver Porthos?
- Certamente, senhor. Tomai a escada, subi ao primeiro andar e batei no n 1. Mas preveni que sois vs...
- Por que hei-de prevenir que sou eu?
- Porque poderia acontecer-vos algum contratempo...
- E que contratempo, no me dizeis?
- O Sr. Porthos tomar-vos por algum da casa e, num gesto de clera, trespassar-vos com a espada ou dar-vos um tiro na cabea.
- Que lhe fizestes para isso?
- Pedimos-lhe dinheiro...
- Oh, diabo, agora compreendo!  um pedido que Porthos recebe muito mal quando est sem fundos; mas neste caso sei que devia estar abonado...
- Era tambm o que pensvamos, senhor. Como a casa  muito pontual e tiramos as contas todas as semanas, ao fim de oito dias apresentmos-lhe a dele; mas parece 
que aparecemos em m altura, pois  primeira palavra que pronuncimos a tal respeito mandou-nos para o Inferno.  certo que jogara na vspera...
- Jogara na vspera?... E com quem?
- Oh, meu Deus, v-se l saber! Com um fidalgo de passagem a quem desafiou para uma partida de lansquen.
- E, claro, o desgraado perdeu tudo...

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- At o cavalo, senhor, porque quando o desconhecido se preparou para partir verificmos que o seu lacaio selava o cavalo do Sr. Porthos. Chammos-lhe a ateno 
para isso, mas respondeu-nos que no nos metssemos onde no ramos chamado e que o cavalo era dele. Prevenimos imediatamente o Sr. Porthos do que se passava, mas 
ele respondeu-nos que ramos uns patifes por duvidar da palavra de um gentil-homem e que se o outro dissera que o cavalo lhe pertencia  porque de facto assim era.
- Isso  mesmo dele - murmurou d'Artagnan.
- Ento - continuou o estalajadeiro -, respondi-lhe que uma vez que parecamos destinados a no ouvir falar de pagamento, esperava que tivesse ao menos a bondade 
de conceder o favor da sua preferncia ao meu colega o dono da Aigle d'Or, mas o Sr. Porthos respondeu-me que a minha estalagem era melhor e preferia c ficar.
Semelhante resposta era demasiado lisonjeira para que insistisse na sua partida. Limitei-me portanto a pedir-lhe que me deixasse o quarto, que  o mais bonito da 
estalagem, e se contentasse com um agradvel gabinetezinho no terceiro andar. Mas a isto o Sr. Porthos respondeu que como esperava de um momento para o outro a sua 
amante, uma das maiores damas da corte, eu devia compreender que o quarto que me dava a honra de habitar em minha casa era ainda muito medocre para semelhante pessoa.
"No entanto, embora reconhecendo a verdade do que dizia, julguei dever insistir; mas sem mesmo se dar ao incmodo de discutir comigo, pegou na pistola, p-la em 
cima da mesa-de-cabeceira e declarou que  primeira palavra que lhe dissessem acerca de se mudar, quer para o exterior, quer para o interior, estoiraria os miolos 
a quem fosse suficientemente imprudente para se meter num assunto que s a ele dizia respeito. Por isso, desde ento, senhor, ningum entra no seu quarto, a no 
ser o seu criado."
- Mousqueton est portanto aqui?
- Est, sim, senhor; cinco dias depois de partir regressou de muito mau humor; parece que tambm teve contratempos na viagem. Infelizmente,  mais lpido do que 
o amo, o que o leva a, por causa dele, virar tudo do avesso, pois como pensa que se lhe pode recusar o que pede deita mo a tudo o que precisa sem pedir.
- Na verdade - respondeu d'Artagnan - sempre notei em Mousqueton uma dedicao e uma inteligncia muito superiores.
-  possvel, senhor; mas imaginai que se me acontecer deparar, s que seja quatro vezes por ano, com uma inteligncia e uma dedicao semelhantes, sou um homem 
arruinado.
- No, porque Porthos vos pagar.
- Hum! - resmungou o estalajadeiro em tom de dvida.
-  o favorito de uma grandssima dama que no o deixar em apuros por uma misria como a que vos deve.
- Se ousasse dizer o que creio a tal respeito...

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- Que credes?
- Direi mais: que sei.
- Que sabeis?
- E at de que tenho a certeza.
- E de que tendes a certeza, vejamos?
- Diria que conheo essa grande dama. -Vs?
- Sim, eu.
- E como a conheceis?
- Oh, senhor, se tivesse a certeza de poder confiar na vossa descrio! ...
- Falai e, palavra de gentil-homem, no vos arrependereis da vossa confiana.
- Pois bem, senhor: admitis que a preocupao leva a fazer muitas coisas...
- Que fizestes?
- Oh, nada a que um credor no tenha direito!
- Mas que foi?
- O Sr. Porthos entregou-nos uma carta para essa duquesa e recomendou-nos que a metssemos no correio. O seu criado ainda no chegara. Como ele no podia sair do 
quarto, era mister que nos encarregssemos dos seus recados.
- E depois?
- Em vez de meter a carta no correio, o que nunca  muito seguro, aproveitei a oportunidade de um dos meus rapazes ir a Paris e ordenei-lhe que a entregasse  prpria 
duquesa. Era a melhor maneira de cumprirmos as ordens do Sr. Porthos, que tanto nos recomendara a carta, no  verdade?
- Mais ou menos.
- Pois, senhor, sabeis quem  essa grande dama?
- No; s ouvi falar dela a Porthos, mais nada.
- Sabeis quem  essa pretensa duquesa?
- Repito-vos que no a conheo.
-  uma velha procuradora do Chtelet, senhor, chamada Sr.a Coquenard, a qual tem pelo menos cinquenta anos e se d ainda ares de ser ciumenta. Razo tinha eu quando 
achara deveras singular uma princesa morar na Rua dos Ursos.
- Como descobristes tudo isso?
- Porque ela perdeu a cabea ao receber a carta, dizendo que o Sr. Porthos era um mulherengo e que fora novamente por causa de alguma mulher que recebera aquela 
estocada.
- Mas ele recebeu de facto alguma estocada?
- Oh, meu Deus que fui eu dizer!
- Dissestes que Porthos recebera uma estocada.
- Pois disse, mas ele proibira-me tanto de o dizer!
- Porqu?

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- Ora, senhor, porque se gabara de perfurar esse estrangeiro com o qual o deixastes a discutir, e foi o estrangeiro, pelo contrrio, que, apesar de todas as suas 
bravatas, o deitou abaixo. Assim, como o Sr. Porthos  um homem muito presunoso, excepto para com a duquesa, que julgara impressionar descrevendo-lhe a sua aventura, 
no quer confessar a ningum que recebeu uma estocada.
- Portanto  uma estocada que o retm na cama?
- E uma senhora estocada, garanto-vos.  preciso que o vosso amigo tenha a alma muito agarrada ao corpo.
- Assististes ao duelo?
- Seguira-os por curiosidade, senhor, de modo que vi o combate sem que os combatentes me vissem.
- E como foi que as coisas se passaram?
- Oh, no demorou muito, desde j vos digo! Puseram-se em guarda; o estrangeiro fez uma finta e carregou; tudo to rapidamente que quando o Sr. Porthos quis parar 
o bote j tinha trs polegadas de ferro no peito. Caiu para trs. O estrangeiro colocou-lhe imediatamente a ponta da espada na garganta, e o Sr. Porthos, vendo-se 
 merc do adversrio, confessou-se vencido. Depois o estrangeiro perguntou-lhe como se chamava e ao saber que se chamava Porthos e no d'Artagnan ofereceu-lhe o 
brao, acompanhou-o at  estalagem, montou a cavalo e desapareceu.
- Portanto, era com o Sr. d'Artagnan que o estrangeiro pretendia bater-se?
- Parece que sim.
- E sabeis que foi feito dele?
- No; nunca o vira at ali e no o tornmos a ver depois.
- Muito bem, j sei o que queria saber. Agora, dizeis que o quarto de Porthos  no primeiro andar, nmero 1?
- Exacto, senhor; o mais bonito da estalagem! Um quarto que j teria tido dez oportunidades de alugar.
- Vamos, tranquilizai-vos - redarguiu-lhe d'Artagnan, rindo. -Porthos pagar-vos- com o dinheiro da duquesa Coquenard.
- Oh, senhor, alcoviteira ou duquesa, se abrisse os cordes  bolsa no teria importncia! Mas respondeu categoricamente que estava farta das exigncias e das infidelidades 
do Sr. Porthos e que no lhe mandaria um chavo.
- E destes essa resposta ao vosso hspede?
- Deus nos livre! Ficaria a saber de que maneira nos tnhamos desempenhado da sua comisso.
- De modo que continua  espera do dinheiro?
- Oh, meu Deus, sim! Ontem voltou a escrever; mas desta vez foi o seu criado que meteu a carta no correio.
- E dizeis que a procuradora  velha e feia?
- Tem cinquenta anos, pelo menos, senhor, e no deve nada  beleza, segundo disse Pathaud.

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- Nesse caso, estai tranquilo que ela se deixar comover; de resto, Porthos no vos pode dever grande coisa...
- Como no me pode dever grande coisa?! O seu dbito anda j por umas vinte pistolas, sem contar com o mdico. Oh, no se priva de nada, podeis crer! V-se que est 
habituado a viver bem.
- Se a amante o abandonar, encontrar amigos, garanto-vos. Portanto, meu caro estalajadeiro, no vos preocupais e continuai a dispensar-lhe todos os cuidados que 
o seu estado exige.
- O senhor prometeu-me no falar da procuradora nem dizer nada a respeito do ferimento...
- Est combinado; tendes a minha palavra.
- Oh, se ele soubesse matava-me, podeis ter a certeza.
- No tenhais medo; no  to mau como parece.
Ditas estas palavras, d'Artagnan subiu a escada, deixando o estalajadeiro um pouco mais tranquilo a respeito das duas coisas que parecia prezar muito: o seu crdito 
e a sua vida.
Ao cimo da escada, na porta mais visvel do corredor, estava traado a tinta preta um nmero 1 gigantesco. D'Artagnan bateu e, correspondendo ao convite de entrar 
que recebeu de dentro, entrou.
Porthos estava deitado e jogava uma partida de lansquen com Mousqueton, para no perder a mo, enquanto um espeto carregado de perdizes girava diante do lume e 
a cada canto de uma grande chamin ferviam em cima de dois fogareiros dois tachos donde se exalava um duplo cheiro a coelho e a caldeirada que deliciava o olfato. 
Alm disso, o tampo de uma secretria e o mrmore de uma cmoda estavam cobertos de garrafas vazias.
Ao ver o amigo, Porthos soltou um grande grito de alegria; e Mousqueton levantou-se respeitosamente, cedeu-lhe o lugar e foi dar uma olhadela aos dois tachos, cuja 
inspeco parecia estar-lhe especialmente confiada.
- Meu Deus, sois vs! - gritou Porthos a d'Artagnan. - Sede bem-vindo e desculpai-me no ter ido ao vosso encontro. Mas - acrescentou, olhando d'Artagnan com certa 
inquietao - sabeis o que me aconteceu?
-No.
- O estalajadeiro no vos disse nada?
- Perguntei por vs e subi imediatamente. Porthos pareceu respirar mais livremente.
- Mas afinal que vos aconteceu, meu caro Porthos? - continuou d'Artagnan.
- Aconteceu-me que ao carregar sobre o meu adversrio, a quem j brindara com trs estocadas e com o qual queria acabar com a quarta, dei com o p numa pedra e torci 
o joelho.
- Deveras?
- Palavra de honra! Felizmente para o patife, pois garanto-vos que no o deixaria sair dali vivo.

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- E que foi feito dele?
- No sei; j estava bem aviado e ps-se ao fresco sem esperar pelo resto. E vs, meu caro d'Artagnan, que vos aconteceu?
- De modo - continuou d'Artagnan - que esse entorse, meu caro Porthos, vos retm no leito?
- Meu Deus, sim! Mas dentro de alguns dias j me poderei levantar.
- Nesse caso, por que no vos fizestes transportar para Paris? Deveis aborrecer-vos cruelmente aqui.
- Era essa a minha inteno; mas, meu caro, tenho de vos confessar uma coisa.
-Qual?
- Como me aborrecia cruelmente, como dizeis, e tinha na algibeira as setenta e cinco pistolas que me tnheis distribudo, convidei a subir ao meu quarto, para me 
distrair, um gentil-homem que estava de passagem e ao qual propus jogarmos uma partida de dados. Ele aceitou e... as minhas setenta e cinco pistolas passaram da 
minha algibeira para a dele, sem contar com o meu cavalo, que tambm ganhou. Mas vs, meu caro d'Artagnan?
- Que quereis, meu caro Porthos, no se pode ser privilegiado de todas as maneiras - respondeu d'Artagnan. - Conheceis o provrbio: "Infeliz ao jogo, feliz no amor." 
Sois demasiado feliz no amor para que o jogo no se vingue. Mas que vos importam os reveses da sorte? No tendes, seu felizardo!, a vossa duquesa, que no pode deixar 
de vos valer neste aperto?
- Bom, meu caro d'Artagnan, como estava em mar de azar - respondeu Porthos com o ar mais descontrado deste mundo -, escrevi-lhe para que me enviasse uns cinquenta 
luzes de que tinha absoluta necessidade, dada a situao em que me encontrava...
- E ento?
- E ento... deve estar nas suas propriedades, porque no me respondeu.
- Deveras?
- Deveras. Por isso, escrevi-lhe ontem segunda carta, ainda mais insistente do que a primeira. Mas deixemos isso, meu caro, e falemos de vs. Comeava, confesso, 
a estar um pouco preocupado convosco.
- Mas o vosso estalajadeiro portou-se bem para convosco, ao que parece, meu caro Porthos - observou d'Artagnan, indicando ao doente os tachos cheios e as garrafas 
vazias.
- Assim-assim, assim-assim! - respondeu Porthos. - H trs ou quatro dias o impertinente veio-me com a conta, mas pu-lo fora da porta, a conta e ele; de modo que 
estou aqui como uma espcie de vencedor, como uma espcie de conquistador. Por isso, receando sempre ser atacado na posio, estou, como vedes, armado at aos dentes.
- No entanto, parece-me que de vez em quando fazeis surtidas - observou d'Artagnan, rindo.

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E indicava com o dedo as garrafas e os tachos.
- Eu, no, infelizmente! - redarguiu Porthos. - Esta miservel entorse retm-me na cama, mas Mousqueton bate o campo e fornece-se de vveres. Mousqueton, meu amigo 
- continuou Porthos -, como vedes recebemos reforos; precisamos de um suplemento de vitualhas.
- Mousqueton - interveio d'Artagnan -, tendes de me fazer um favor.
- Qual, senhor?
- Dar a vossa receita a Planchet.  que poderei algum dia encontrar-me tambm cercado e no seria mau que ele me proporcionasse as mesmas vantagens que proporcionais 
ao vosso amo.
- Meu Deus, senhor, nada mais fcil! - respondeu Mousqueton com modstia. -  apenas preciso ser hbil. Fui criado no campo e o meu pai, nos seus momentos livres, 
era um pouco caador furtivo.
- E no resto do tempo, que fazia?
- Praticava uma indstria que sempre achei excelente. -Qual?
- Como se estava no tempo das guerras entre catlicos e huguenotes e ele via os catlicos exterminar os huguenotes e os huguenotes exterminar os catlicos, tudo 
em nome da religio, arranjou para seu uso uma crena mista, o que lhe permitia ser ora catlico, ora huguenote. Habitualmente, passeava, de escopeta ao ombro, atrs 
das sebes que ladeiam os caminhos, e quando via aproximar-se um catlico sozinho a religio protestante apoderava-se-lhe imediatamente do esprito. Abaixava a escopeta 
na direco do viajante; depois, quando estava a dez passos dele, encetava um dilogo que terminava quase sempre no abandono, por parte do viajante, da bolsa para 
salvar a vida. Escusado ser dizer que quando via aproximar-se um huguenote se sentia dominado por um zelo catlico to ardente que no compreendia como, um quarto 
de hora antes, pudera ter dvidas sobre a superioridade da nossa santa religio. Como eu sou catlico, meu pai, fiel aos seus princpios, fez o meu irmo mais velho 
huguenote.
- E como acabou esse digno homem? - perguntou d'Artagnan.
- Oh, da forma mais infeliz, senhor! Um dia, encontrou-se num caminho escuso entre um huguenote e um catlico com quem j tivera os seus dares e tomares e que o 
reconheceram; de modo que se aliaram contra ele e o enforcaram numa rvore. Depois, foram-se gabar da excelente equipa que tinham feito no botequim da primeira aldeia 
que encontraram e onde estvamos a beber, o meu irmo e eu.
- E que fizestes? - perguntou d'Artagnan.
- Deixmo-los falar - respondeu Mousqueton. - Depois, como  sada do botequim tomaram ambos por caminhos opostos, o meu irmo foi-se emboscar no caminho do catlico 
e eu no do protestante. Duas horas depois estava tudo acabado: cada um de ns tratara da sade ao seu homem e admirava a previso do nosso pobre pai, que tomara 
o cuidado de criar cada um de ns numa religio diferente.

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- Com efeito, como dizeis, Mousqueton, o vosso pai parece-me ter sido um figuro muito inteligente. E dizeis que nos seus tempos livres o excelente homem era caador 
furtivo?
-  verdade, senhor, e foi ele que me ensinou a armar um lao e a colocar uma linha de fundo. Assim, quando vi que o velhaco do nosso estalajadeiro nos alimentava 
com carnes boas para labregos e que no caam bem em estmagos to delicados como os nossos, dediquei-me um pouco  minha antiga profisso. Enquanto passeava no 
bosque do Sr. Prncipe, armei laos nas passagens de caa; enquanto me estiraava sorrateiramente nos lagos de Sua Alteza, meti sorrateiramente linhas nos ditos. 
De modo que, graas a Deus, agora no nos faltam, como o senhor pode verificar, perdizes e coelhos, carpas e enguias, tudo alimentos leves e saudveis, indicados 
para doentes.
- Mas o vinho, quem fornece o vinho?  o estalajadeiro? - perguntou d'Artagnan.
- Sim e no.
- Como, sim e no?
- Fornece-o,  verdade, mas ignora que tem essa honra.
- Explicai-vos, Mousqueton; as vossas palavras esto cheias de coisas instrutivas.
- Escutai, senhor. O acaso fez com que encontrasse nas minhas peregrinaes um espanhol que vira muitos pases, muitas terras, e entre elas o Novo Mundo.
- Que relao pode ter o Novo Mundo com as garrafas que esto em cima da secretria e da cmoda?
- Tende pacincia, senhor; cada coisa vir a seu tempo.
-  justo, Mousqueton; confio em vs e escuto.
- O espanhol tinha ao seu servio um lacaio que o acompanhara na sua viagem ao Mxico. Esse lacaio era meu patrcio, de modo que nos tornmos amigos tanto mais rapidamente 
quanto  certo haver entre ns grandes afinidades de carcter. Ambos gostvamos da caa mais do que tudo, de forma que ele contava-me como nas plancies e pampas 
os naturais da regio caavam felinos e touros com simples ns corredios que lanavam ao pescoo desses terrveis animais. Ao princpio no queria acreditar que 
se pudesse atingir esse grau de destreza, lanar a vinte ou trinta passos a extremidade de uma corda aonde se quisesse; mas perante a prova no tive remdio seno 
reconhecer que era verdade. O meu amigo colocava uma garrafa a trinta passos e de todas as vezes apanhava-a pelo gargalo no n corredio. Dediquei-me ao mesmo exerccio 
e como a natureza me dotou de algumas faculdades hoje atiro o lazo to bem como nenhum homem no mundo. E agora, compreendeis? O nosso estalajadeiro tem uma adega 
muito bem fornecida, mas de que no larga a chave; simplesmente, a adega tem um respiradouro. Ora eu atiro o lazo atravs do respiradouro e como sei agora onde est 
o bom vinho  a que me abasteo. Aqui tendes, senhor, como o Novo Mundo se encontra relacionado com as garrafas que esto em cima dessa cmoda e dessa secretria. 
Agora, ides provar o nosso vinho e dizer-nos, sem preveno, que tal vos parece.
- Obrigado, meu amigo, obrigado; infelizmente, acabo de tomar o pequeno- almoo.
- Nesse caso, Mousqueton, pe a mesa e enquanto tomarmos o pequeno-almoo d'Artagnan contar-nos- o que se passou com ele desde que nos deixou h dez dias... - sugeriu 
Porthos.
- Com muito prazer - respondeu d'Artagnan.
Enquanto Porthos e Mousqueton tomavam o pequeno-almoo com apetite de convalescentes e essa cordialidade de irmos que aproxima os homens na desgraa, d'Artagnan 
contou como Aramis, ferido, fora obrigado a deter-se em Crvecoeur, como deixara Athos a debater-se nas mos de quatro homens que o acusavam de moedeiro falso e 
como ele, d'Artagnan, se vira forado a passar sobre a barriga do conde de Wardes para chegar a Inglaterra.
Mas as confidncias de d'Artagnan ficaram por a; limitou-se a anunciar que no seu regresso da Gr-Bretanha trouxera quatro cavalos magnficos, dos quais um para 
si e os outros para os seus companheiros; e terminou anunciando a Porthos que o que lhe estava destinado j estava instalado na cavalaria da estalagem.
Neste momento entrou Planchet que vinha prevenir o amo de que os cavalos estavam suficientemente repousados e seria possvel irem dormir a Clermont.
Como d'Artagnan estava mais ou menos tranquilizado acerca de Porthos e tinha pressa de ter notcias dos seus outros dois amigos, estendeu a mo ao doente e disse-lhe 
que se ia pr a caminho para continuar as buscas. De resto, como esperava regressar pela mesma estrada, se dali a sete ou oito dias Porthos ainda estivesse na estalagem 
do Grand Saint Martin, juntar-se-lhe-ia na passagem.
Porthos respondeu que segundo todas as probabilidades o seu entorse lhe no permitiria afastar-se nesse intervalo. Alis, precisava de ficar em Chantilly  espera 
de uma resposta da sua duquesa.
D'Artagnan desejou-lhe que essa resposta chegasse depressa e fosse boa; e depois de recomendar de novo Porthos a Mousqueton e de pagar a sua despesa na estalagem 
ps-se a caminho com Planchet, j desembaraado de um dos seus cavalos de mo.


        XXVI - A TESE DE ARAMIS

        D'Artagnan nada dissera a Porthos acerca do seu ferimento e da sua alcoviteira. Era um rapaz muito sensato, o nosso bearns, apesar de jovem. Consequentemente, 
fingira acreditar em tudo o que lhe contara o presunoso mosqueteiro,

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convencido de que no h amizade que resista a um segredo descoberto, sobretudo quando esse segredo est relacionado com o orgulho; depois, tem-se sempre certa superioridade 
moral sobre aqueles de quem se conhece a vida.
Ora, nos seus projectos de intriga futura e decidido como estava a fazer dos seus trs companheiros os instrumentos da sua fortuna, d'Artagnan no se importaria 
nada de reunir antecipadamente nas mos os fios invisveis com o auxlio dos quais contava manobr-los.
No entanto, enquanto seguia ao longo da estrada uma profunda tristeza apertava-lhe o corao: pensava na jovem e bonita Sr.a Bonacieux, que deveria recompens-lo 
da sua dedicao; mas, apressamo-nos a diz-lo, a sua tristeza devia-se menos ao pesar da sua aventura perdida do que ao receio que experimentava em que acontecesse 
alguma desgraa  pobre mulher. Para si, no havia dvida, ela era vtima de uma vingana do cardeal, e como se sabe as vinganas de Sua Eminncia eram terrveis. 
Como tivera desculpa aos olhos do ministro, eis o que ele prprio ignorava e o que sem dvida lhe teria revelado o Sr. de Cavois se o capito dos guardas o tivesse 
encontrado em casa.
No h nada que faa passar o tempo e abrevie uma viagem como um pensamento que absorve em si mesmo todas as faculdades daquele que pensa. A existncia exterior 
assemelha-se ento a um sono de que esse pensamento  o sonho. Graas  sua influncia, o tempo deixa de ter medida e o espao distncia. Parte-se a um stio e chega-se 
a outro, mais nada. Do intervalo percorrido nada resta presente na memria, excepto uma vaga neblina na qual se diluem mil imagens confusas de rvores, montanhas 
e paisagens. Foi presa desta alucinao que d'Artagnan transps,  velocidade que quis o seu cavalo, as seis ou oito lguas que separam Chantilly de Crvecoeur, 
sem que ao chegar a esta aldeia se recordasse de alguma das coisas que encontrara pelo caminho. S l a memria lhe voltou; sacudiu a cabea, viu o botequim onde 
deixara Aramis e, metendo o cavalo a trote, parou  porta.
Desta vez no foi um estalajadeiro, mas sim uma estalajadeira quem o recebeu. D'Artagnan era fisionomista, envolveu num s olhar a gorda figura bonacheirona da dona 
da casa e compreendeu que no tinha necessidade de dissimular com ela, nem nada a temer da parte de to risonha fisionomia.
- Minha boa senhora, podereis dizer-me que foi feito de um dos meus amigos que fomos obrigados a deixar aqui h ums doze dias? - perguntou d'Artagnan.
- Um belo rapaz de vinte e trs a vinte e quatro anos, de trato delicado, amvel e simptico?
- E ferido num ombro.
- Exacto!
- Sabeis onde est?
- Continua aqui, senhor.
- Meu Deus, minha querida senhora, restitus-me a vida!

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- exclamou d'Artagnan, desmontando e atirando as rdeas do cavalo para o brao de Planchet. - Onde est ele, esse querido Aramis, que o quero abraar? Porque confesso 
que tenho pressa de o tornar a ver.
- Perdo, senhor, mas duvido que vos possa receber neste momento.
- Porqu? Est com alguma mulher?
- Jesus, que dizeis! Pobre rapaz! No, senhor, no est com uma mulher.
- Com quem, ento?
- Com o proco de Montdidier e o superior dos Jesutas de Amiens.
- Meu Deus! - exclamou d'Artagnan. - O pobre rapaz ter piorado?
- No, senhor, pelo contrrio; mas depois da sua doena a graa tocou-o e resolveu ordenar-se.
- Tem razo, tinha-me esquecido que era mosqueteiro apenas provisoriamente - disse d'Artagnan.
- O senhor continua a insistir em v-lo?
- Mais do que nunca.
- Ento, s tem de subir a escada  direita no ptio, at ao segundo andar, nmero 5.
D'Artagnan correu na direco indicada e encontrou uma dessas escadas exteriores como ainda hoje vimos nos ptios das antigas estalagens. Mas no se chegava assim 
junto do futuro abade; o acesso ao quarto de Aramis estava to bem guardado como os jardins de Armida; Bazin, postado no corredor, barrou-lhe a passagem com tanta 
mais intrepidez quanto era certo depois de muitos anos de provaes ver-se finalmente prestes a alcanar o resultado que toda a vida ambicionara.
Com efeito, o sonho do pobre Bazin sempre fora servir um homem de Igreja, e esperava com impacincia o momento constantemente entrevisto no futuro em que Aramis 
lanaria finalmente o uniforme s urtigas para envergar a sotaina. S a promessa todos os dias renovada pelo jovem de que o momento no tardaria o retivera ao servio 
de um mosqueteiro, servio em que, dizia, no podia deixar de perder a alma.
Bazin no cabia portanto em si de contente. Segundo todas as probabilidades, desta vez o amo no se desdiria. A juno da dor fsica com a dor moral produzira o 
efeito to longamente desejado: Aramis, sofrendo ao mesmo tempo do corpo e da alma, detivera enfim na religio os olhos e o pensamento, olhara como uma advertncia 
do Cu o duplo acidente que lhe acontecera, isto , o desaparecimento sbito da amante e o ferimento no ombro.
Compreende-se que, na disposio em que se encontrava, nada pudesse ser mais desagradvel a Bazin do que a chegada de d'Artagnan, o qual poderia tornar a lanar-lhe 
o amo no turbilho das ideias mundanas em que durante tanto tempo mergulhara. Resolveu, portanto defender bravamente a porta; e como, atraioado pela dona da estalagem, 
no pudesse dizer que Aramis estava ausente, tentou demonstrar ao recm-chegado que
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seria o cmulo da indiscrio incomodar o amo na piedosa conferncia em que estava desde manh e que, no dizer de Bazin, no terminaria antes da noite.
Mas D'Artagnan no teve em nenhuma conta o eloquente discurso de mestre Bazin, e como no estava disposto a envolver-se numa polmica com o criado do amigo afastou-o 
muito simplesmente com uma das mos e com a outra girou a maaneta da porta nmero 5.
A porta abriu-se e d'Artagnan entrou no quarto.
Aramis, de sobreveste preta e com a cabea coberta por espcie de toucado redondo e achatado, que lembrava um solidu, estava sentado diante de uma mesa oblonga 
coberta de rolos de papel e de enormes inflios;  sua direita sentava-se o superior dos Jesutas e  sua esquerda o proco de Montdidier. Os cortinados estavam 
semifechados e s deixavam penetrar uma claridade misteriosa que servia de pano de fundo a uma devota meditao. Todos os objectos mundanos susceptveis de dar nas 
vistas quando se entra no quarto de um jovem, e sobretudo quando esse jovem  mosqueteiro, tinham desaparecido como que por encanto; e sem dvida com receio de que 
a sua vista conduzisse o amo s ideias deste mundo, Bazin fizera mo baixa na espada, nas pistolas, no chapu de plumas, nas bordaduras e nas rendas de todo o gnero 
e de toda a espcie.
Em seu lugar, D'Artagnan julgou distinguir num canto escuro como que o vulto de uma disciplina pendurada por um prego na parede.
Ao barulho que fez d'Artagnan ao abrir a porta, Aramis levantou a cabea e reconheceu o amigo. Mas com grande espanto do recm-chegado a sua vista no pareceu produzir 
grande impresso no mosqueteiro de tal modo o seu esprito estava alheado das coisas terrenas.
- Boas tardes, caro d'Artagnan - disse Aramis. - Acreditai que me sinto feliz por vos ver.
- E eu tambm - respondeu d'Artagnan -, embora ainda no estar bem certo de ser a Aramis que falo.
- Ao prprio, meu amigo, ao prprio; que vos pde levar a duvidar?
- Receei ter-me enganado no quarto e ao princpio julguei entrar nos aposentos de algum homem de Igreja. Depois, incorri noutro erro ao encontrar-vos na companhia 
desses senhores: supus que estivsseis gravemente doente.
Os dois homens vestidos de preto lanaram a d'Artagnan, cuja inteno compreenderam, um olhar quase ameaador; mas d'Artagnan no se preocupou com isso.
- Talvez vos incomode, meu caro Aramis - continuou d'Artagnan -, pois pelo que vejo sou levado a crer que vos confessais a esses senhores.
Aramis corou imperceptivelmente.
- Vs incomodar-me? Muito pelo contrrio, caro amigo, juro-vo-lo; e como prova do que digo permiti-me que me regozije por vos ver so e salvo.

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"Temos homem! O caso no est perdido...", pensou D'Artagnan.
- Porque esse senhor, que  meu amigo, acaba de escapar a um grande perigo - continuou Aramis, com uno e indicando com a mo d'Artagnan aos dois eclesisticos.
- Dai graas a Deus, senhor - responderam os padres, inclinando-se ao mesmo tempo.
- No deixei de as dar, meus senhores - respondeu o jovem, retribuindo-lhes a saudao.
- Chegais a propsito, caro d'Artagnan - disse Aramis -, e ides, tomando parte na discusso, esclarec-la com as vossas luzes. O Sr. Principal de Amiens, o Sr. Proco 
de Montdidier e eu estvamos a argumentar sobre certas questes teolgicas cujo interesse nos cativa h muito tempo; ficaria encantado se soubesse a vossa opinio.
- A opinio de um homem de espada carece em absoluto de peso - respondeu d'Artagnan, que comeava a inquietar-se com a feio que as coisas tomavam -, e podeis a 
tal respeito confiar, creio eu, na cincia destes senhores.
Os dois homens inclinaram-se novamente.
- Pelo contrrio, a vossa opinio ser-nos- preciosa - insistiu Aramis. - Eis do que se trata: O Sr. Principal acha que a minha tese deve ser sobretudo dogmtica 
e didctica.
- A vossa tese! Estais a fazer uma tese?
- Sem dvida - respondeu o jesuta. - No exame que precede a ordenao  indispensvel uma tese.
- A ordenao! - exclamou D'Artagnan, que no podia acreditar no que lhe tinham dito sucessivamente a estalajadeira e Bazin. - A ordenao!
E passeava os olhos estupefactos pelas trs personagens que tinha
diante de si.
- Ora - continuou Aramis, tomando no seu cadeiro a mesma atitude graciosa que tomaria se estivesse numa reunio literria e examinando com prazer a sua mo branca 
e rechonchuda como a mo de uma mulher, que mantinha no ar para fazer descer o sangue -, ora, como ouvistes, d'Artagnan, O Sr. Principal desejaria que a minha tese 
fosse dogmtica, enquanto eu gostaria que fosse ideal. Dai portanto o motivo por que o Sr. Principal me propunha este tema, que ainda no foi tratado, e no qual 
reconheo haver matria para magnficos desenvolvimentos: Utraque manus in benedicendo clericis inferioribus necessria est.
D'Artagnan, cuja erudio conhecemos, no pestanejou mais ao ouvir esta citao do que pestanejara ao ouvir a que lhe fizera o Sr. de Trville a propsito dos presentes 
que julgava que d'Artagnan recebera do Sr. de Buckingham.
- O que quer dizer - acrescentou Aramis, para lhe dar todas as facilidades: "As duas mos so indispensveis aos clrigos das ordens inferiores para darem a bno."
- Admirvel tema! - exclamou o jesuta.

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- Admirvel e dogmtico! - repetiu o proco, que sendo mais ou menos to forte em latim como d'Artagnan vigiava cuidadosamente o jesuta para acertar o passo pelo 
dele e repetir as suas palavras como um eco.
Quanto a d'Artagnan, ficou perfeitamente indiferente ao entusiasmo dos dois homens vestidos de negro.
- Sim, admirvel! Prorsus admirabile! - continuou Aramis. - Mas que exige um estudo aprofundado dos doutores da Igreja e das Escrituras. Ora, confessei a estes sbios 
eclesisticos, com toda a humildade, que as sentinelas nos postos de guarda e o servio do rei me tinham obrigado a descurar um pouco o estudo. Encontrar-me-ei portanto 
mais  vontade, faciltus natans, num tema  minha escolha, que seria para essas difceis questes teolgicas o que a moral  para a metafsica em filosofia.
D'Artagnan aborrecia-se profundamente e o proco tambm.
- Vede que exrdio! - exclamou o jesuta.
- Exordium - repetiu o proco para dizer qualquer coisa.
- Quemadmodum inter coelorum immensitatem.
Aramis deitou uma olhadela a d'Artagnan e viu que bocejava a ponto de quase deslocar os maxilares.
- Falemos em francs, meu padre - disse ao jesuta. - O Sr. d'Artagnan apreciar mais vivamente as nossas palavras.
- Sim, estou cansado da viagem e todo esse latim me escapa - declarou d'Artagnan.
- De acordo - respondeu o jesuta um pouco despeitado, enquanto o proco, felicssimo, deitava a d'Artagnan um olhar cheio de reconhecimento. - Bom, vede o partido 
que se tiraria da glosa.
- Moiss, servo de Deus... Ele  apenas servo de Deus, no vos esqueais! Pois Moiss abenoa com as mos; faz com que lhe segurem nos dois braos enquanto os Hebreus 
batem os seus inimigos; portanto, abenoa com as duas mos. Alis, como diz o Evangelho: imponite ma-nus, e no manun. Imponde as mos, e no a mo.
- Imponde as mos - repetiu o proco, fazendo um gesto.
- Com So Pedro, de quem os papas so sucessores, d-se o contrrio - continuou o jesuta. - Porrge dgitos. Apresentai os dedos. Percebestes agora?
- Sem dvida - respondeu Aramis, encantado. - Mas a coisa  subtil
- Os dedos! - insiste o jesuta. - So Pedro abenoa com os dedos. O papa abenoa portanto tambm com os dedos. E abenoa com quantos dedos? Com trs, um pelo Pai, 
um pelo Filho e um pelo Esprito Santo.
Toda a gente se persigna; d'Artagnan cr dever imitar o exemplo.
- O papa  sucessor de So Pedro e representa os trs poderes divinos; o resto, ordines inferiores da hierarquia eclesistica, abenoa em nome dos santos arcanjos 
e dos anjos.

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Os clrigos mais humildes, como os nossos diconos e sacristos, abenoam com os hissopes, que simulam um nmero indefinido de dedos abenoando. Eis o tema simplificado, 
argumentam omni denudatum ornamento. Com isto - continuou o jesuta - escreveria dois volumes do tamanho deste.
E no seu entusiasmo batia no So Cristvo in-folio, que fazia vergar a mesa debaixo do seu peso.
D'Artagnan estremeceu.
- Claro que presto justia s excelncias dessa tese - declarou Aramis -, mas ao mesmo tempo reconheo-a esmagadora para mim. Eu escolhera este texto; dizei-me, 
caro d'Artagnan, se vos agrada: Non inuti-le est desiderium in oblatione, ou melhor ainda: um pouco de pesar no fica mal numa oferenda ao Senhor.
- Alto l! - exclamou o jesuta. - Essa tese roa a heresia. Existe uma proposio quase idntica no Augustinus, do heresiarca Jansnio, cujo livro ser mais tarde 
ou mais cedo queimado pelas mos do carrasco. Acautelai-vos, meu jovem amigo! Inclinais-vos para as falsas doutrinas, meu jovem amigo; perder-vos-eis!
- Perder-vos-eis - repetiu o proco, abanando dolorosamente a cabea.
- Tocais no famoso ponto do livre arbtrio, que  um escolho mortal. Abordais de frente as insinuaes dos plagianos e dos semiplagianos.
- Mas, meu reverendo... - comeou Aramis, um tanto atordoado com a saraivada de argumentos que lhe caa sobre a cabea.
- Como provareis - continuou o jesuta, sem lhe dar tempo de falar -, que se deve ter saudades do mundo quando se oferece a Deus? Escutai este dilema: Deus  Deus 
e o mundo  o Diabo. Ter saudades do mundo  ter saudades do Diabo; aqui tendes a minha concluso.
- Que  tambm a minha - declarou o proco.
- Mas por favor!... - protestou Aramis.
- Desideras diabolum, infortunado! - exclamou o jesuta.
- Tem pena do Diabo! Ah, meu jovem amigo - acrescentou o proco, gemendo -, no tenhais pena do Diabo, sou eu quem vo-lo suplica!
D'Artagnan julgava enlouquecer; tinha a sensao de se encontrar num manicmio e de ir enlouquecer como aqueles que via. Contudo, era obrigado a calar-se por no 
compreender patavina da lngua que se falava na sua presena.
- Mas escutai-me, peo-vos - insistiu Aramis com uma delicadeza sob a qual comeava a transparecer um pouco de impacincia. - No digo que lamento; no, nunca pronunciarei 
essa palavra, que no seria ortodoxa...
O jesuta ergueu os braos ao cu e o proco fez o mesmo.
- No, mas admiti ao menos que se tem o mau gosto de s oferecer ao Senhor aquilo de que est absolutamente farto. No tenho razo, d'Artagnan?
- Por Deus, acho que sim! - exclamou o interpelado. O proco e o jesuta deram um pulo na cadeira.

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- O meu ponto de partida  um silogismo: o mundo no tem falta de atractivos; eu deixo o mundo; logo, fao um sacrifcio. Ora a Escritura diz positivamente: "Fazei 
um sacrifcio ao Senhor."
- L isso  verdade - admitiram os seus antagonistas.
- E depois - continuou Aramis, beliscando uma orelha para a tornar rosada, tal como sacudia as mos para as tornar brancas -, e depois compus certo rondo a tal respeito, 
de que dei conhecimento ao Sr. Voiture, o ano passado, e acerca do qual esse grande homem me dirigiu efusivos cumprimentos.
- Um rondo! - exclamou desdenhosamente o jesuta.
- Um rondo! - exclamou maquinalmente o proco.
- Dizei-o, dizei-o! - pediu d'Artagnan. - Sempre desanuviar um bocadinho o ambiente.
- No, porque  religioso - respondeu Aramis. - Trata-se de teologia em verso.
- Diabo! - exclamou d'Artagnan.
- A vai - condescendeu Aramis com um arzinho modesto no isento de alguns laivos de hipocrisia:



Vs que chorais um passado cheio de encantos,
E que arrastais dias infortunados,
Vereis todos os vossos infortnios terminados
Quando apenas a Deus oferecerdes as vossas lgrimas,
Vs que chorais.


D'Artagnan e o proco pareceram deleitados, mas o jesuita persistiu na sua opinio.
- Acautelai-vos do gosto profano no estilo teolgico. Que diz Santo Agostinho? Severus sit clericorum sermo.
- Sim, que o sermo seja claro! - traduziu o proco.
- Ora - apressou-se a interromper o jesuta ao ver que o seu aclito saa do bom caminho -, ora a vossa tese agradar s damas, e mais nada; ter o xito de uma 
argumentao jurdica do Dr. Patru.
- Deus queira! - exclamou Aramis, enlevado.
- Como vedes, o mundo fala ainda em vs em voz alta, em altssima voce - replicou o jesuita. - Seguis o mundo, meu jovem amigo, e receio que a graa no seja eficaz.
- Tranquilizai-vos, meu reverendo, respondo por mim.
- Presuno mundana!
- Conheo-me, meu padre; a minha resoluo  irrevogvel.
- E obstinais-vos a continuar com essa tese?
- Sinto-me chamado a tratar deste tema e no doutro; vou portanto continuar e espero que amanh fiqueis satisfeito com as correces que farei de acordo com a vossa 
opinio.
- Trabalhai devagar - aconselhou o proco. - Deixamo-vos com excelentes disposies.

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- Sim, o terreno est todo semeado - disse o jesuta - e no temos de recear que parte da semente tenha cado na pedra, outra ao longo do caminho, e que as aves 
do cu tenham comido o resto: aves coeli come-
tjerunt illam.
- Que a peste te leve com o teu latim! - resmungou d'Artagnan,
que j no podia mais.
- Adeus, meu filho - disse o proco. - At amanh.
- At amanh, jovem temerrio - disse o jesuta. - Prometeis ser um dos luminares da Igreja. Queira Deus que essa luz no seja um fogo
devorador!
D'Artagnan, que durante uma hora roera as unhas de impacincia
comeava a atacar a carne.
Os dois homens vestidos de negro levantaram-se, cumprimentaram Aramis e d'Artagnan e dirigiram-se para a porta. Bazin, que se mantivera de p e escutara toda a controvrsia 
com piedoso jbilo, correu para eles, pegou no brevirio do proco e no missal do jesuta e seguiu respeitosamente adiante deles para lhes indicar o caminho.
Aramis acompanhou-os at ao fundo da escada e subiu imediatamente ao encontro de d'Artagnan, que ainda no estava em si.
Quando ficaram ss os dois amigos guardaram de incio um silncio embaraado; no entanto, era mister que um deles fosse o primeiro a romp-lo e como d'Artagnan parecia 
decidido a deixar essa honra ao amigo este tomou a palavra:
- Como vedes - disse Aramis -, encontrais-me regressado s minhas ideias fundamentais.
- Sim, a graa eficaz tocou-vos, como dizia h pouco aquele cavalheiro.
- Oh, estes planos de retirada esto formados h muito tempo, e j
me ouvistes falar deles, no  verdade?
- Sem dvida, mas confesso que julguei que gracejveis.
- Com esta espcie de coisas?... Oh, d'Artagnan!
- Com a breca, h quem brinque com a morte!
- Mas faz mal, d'Artagnan; porque a morte  a porta que conduz  perdio ou  salvao.
- De acordo. Mas se no vos importais, deixemo-nos de teologizar, Aramis; j deveis ter o bastante para o resto do dia, e quanto a mim quase esqueci o pouco latim 
que nunca soube. Por ltimo, confesso-vos que no como nada desde as dez horas da manh e que tenho uma fome de todos os diabos.
- Jantaremos daqui a pouco, caro amigo; mas no vos esqueais que hoje  sexta-feira e que neste dia no posso nem ver nem comer carne. Se quiserdes contentar-vos 
com o meu jantar, compe-se de tetrgonos cozidos e fruta.
- Que entendeis por tetrgonos? - perguntou d'Artagnan com inquietao.

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- Espinafres - respondeu Aramis -, mas para vs acrescentarei ovos, o que j  uma grave infraco  regra, porque os ovos so carne uma vez que  deles que nascem 
os pintos.
- O festim no  muito suculento, mas no importa; para ficar convosco resignar-me-ei.
- Agradeo-vos o sacrifcio - disse Aramis. - Mas se no aproveita ao vosso corpo, aproveitar, podeis estar certo disso,  vossa alma.
- Assim, decididamente, Aramis, entrais na religio. Que vo dizer os nossos amigos, que vai dizer o Sr. de Trville? Considerar-vos-o desertor, j vos previno.
- No entro na religio, reentro. Foi da Igreja que desertei para o mundo, pois bem sabeis que vesti constrangido a farda de mosqueteiro.
- No sei nada.
- Ignorais como deixei o seminrio?
- Completamente.
- Ento, aqui tendes a minha histria. Alis, as Escrituras dizem: "Confessai-vos uns aos outros", e eu confesso-me a vs, d'Artagnan.
- E eu dou-vos antecipadamente a absolvio. Como vedes, sou bom homem...
- No brinqueis com as coisas santas, meu amigo.
- Ento, falai; estou pronto a escutar-vos.
- Estava pois no seminrio desde os nove anos, fazia vinte dali a trs dias, ia ser abade e estava tudo dito. Uma noite, quando me encontrava, como de costume, numa 
casa que frequentava com prazer (que quereis, quando somos novos somos fracos!), um oficial que no me via com bons olhos ler As Vidas dos Santos  dona da casa, 
entrou de sbito sem ser anunciado. Precisamente naquela noite eu traduzira um episdio de Judith e acabava de recitar os meus versos  dama, que me dirigia toda 
a espcie de cumprimentos e, debruada sobre o meu ombro, os relia comigo. A sua atitude que era um bocadinho abandonada, confesso, desagradou ao oficial. Ele no 
disse nada, mas quando sai, saiu atrs de mim e interpelou-me:
"- Sr. Abade, gostais de bengaladas?
"- No vo-lo posso dizer, porque nunca ningum ousou dar-mas - respondi
"- Nesse caso, escutai, Sr. Abade: se voltardes  casa onde vos encontrei esta noite, ousarei eu.
"Creio que tive medo, empalideci muito, senti as pernas faltarem-me, procurei uma resposta que no encontrei e calei-me.
"O oficial esperava essa resposta, e vendo que ela tardava desatou a rir, virou-me as costas e reentrou na casa. Eu regressei ao seminrio.
"Sou bom gentl-homem e tenho o sangue vivo, como j tivestes ensejo de verificar, meu caro d'Artagnan. O insulto era terrvel e por muito ignorado que fosse do 
mundo sentia-o viver e agitar-se no fundo do meu corao. Declarei aos meus superiores que no me sentia suficientemente preparado para a ordenao e, a meu pedido, 
adiou-se a cerimnia por um ano.

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"Descobri o melhor mestre de armas de Paris, contratei com ele uma lio de esgrima por dia, e todos os dias, durante um ano, tomei essa lio. Depois, no dia do 
aniversrio daquele em que fora insultado, pendurei a sotaina num prego, vesti um fato completo de cavalheiro e fui a um baile que dava uma senhora minha amiga e 
onde sabia que encontraria o meu homem. Era na Rua dos Francs-Bourgeois, muito perto da Force.
"Com efeito, o meu oficial estava l. Aproximei-me dele quando cantava um lai de amor olhando ternamente para uma mulher e interrompi-o no melhor da segunda copla.
"- Senhor - disse-lhe -, continua a desagradar-vos que volte a certa casa da Rua Payenne e ainda me dareis bengaladas se me apetecer desobedecer-vos?
"O oficial olhou-me com espanto e depois disse:
"- Que me quereis, senhor? No vos conheo.
"- Sou - respondi-lhe - o abadezinho que l As Vidas dos Santos e traduz Judith em verso.
"- Ah, ah, j me recordo! - exclamou o oficial, zombando. - Que me quereis?
"- Gostaria que vos dsseis ao incmodo de vir dar uma voltinha comigo...
"- Amanh de manh, se quiserdes, e com o maior prazer.
"- No, amanh de manh, no; se no vos importais, imediatamente.
"-Se o exigis com muito empenho...
"-Sim, exijo-o.
"- Ento, saiamos. Minhas senhoras - disse o oficial -, no vos incomodeis.  s o tempo de matar este senhor e volto para vos acabar a ltima copla.
"Samos.
"Levei-o para a Rua Payenne, precisamente para o stio onde um ano antes, hora por hora, ele me dirigira o cumprimento que vos referi. Estava um luar soberbo. Desembainhmos 
as espadas e ao primeiro bote mandei-o desta para melhor."
- Diabo! - exclamou d'Artagnan.
- Ora - continuou Aramis -, como as damas no viram regressar o seu cantor e o encontraram na Rua Payenne com uma boa estocada a trespassar-lhe o corpo, pensaram 
que fora eu quem o pusera naquele estado e a coisa causou escndalo. Fui portanto obrigado a renunciar  sotaina durante algum tempo. Athos, que conheci nessa altura, 
e Porthos, que me ensinara, fora das minhas lies de esgrima, alguns botes secretos, decidiram-me a pedir uma farda de mosqueteiro. O rei fora muito amigo do meu 
pai, morto no cerco de Arras, e concedeu-me essa farda. Deveis compreender portanto que hoje chegou para mim o momento de voltar ao seio da Igreja.

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- E porqu hoje em vez de ontem ou de amanh? Que vos aconteceu hoje que vos inspirou to desagradveis ideias?
- Este ferimento, meu caro d'Artagnan, foi para mim um aviso ao Cu.
- Esse ferimento? - Ora, est quase curado e estou certo de que no  ele que mais vos faz sofrer!
- Que , ento? - perguntou Aramis, corando.
- A ferida que tendes no corao, Aramis, mais viva e sangrenta, uma ferida feita por uma mulher.
Os olhos de Aramis cintilaram, malgrado seu.
- No faleis dessas coisas - redarguiu, dissimulando a emoo sob uma negligncia fingida. - Eu preocupo-me com isso! Ter desgostos de amor!... Vanitas vanitatum! 
Portanto, na vossa opinio, eu teria perdido a cabea, e por quem? Por alguma costureirinha, por alguma criada de quarto, a quem teria cortejado numa guarnio? 
Safa!
- Perdo, meu caro Aramis, mas julgava que tnheis vistas mais altas.
- Vistas mais altas?... E quem sou eu para ser to ambicioso? Um pobre mosqueteiro sem eira nem beira e obscuro, que detesta as servides e se encontra grandemente 
deslocado no mundo!
- Aramis, Aramis! - exclamou d'Artagnan, olhando para o amigo com ar de dvida.
- P, regresso ao p. A vida est cheia de humilhaes e dores - continuou cada vez mais triste. - Todos os fios que a ligam  felicidade se quebram um a um na mo 
do homem, sobretudo os fios de ouro. Meu caro d'Artagnan - prosseguiu Aramis, dando  voz um leve matiz de amargura -, acreditai nisto que vos digo: ocultai bem 
as vossas feridas quando as tiverdes. O silncio  a derradeira alegria dos infelizes; guardai-vos de pr quem quer que seja na pista dos vossos sofrimentos: os 
curiosos sugam as nossas lgrimas como as moscas o sangue de um gamo ferido.
- Por Deus, meu caro Aramis, acabais de descrever a minha prpria histria! - exclamou d'Artagnan, soltando por seu turno um profundo suspiro.
- Como?...
- Sim, uma mulher que amava, que adorava, acaba de me ser arrebatada  fora. No sei onde est, para onde a levaram; talvez esteja presa, talvez esteja morta...
- Mas tendes ao menos a consolao de dizer para convosco que no vos deixou voluntariamente; que se no tendes notcias suas  porque toda a comunicao convosco 
lhe est vedada, enquanto...
- Enquanto...
- Nada - respondeu Aramis -, nada.
- Portanto, renunciais para sempre ao mundo. Trata-se de uma deciso definitiva, inabalvel?
- Absolutamente definitiva. Hoje, sois meu amigo; amanh, no sereis para mim mais do que uma sombra. Ou antes,

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no existireis. Quanto ao mundo, no passa de um sepulcro.
- Diabo, o que me acabais de dizer  muito triste!
- Que quereis, a minha vocao atrai-me, arrebata-me... D'Artagnan sorriu e no respondeu. Aramis continuou:
- Mas entretanto, enquanto ainda estou preso  terra, gostaria de vos falar de vs, dos vossos amigos.
- E eu - redarguiu d'Artagnan - gostaria de vos falar de vs mesmo, mas vejo-vos to desprendido de tudo... Os amores merecem-vos apenas desdm, os amigos so sombras, 
o mundo  um sepulcro.
- Verific-lo-eis por vs prprio - declarou Aramis, com um suspiro.
- Bom, em vista do que dizeis o melhor  no falarmos mais disso e queimarmos esta carta que, sem dvida vos anuncia alguma nova infidelidade da vossa costureirinha 
ou da vossa criada de quarto... - disse d'Artagnan.
- Qual carta? - perguntou vivamente Aramis.
- Uma carta que chegou a vossa casa na vossa ausncia e que me entregaram para vo-la trazer.
- Mas de quem  a carta?
- De alguma criada lacrimosa ou de alguma costureirinha desesperada... Talvez seja da criada de quarto da Sr.a de Chevreuse, obrigada a regressar a Tours com a ama, 
e que para se tornar atraente se serviu de papel perfumado e lacrou a sua carta com uma coroa de duquesa...
- Que dizeis?...
- Olha, querem ver que a perdi?... - disse maliciosamente o jovem, fingindo procur-la. - Felizmente que o mundo  um sepulcro, que os homens e por consequncia 
as mulheres so sombras e que o amor  um sentimento para que vos estais nas tintas!
- Ah, d'Artagnan, d'Artagnan! - exclamou Aramis. - Tu matas-
-me!
- Enfim, aqui est! - anunciou d'Artagnan. E tirou a carta da algibeira.
Aramis deu um salto, pegou na carta e leu-a, ou antes, devorou-a; o seu rosto resplandecia.
- Parece que a criada tem um belo estilo - observou negligentemente o mensageiro.
- Obrigado, d'Artagnan! - exclamou Aramis quase em delrio. - Foi obrigada a regressar a Tours, no me  infiel, continua a amar-me. Anda c, meu amigo, anda, deixa-me 
abraar-te. A felicidade sufoca-me!
E os dois amigos puseram-se a danar  roda do venervel So Crisstomo, calcando sem cerimnia as folhas da tese que tinham cado para o
cho.
Neste momento entrou Bazin com os espinafres e a omeleta.
- Foge, desgraado! - gritou Aramis, atirando-lhe o solidu  cara.

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- Volta pelo mesmo caminho e leva esses horrveis legumes e essa detestvel omeleta! Pede uma lebre recheada, um capo gordo, uma perna de cabrito assada e quatro 
garrafas de borgonha velho.
Bazin, que olhava o amo e no compreendia nada daquela mudana,
deixou cair melancolicamente a omeleta nos espinafres e os espinafres no cho.
- Chegou o momento de consagrardes a vossa existncia ao Rei dos Reis - disse d'Artagnan -, se quereis fazer-lhe uma gentileza: Non inutle desiderium in oblatione.
- Ide para o Diabo com o vosso latim! Meu caro d'Artagnan, bebamos, com a breca, bebamos muito, e contai-me um pouco do que se tem passado em Paris.

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        XXVII - A MULHER DE ATHOS


        - Agora s falta saber notcias de Athos - disse d'Artagnan ao fogoso Aramis, depois de o pr ao corrente do que se passara na capital desde a sua partida 
e de um excelente jantar os ter feito esquecer a um a sua tese a outro a sua fadiga.
- Parece-vos que lhe ter acontecido algum contratempo? - perguntou Aramis. - Athos  to frio, to bravo e maneja to habilmente a espada.
- Sim, sem dvida, e ningum conhece melhor do que eu a coragem e a percia de Athos, mas prefiro cruzar a minha espada com lanas em vez de com paus. Temo que Athos 
tenha sido espancado pela criadagem; os criados so gente que bate forte e no desiste s primeiras.  por isso, confesso-vos, que gostaria de voltar a partir o 
mais depressa possvel.
- Procurarei acompanhar-vos - disse Aramis -, embora me no sinta muito em estado de montar a cavalo. Ontem experimentei a disciplina que vedes naquela parede e 
a dor impediu-me de continuar to piedoso exerccio.
- Tambm, meu caro amigo, nunca vi tentar curar um tiro de escopeta com um martinete. Mas vs estais doente e a doena torna a cabea fraca, o que me leva a dispensar-vos.
- Quando partis?
- Amanh ao amanhecer. Descansai o melhor que puderdes esta noite e amanh, se apesar de tudo estiverdes em condies de viajar, partiremos juntos.
- At amanh, portanto - disse Aramis. - Porque por muito de ferro que sejais deveis necessitar de repouso.

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No dia seguinte, quando d'Artagnan entrou no quarto de Aramis encontrou-o  janela.
- Que estais a ver da? - perguntou-lhe d'Artagnan.
- Admito os trs magnficos cavalos que os moos de estrebaria seguram pelas rdeas; deve ser um prazer de prncipe viajar em semelhantes montadas.
- Pois meu caro Aramis tereis esse prazer, porque um desses cavalos pertence-vos.
- Sim?... E qual?
- Dos trs o que preferirdes; no tenho preferncia.
- E a rica gualdrapa que o cobre tambm  minha?
- Sem dvida.
- Estais a brincar, d'Artagnan.
- No brinco desde que falais francs.
- So para mim aquelas bolsas de sela douradas, aquela cobertura de veludo e aquela sela pregueada a prata?
- Exactamente, assim como o cavalo que piafa  meu e o que caracola  de Athos.
- Apre, so trs animais soberbos.
- Ainda bem que gostais.
- Foi o rei quem vo-lo ofereceu?
- O cardeal no foi, com certeza. Mas no vos preocupeis com a sua origem e pensai apenas que um dos trs vos pertence.
- Fico com aquele que segura o criado ruivo.
- ptimo!
- Viva Deus, a est uma coisa que at me faz passar o resto da minha dor! - exclamou Aramis. - Montaria aquele bicho nem que tivesse trinta balas no corpo. Pela 
minha salvao, como  bom cavalgar! Ol, Bazin, vinde c imediatamente!
Bazin apareceu, triste e arrastando os ps, no limiar da porta.
- Bruni a minha espada, endireitai o meu chapu, escovai a minha capa e carregai as minhas pistolas! - ordenou Aramis.
- Essa ltima recomendao  intil - interveio d'Artagnan. - H pistolas carregadas nos vossos coldres.
Bazin suspirou.
- Vamos, mestre Bazin, sossegai - procurou anim-lo d'Artagnan. - Ganha-se o reino dos cus em todas as condies.
- O senhor estava j to bom telogo! - observou Bazin, quase a chorar. - Seria bispo e talvez cardeal.
- Ento, meu pobre Bazin, vamos, reflecte um pouco; de que serve ser homem de Igreja, no me dizeis? Nem por isso se evita ir  guerra. Bem vs que o cardeal vai 
fazer a primeira campanha com o pote na cabea e a partazana na mo; e o Sr. de Nogaret de La Valette, no  tambm cardeal? Pergunta ao seu criado quantos pensos 
j lhe fez.
- Infelizmente assim , senhor - suspirou Bazin. - Hoje est tudo virado do avesso neste mundo.

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Entretanto, os dois jovens e o pobre lacaio desceram.
- Segura-me no estribo, Bazin - disse Aramis.
E Aramis saltou para a sela com a sua graa e ligeireza habituais; mas depois de algumas voltas e curvetes do nobre animal o seu cavaleiro sentiu dores de tal modo 
insuportveis que empalideceu e cambaleou. D'Artagnan, que na previso desse acidente o no perdera de vista, correu para ele, tomou-o nos braos e levou-o para 
o quarto.
- Pronto, meu caro Aramis, tratai-vos que eu vou sozinho  procura de Athos.
- Sois um homem de bronze - disse-lhe Aramis.
- No, tenho apenas sorte. Mas como ides passar o tempo enquanto me esperais? Nada de tese, nada de glosa sobre os dedos e as bnos, hem?...
Aramis sorriu.
- Farei versos - declarou.
- Sim, versos perfumados como o bilhete da criada da Sr.a de Chevreuse. Ensinai tambm a prosdia a Bazin, para o animar. Quanto ao cavalo, montai-o todos os dias 
um pouco, para vos habituardes s manobras.
- Oh, quanto a isso ide tranquilo! - declarou Aramis. - Encontrar-me-eis pronto a acompanhar-vos.
Despediram-se e dez minutos depois d'Artagnan, aps ter recomendado o amigo a Bazin e  estalajadeira, trotava na direco de Amiens.
Como encontraria Athos, se  que o encontraria?
A situao em que o deixara era crtica; podia muito bem ter sucumbido. Esta ideia assombrou-lhe a fronte, arrancou-lhe alguns suspiros e f-lo formular em voz baixa 
alguns juramentos de vingana. De todos os seus amigos, Athos era o mais velho e portanto aparentemente o menos prximo dos seus gostos e das suas simpatias.
Contudo, tinha por aquele gentil-homem uma preferncia acentuada. O ar nobre e distinto de Athos, os clares de grandeza que brotavam de vez em quando da sombra 
onde se acolhera voluntariamente, o seu humor sempre inalteravelmente igual que o tornavam o mais fcil companheiro do mundo, a sua boa disposio forada e mordaz, 
a sua bravura que dir-se-ia cega se no se devesse ao mais raro sangue-frio - tantas qualidades atraam mais do que a estima, mais do que a amizade de d'Artagnan; 
atraam a sua admirao.
Com efeito, considerado mesmo em relao ao Sr. de Trville, o elegante e nobre corteso, Athos, nos seus dias de bom humor, podia sustentar vantajosamente o confronto. 
Era de estatura mediana, mas to admiravelmente vigorosa e to bem proporcionada que por mais de uma vez, nas suas lutas com Porthos, fizera vergar o gigante cuja 
fora fsica se tornara proverbial entre os mosqueteiros. A sua cabea, os seus olhos penetrantes, nariz direito e queixo saliente como o de Bruto, possua algo 
indefinvel de grandeza e graa; as suas mos, com as quais no se preocupava, eram o desespero de Aramis,

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que cuidava das suas com reiteradas aplicaes de creme de amndoas e de leo perfumado; o som da sua voz era penetrante e ao mesmo tempo melodioso, e depois, o 
que havia de indefinvel em Athos, que se fazia sempre obscuro e pequeno, era essa cincia do mundo e dos usos da mais brilhante sociedade, esse hbito de boa casa 
que transparecia sem ele querer nos seus mais pequenos actos.
Se se tratava de um banquete, Athos organizava-o melhor do que qualquer outro homem e colocava cada conviva no lugar e na categoria que lhe tinham legado os seus 
antepassados ou que ele prprio conquistara. Se se tratava de cincia herldica, Athos conhecia todas as famlias nobres do reino, a sua genealogia, as suas alianas, 
as suas armas e a origem dessas armas. A etiqueta no tinha mincias que lhe fossem estranhas; sabia quais eram os direitos dos grandes proprietrios, conhecia a 
fundo a montaria e a falconaria, e um dia, conversando dessa grande arte, espantara o rei Lus XIII, que no entanto era considerado um mestre na especialidade.
Como todos os grandes senhores da poca, montava a cavalo e manejava as armas na perfeio. Mais, a sua educao fora to pouco descurada, mesmo em relao aos estudos 
escolsticos, to raros nessa poca entre os gentis-homens, que sorria ao ouvir os fragmentos de latim empregados por Aramis e que Porthos fingia compreender. Duas 
ou trs vezes at, com grande espanto dos amigos, acontecera-lhe, quando Aramis deixava escapar algum erro rudimentar, colocar um verbo no seu tempo e um substantivo 
no seu caso. Alm disso, a sua probidade era inatacvel num sculo em que os militares transigiam to facilmente com a sua religio e a sua conscincia, os amantes 
com a delicadeza rigorosa dos nossos dias e os pobres com o stimo mandamento de Deus. Athos era portanto um homem deveras extraordinrio.
E no entanto via-se aquela natureza to distinta, aquela criatura to bela, aquela essncia to fina pender insensivelmente para a vida material como os velhos pendem 
para a imbecilidade fsica e moral Nas suas horas de privao, e essas horas eram frequentes, extinguia-se em Athos toda a sua parte luminosa, e o seu lado brilhante 
desaparecia como numa noite profunda.
Ento, eclipsado o semideus, ficava apenas um homem. De cabea baixa, olhos no cho, a palavra difcil e penosa, Athos olhava durante longas horas quer a garrafa 
e o copo, quer Grimaud, que habituado a obedecer-lhe por sinais lia no olhar tono do amo at o mais pequeno desejo, que satisfazia imediatamente. A reunio dos 
quatro amigos verificara-se num desses momentos; uma palavra pronunciada com violento esforo era todo o contingente que Athos fornecia  conversao. Em contrapartida, 
s ele, Athos, bebia por quatro, e isso sem que se notasse a no ser por um franzir de sobrolho mais pronunciado e por uma tristeza mais profunda.
D'Artagnan, de quem conhecemos o esprito investigador e penetrante, ainda no conseguira descobrir, fosse qual fosse o interesse que tivesse em satisfazer a sua 
curiosidade,

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a causa daquele marasmo, nem notar-lhe as coincidncias. Athos nunca recebia cartas; Athos nunca dava um passo que no fosse conhecido de todos os seus amigos.
No se podia dizer que fosse o vinho que lhe dava aquela tristeza; pois pelo contrrio s bebia para combater essa tristeza, e tal remdio, como dissemos, tornava-o 
ainda mais sombrio. No se podia atribuir ao jogo aquele excesso de humor negro, porque, ao contrrio de Porthos, que acompanhava com os seus cantos ou com as suas 
pragas todas as variaes da sorte, Athos, quando ganhava, ficava to impassvel como quando perdia. No crculo dos mosqueteiros tinham-no visto ganhar uma noite 
trs mil pistolas e perd-las juntamente com o cinturo bordado a ouro dos dias de gala; voltar a ganhar tudo isso mais cem luses e tal acontecer sem que as suas 
belas sobrancelhas negras subissem ou descessem meia linha, sem que as suas mos perdessem a sua tonalidade nacarada, sem que a sua conversao, agradvel naquela 
noite, deixasse de ser calma e agradvel.
Tambm no era, como acontecia com os nossos vizinhos ingleses, uma influncia atmosfrica que lhe nublava o rosto, pois a sua tristeza tornava-se mais intensa, 
geralmente, nas proximidades dos dias bonitos do ano. Junho e Julho eram os meses terrveis de Athos.
No presente nenhum desgosto o afligia e encolhia os ombros quando lhe falavam do futuro; o seu segredo pertencia portanto ao passado, como tinham dito vagamente 
a d'Artagnan.
Aquele vu de mistrio que envolvia toda a sua pessoa tornava ainda mais interessante o homem de que nunca quer os olhos, quer a boca, mesmo no estado de embriaguez 
mais completo, tinham revelado fosse o que fosse a seu respeito, nem sequer quando habilmente interrogado.
- A verdade - dizia d'Artagnan -  que o pobre Athos talvez esteja morto a esta hora, e morto por minha culpa, pois fui eu que o meti naquela alhada, de que ignorava 
a origem, de que ignorara o resultado e de que no devia tirar nenhum proveito.
- Sem contar, senhor - lembrou Planchet -, que lhe devemos provavelmente a vida. Lembrai-vos como gritou: "Foge, d'Artagnan! Apanharam-me!" E depois de descarregar 
as suas pistolas, que barulho terrvel fazia com a espada! Dir-se-ia serem vinte homens, ou antes, vinte demnios enraivecidos!
Estas palavras redobravam o ardor de d'Artagnan, que incitava o cavalo, o qual, sem necessidade de ser incitado, levava o seu cavaleiro a galope.
Por volta das onze horas da manh avistaram Amiens, e s onze e meia estavam  porta da estalagem maldita.
D'Artagnan imaginara muitas vezes contra o prfido estalajadeiro uma dessas boas vinganas que consolam, ainda que s em mente. Entrou portanto na estalagem com 
o chapu puxado para os olhos e a mo esquerda no boto do punho da espada, ao mesmo tempo que com a mo direita fazia silvar o chicote.

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- Reconheces-me? - perguntou ao estalajadeiro, que se adiantava para o cumprimentar.
- No tenho essa honra, monsenhor - respondeu o interpelado, ainda deslumbrado com o brilho da equipagem com que d'Artagnan se apresentava.
- Com que ento no me reconheceis?...
- No, monsenhor.
- Pois bem, duas palavras para vos espevitarem a memria: que  feito do gentil-homem a quem tiveste a audcia, h quinze dias pouco mais ou menos, de acusar de 
moedeiro falso?
O estalajadeiro empalideceu, porque d'Artagnan tomara uma atitude mais ameaadora, e Planchet seguia as pisadas do amo.
- Ah, monsenhor, nem me faleis disso! - exclamou o estalajadeiro no seu tom de voz mais lamuriento. - Meu Deus, como me saiu caro esse pecado! Como sou infeliz!
- Dignai-vos escutar-me, monsenhor, e sede clemente. Sentai-vos, por favor.
Mudo de clera e de inquietao, d'Artagnan sentou-se, ameaador como um juiz. Planchet encostou-se orgulhosamente ao seu cadeiro.
- Aqui tendes a histria, monsenhor - prosseguiu o estalajadeiro, muito trmulo. - Estou a reconhecer-vos agora: fostes vs que partistes quando tive aquele infeliz 
desaguisado com esse gentil-homem de que falais.
- Sim, sou eu. Portanto bem vedes que no tendes misericrdia a esperar se no disserdes toda a verdade.
- Dignai-vos escutar e sab-la-eis toda inteira.
- Falai.
- Fora prevenido pelas autoridades de que um moedeiro falso muito clebre chegaria  minha estalagem com vrios seus companheiros, todos disfarados de guardas ou 
de mosqueteiros. Os vossos cavalos, os vossos lacaios, a vossa cara, tudo me foi descrito.
- E depois, e depois? - atalhou d'Artagnan, que depressa adivinhou quem fornecera sinais to completos.
- Tomei portanto, de acordo com as ordens das autoridades, que me enviaram um reforo de seis homens, as medidas que julguei urgentes para deitar mo aos pretensos 
moedeiros falsos...
- Adiante! - gritou d'Artagnan, a quem a expresso "moedeiro falso" escaldava terrivelmente os ouvidos.
- Perdoai-me, monsenhor, dizer tais coisas, mas elas so precisamente a minha desculpa. As autoridades tinham-me assustado e bem sabeis que um estalajadeiro deve 
colaborar com as autoridades.
- Mais uma vez: onde est esse gentil-homem? Que lhe aconteceu? Est morto? Est vivo?
- Pacincia, monsenhor, j falta pouco. Aconteceu portanto o que sabeis, com a agravante de a vossa partida precipitada parecer autorizar as nossas suspeitas - acrescentou 
o estalajadeiro com uma subtileza que no escapou a d'Artagnan.

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- Esse gentil-homem vosso defendeu-se com desespero. O seu criado, que por uma infelicidade imprevista entrara em conflito com os agentes da autoridade disfarados 
de moos de estrebaria...
- Ah, miservel! - gritou d'Artagnan. - Estveis todos feitos e no sei que me contm que no vos extermine do primeiro ao ltimo!
- No, monsenhor, no estvamos todos feitos, como ides ver. O senhor vosso amigo (desculpai no o tratar pelo nome respeitvel que sem dvida usa, mas ignoramos 
esse nome), o senhor vosso amigo, depois de pr fora de combate dois homens com os seus dois tiros de pistola, bateu em retirada defendendo-se com a espada, com 
a qual estropiou ainda um dos meus homens e me aturdiu com uma pranchada.
- Maldito carrasco, nunca mais acabas?! - gritou d'Artagnan. - E Athos, que aconteceu a Athos.
- Batendo em retirada, como j disse a monsenhor, encontrou atrs de si a escada da adega, e como a porta estava aberta, fechou-se e barricou-se l dentro. Como 
estvamos certos de que no saria de l, deixmo-lo  vontade.
- Sim - disse d'Artagnan -, interessava-lhes mais aprision-lo do que mat-lo.
- Santo Deus! Aprision-lo, monsenhor? Ele  que se aprisionou a si mesmo, juro-vos. E depois de levar tudo adiante de si a ferro e fogo! Um homem morreu logo e 
outros dois ficaram gravemente feridos. O morto e os dois feridos foram levados pelos seus camaradas e nunca mais ouvi falar nem de uns, nem de outros. Eu prprio, 
quando recuperei os sentidos, fui procurar o Sr. Governador, a quem contei tudo o que se passara e perguntei o que devia fazer do prisioneiro. Mas o Sr. Governador 
pareceu cair das nuvens; disse-me que ignorava completamente o que eu queria dizer, que as ordens que me tinham sido dadas no emanavam dele e que se me atrevesse 
a dizer a quem quer que fosse que ele tinha qualquer coisa a ver com semelhante empresa me mandaria prender e enforcar. Parece que me enganara, senhor, que tomara 
um por outro, e que aquele que devia ser preso estava a salvo.
- Mas Athos? - tornou a gritar d'Artagnan, cuja impacincia redobrava perante o desinteresse com que as autoridades se tinham comportado. - Athos, que foi feito 
dele?
- Como tinha pressa de reparar as minhas faltas para com o prisioneiro - prosseguiu o estalajadeiro -, dirigi-me para a adega a fim de o pr em liberdade. Ah, senhor, 
j no era um homem, era um demnio! Ao ouvir a minha proposta de libertao, declarou que lhe queriam armar uma cilada e que antes de sair imporia as suas condies. 
Respondi-lhe humildemente, pois bem sabia os maus lenis em que me metera pondo a mo num mosqueteiro de Sua Majestade, que estava pronto a submeter-me s suas 
condies.
"Primeiro - disse ele, quero que me mandem o meu criado completamente armado.
"Apressmo-nos a obedecer a esta ordem; porque como compreendeis, senhor, estvamos dispostos a fazer tudo o que o vosso amigo quisesse. O Sr. Grimaud (esse disse 
o nome, embora no fale muito), o Sr. Grimaud desceu portanto  adega, apesar de estar ferido. Ento o seu amo, assim que o apanhou, voltou a barricar a porta e 
ordenou-nos que permanecssemos na loja."
- Mas afinal onde est ele? - insistiu d'Artagnan. - Onde est Athos?
- Na adega, senhor.
- Como, desgraado, retm-lo na adega h tanto tempo?!
- Valha-me a bondade divina! No, senhor. Ns retmo-lo na adega! No sabeis portanto o que ele fez na adega?... Ah, se consegusseis que ele sasse de l, senhor, 
ficar-vos-ia reconhecido toda a minha vida, adorar-vos-ia como ao meu padroeiro!
- Ento ele est l, encontr-lo-ei l?
- Sem dvida, senhor, porque teimou em l ficar. Todos os dias lhe passamos pelo respiradouro po na ponta de uma forquilha, e carne quando a pede; mas, meu Deus, 
no  po e carne o que mais me consome! Uma vez tentei descer com dois dos meus rapazes, mas teve um terrvel acesso de fria. Ouvi o rudo das suas pistolas, que 
ele armava, e do seu mosqueto, que armava o criado. Depois, quando lhe perguntmos quais eram as suas intenes, o amo respondeu que ele e o seu lacaio dispunham 
de quarenta tiros e que os disparariam at ao ltimo antes de permitirem que um s de ns pusesse os ps na adega. Ento, senhor, queixei-me ao governador, o qual 
me respondeu que eu s tinha o que merecia e que isto me ensinaria a no insultar os fidalgos respeitveis que se hospedavam em minha casa.
- De modo que desde a?... - atalhou d'Artagnan, sem poder deixar de rir da cara lastimosa do estalajadeiro.
- De modo que desde a, senhor - continuou o homenzinho -, levamos a vida mais triste que se possa imaginar; porque, senhor,  mister que saibais que todas as nossas 
provises esto na adega! Temos l o nosso vinho engarrafado e o nosso vinho a granel, a cerveja, o azeite e as especiarias, o toucinho e os salsiches... e como 
estamos proibidos de l entrar, somos forados a recusar a bebida e a comida aos viajantes que nos procuram, de maneira que todos os dias a nossa estalagem se afunda. 
Mais uma semana com o vosso amigo na adega e estamos arruinados.
- E ser bem feito, velhaco. No se via bem pelo nosso aspecto que ramos pessoas de qualidade e no falsrios, dizei?
- Sim, senhor; sim, tendes razo - concordou o estalajadeiro. - Mas tambm deveis reconhecer que j  de mais, que o vosso amigo est a abusar da situao.
- Porque decerto o incomodaram - redarguiu d'Artagnan.
- E como  que no havamos de o incomodar? - barafustou o estalajadeiro. - Acabam de nos chegar dois fidalgos ingleses!

88- 89


- E depois?
- E depois, os Ingleses gostam do bom vinho, como sabeis, senhor, e estes pediram do melhor. Ento, a minha mulher solicitou ao Sr. Athos licena para entrar na 
adega, a fim de podermos atender os cavalheiros ingleses, e ele recusou, como de costume. Ai, valha-me a bondade divina, temos outra vez sarilho!
Com efeito, d'Artagnan ouviu grande barulho para os lados da adega. Levantou-se e, precedido do estalajadeiro, que torcia as mos, e seguido de Planchet, que empunhava 
um mosqueto carregado, aproximou-se do local da cena.
Os dois fidalgos estavam exasperados; tinham feito uma longa viagem e morriam de fome e sede.
- Mas isto  uma tirania! - gritavam em excelente francs, embora com pronncia estrangeira. - No est certo que esse louco no permita a esta boa gente servir-se 
do seu vinho. Vamos arrombar a porta e se se fizer fino... matamo-lo!
- Mais devagarinho, meus senhores! - interveio d'Artagnan, tirando as pistolas do cinturo. - Por favor, no penseis em matar ningum...
- Bom, bom - dizia atrs da porta a voz calma de Athos -, deixem entrar esses mata-mouros e veremos...
Por muito valentes que parecessem ser, os dois gentis-homens ingleses entreolharam-se hesitantes; dir-se-ia haver na adega um desses papes famlicos, gigantescos 
heris das lendas populares, de quem ningum forava impunemente a caverna.
Reinou um momento de silncio; mas por fim os dois ingleses tiveram vergonha de recuar e o mais ousado desceu os cinco ou seis degraus da escada e deu um pontap 
na porta capaz de fender uma muralha.
- Planchet - disse d'Artagnan armando as pistolas -, eu encarrego-me do que est em cima, encarrega-te tu do que est em baixo. Ah, meus senhores, quereis guerra?... 
Pois ides t-la!
- Meu Deus, parece-me que estou a ouvir d'Artagnan - gritou a voz cava de Athos.
- De facto, sou eu prprio, meu amigo! - respondeu d'Artagnan, erguendo por sua vez a voz.
- Ah, bom, ento vamos dar uma lio a esses arrombadores de portas! - disse Athos.
Os gentis-homens tinham desembainhado as espadas, mas encontravam-se metidos entre dois fogos. Hesitaram ainda um instante. Mas como da primeira vez, o orgulho levou 
a melhor e um segundo pontap rachou a porta de alto a baixo.
- Afasta-te, d'Artagnan, afasta-te! - gritou Athos. - Afasta-te que vou disparar!
- Meus senhores - disse d'Artagnan, a quem a reflexo nunca abandonava -, meus senhores, pensem bem. Tem pacincia, Athos.
Metestes-vos numa alhada donde saireis crivados de balas. Deste lado, o meu criado e eu, que vos brindaremos com trs tiros; do lado da adega, a mesma coisa. Alm 
disso, teremos ainda as nossas espadas que, garanto-vos, o meu amigo e eu esgrimimos razoavelmente. Deixai-me resolver os vossos problemas e os meus; no tardar 
muito que tenhais de beber, dou-vos a minha palavra.
- Se ainda houver alguma coisa... - resmungou a voz escarninha
de Athos.
O estalajadeiro sentiu um suor frio correr-lhe ao longo da espinha.
- Como se ainda houver alguma coisa?! - murmurou.
- Que diabo, com certeza que haver! - impacientou-se d'Artagnan. - Sossegai, que os dois no devem ter bebido tudo o que havia na adega. Meus senhores, embainhai 
as vossas espadas.
- E vs metei as vossas pistolas no cinturo.
- Com muito prazer.
E d'Artagnan deu o exemplo. Depois, virou-se para Planchet e fez-lhe sinal para desarmar o mosqueto.
Convencidos, os ingleses embainharam as espadas, resmungando. Contaram-lhes a histria do aprisionamento de Athos. E como eram bons gentis-homens, no deram razo 
ao estalajadeiro.
- E agora, meus senhores - disse d'Artagnan -, subi aos vossos quartos e dentro de dez minutos providenciarei para que vos seja servido tudo o que desejardes.
Os ingleses saudaram e saram.
- Agora que estou sozinho, meu caro Athos - continuou d'Artagnan -, abri-me a porta, peo-vos.
- Imediatamente - respondeu Athos.
Ouviu-se ento um grande barulho de toros de lenha a entrechocarem-se e de vigas a rangerem: eram as contra-escarpas e os basties de Athos, que o sitiado demolia 
pessoalmente.
Pouco depois a porta abriu-se e apareceu o rosto plido de Athos, que numa rpida vista de olhos explorou as imediaes.
D'Artagnan saltou-lhe ao pescoo e abraou-o efusivamente; depois, quis tir-lo daquele ambiente hmido, mas notou que Athos cambaleava.
- Estais ferido? - perguntou-lhe.
- Eu? Nem por sombras! Estou  a cair de bbedo, e nunca nenhum homem fez tanto para isso como eu. Viva Deus, meu estalajadeiro, pois  minha parte bebi pelo menos 
cento e cinquenta garrafas!
- Misericrdia! - gritou o estalajadeiro. - Se o criado bebeu apenas metade do amo estou arruinado!
- Grimaud  um lacaio de boa casa que no se permitiria beber do mesmo vinho que eu; limitou-se a beber do casco. Mas parece-me que se esqueceu de pr o batoque... 
Ouvistes? O vinho est a correr...
D'Artagnan soltou uma gargalhada que transformou o arrepio do estalajadeiro em febre alta.

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Ao mesmo tempo, Grimaud apareceu por seu turno atrs do amo, de mosqueto ao ombro, a dar  cabea como os stiros brios dos quadros de Rubens. Estava ensopado 
por diante e por trs por um lquido espesso que o estalajadeiro reconheceu como o seu melhor azeite.
O cortejo atravessou a sala grande e foi-se instalar no melhor quarto da estalagem, que d'Artagnan ocupou  fora.
Entretanto, o estalajadeiro e a mulher precipitaram-se com lanternas na adega que lhes estivera durante tanto tempo interdita e depararam com um espectculo medonho.
Para l das fortificaes em que Athos abrira brecha para sair e que se compunham de toros de lenha, de tbuas e de barris vazios empilhados de acordo com todas 
as regras da arte estratgica, viam-se aqui e ali, nadando em mares de azeite e vinho, os ossos de todos os presuntos comidos, enquanto uma pilha de garrafas partidas 
juncava todo o canto esquerdo da adega e um tonel, cuja torneira ficara aberta, perdia por essa abertura as derradeiras gotas do seu sangue. A imagem da devastao 
e da morte, como diz o poeta da Antiguidade, reinava ali como num campo de batalha.
De cinquenta salsiches pendurados nas vigas, restavam apenas dez.
Ento os gritos do estalajadeiro e da estalajadeira atravessaram a abbada da adega, to lancinantes que o prprio d'Artagnan se comoveu. Athos nem sequer virou 
a cabea.
Mas a dor sucedeu  raiva. O estalajadeiro armou-se de um espeto e, no seu desespero, correu para o quarto onde os dois amigos se tinham recolhido.
- Vinho! - pediu Athos ao ver o estalajadeiro.
- Vinho?! - gritou o estalajadeiro, estupefacto. - Vinho! J bebestes vinho no valor de cem pistolas! Sou um homem arruinado, aniquilado, perdido!
- Que quereis, a sede no nos largava... - desculpou-se Athos.
- Se vos tivsseis limitado a beber, ainda v, mas partistes todas as garrafas.
- Empurrastes-me contra uma pilha que veio abaixo. A culpa  vossa.
- Todo o meu azeite perdido!
- O azeite  um blsamo soberano para as feridas, e o pobre Grimaud tinha de tratar das que lhe fizestes.
- Todos os meus salsiches rodos!
- H uma autntica praga de ratos naquela adega.
- Ides pagar-me tudo isso! - gritou o estalajadeiro, exasperado.
- Triplo velhaco! - redarguiu Athos, levantando-se.
Mas voltou a cair imediatamente; acabava de dar a medida das suas foras. D'Artagnan foi em seu socorro, brandindo o chicote. O estalajadeiro recuou um passo e desatou 
a chorar.

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- Isso ensinar-vos- a tratar de forma mais corts os hspedes que Deus vos envia - disse-lhe d'Artagnan.
- Deus... Dizei antes o Diabo!
- Meu caro amigo - atalhou d'Artagnan -, se continuais a moer-nos o bicho do ouvido, fechar-nos-emos todos quatro na vossa adega e veremos se realmente o estrago 
 to grande como dizeis.
- Est bem, senhores, a culpa  minha, confesso - declarou o estalajadeiro -, mas todo o pecado tem perdo. Vs sois fidalgos e eu no passo de um pobre estalajadeiro; 
espero que tenhais piedade de mim.
- Se falas assim - disse Athos -, partes-me o corao e as lgrimas acabaro por correr-me dos olhos como o vinho corria dos teus barris. No somos to diabos como 
parecemos. Aproxima-te e conversemos.
O estalajadeiro aproximou-se receoso.
- Anda, repito, e no tenhas medo - continuou Athos. - Quando te fui pagar, pousei a minha bolsa em cima da mesa.
-  verdade, monsenhor.
- Essa bolsa continha sessenta pistolas. Onde est ela?
- Depositada na secretaria do tribunal monsenhor; como diziam que o dinheiro era falso...
- Pois ento que te restituam a minha bolsa e guarda as sessenta
pistolas.
- Mas, monsenhor, bem sabeis que a justia nunca mais larga aquilo a que deita a mo. Se o dinheiro fosse falso, ainda haveria uma esperana; mas infelizmente  
verdadeiro...
- Desenrasca-te, meu bom homem; o caso j no  comigo, tanto mais que no tenho nem uma libra.
-Vejamos, onde est o antigo cavalo de Athos? - perguntou d'Artagnan.
- Na cavalaria.
- Quanto vale?
- Cinquenta pistolas, no mximo.
- Vale oitenta; ficai com ele e assunto arrumado.
- Como, tu vendes o meu cavalo, vendes o meu Bajazet? - protestou Athos. - E em que montarei na campanha? E Grimaud?
- Trouxe-te outro - informou-o d'Artagnan. -Outro?...
- E magnfico! - exclamou o estalajadeiro.
- Ento, se tenho outro mais bonito e mais novo, fica com o velho e toca a beber!
- De qual? - perguntou o estalajadeiro, completamente tranquilizado.
-Daquele que est ao fundo, ao p dos sarrafos... Ainda restam vinte e cinco garrafas, todas as outras se partiram na minha queda. Traz seis.
- Que raio de homem! - comentou o estalajadeiro para consigo.

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- Se ficasse s que fosse quinze dias c, e pagasse o que bebesse, endireitaria os meus negcios.
- E no vos esqueais - continuou d'Artagnan - de levar quatro garrafas do mesmo aos dois fidalgos ingleses.
- Agora, enquanto esperamos que nos tragam o vinho, contai-me, d'Artagnan, o que aconteceu aos outros - pediu Athos.
D'Artagnan contou-lhe como encontrara Porthos na cama com uma entorse e Aramis a uma mesa entre dois telogos. Quando estava a terminar entrou o estalajadeiro com 
as garrafas pedidas e um presunto que, felizmente para ele, ficara fora da adega.
- Bom, bebamos por Porthos e Aramis - disse Athos, enchendo o seu copo e o de d'Artagnan. - E vs, meu amigo, que tendes e que vos aconteceu pessoalmente? Acho-vos 
um ar sinistro...
- Por desgraa sou o mais infeliz de todos ns - declarou d'Artagnan.
- Tu infeliz, d'Artagnan? - admirou-se Athos. - Vejamos, infeliz como? Anda, diz-me.
- Mais tarde - respondeu d'Artagnan.
- Mais tarde?... E porqu mais tarde? Por que julgas que estou bbedo, d'Artagnan? Fixa bem isto: nunca tenho as ideias mais claras do que quando estou bbedo. Fala 
portanto, sou todo ouvidos.
D'Artagnan contou a sua aventura com a Sr.a Bonacieux. Athos escutou-o sem pestanejar; depois, quando terminou:
- Ninharias, tudo isso no passa de ninharias! - comentou Athos. Era a expresso preferida de Athos.
- Dizeis sempre ninharias, meu caro Athos - protestou d'Artagnan. - Apesar de nunca terdes amado, isso fica-vos muito mal.
O olhar de Athos incendiou-se de sbito; mas foi apenas um relmpago, pois logo se tornou mortio e vago como anteriormente.
-  verdade, nunca amei - reconheceu sem se alterar.
- Bem vedes portanto, corao de pedra - disse d'Artagnan -, que fazeis mal em ser duro para connosco, coraes ternos.
- Coraes ternos, coraes trespassados - sentenciou Athos.
- Que dizeis?
- Digo que o amor  uma lotaria em que aquele que ganha, ganha a morte! Tivestes muita sorte em perder, acreditai-me, meu caro d'Artagnan. E se tenho um conselho 
a dar-vos,  que percais sempre.
- Ela parecia amar-me tanto!...
- Parecia...
- Oh, amava-me!
- Criana! No h nenhum homem que no tenha acreditado, como vs, que a sua amante o amava, assim como no h nenhum homem que no tenha sido enganado pela amante.
- Excepto vs, Athos, que nunca a tivestes.
-  verdade - admitiu Athos, aps um momento de silncio -, nunca tive nenhuma. Bebamos!
- Mas ento, como filsofo que sois, ensinai-me, ajudai-me - pediu d'Artagnan. - Necessito de saber e de ser confortado.
- Confortado de qu?
- Da minha infelicidade.
- A vossa infelicidade d vontade de rir - redarguiu Athos, encolhendo os ombros. - Seria interessante saber que direis se vos contasse uma histria de amor.
- Que vos aconteceu?
- Ou a um dos meus amigos, que importa!
- Dizei, Athos, dizei.
- Acho melhor bebermos.
- Bebei e contai.
- Pois sim - concordou Athos, despejando e enchendo o seu copo. - De facto, ambas as coisas ficam maravilhosamente juntas.
- Sou todo ouvidos - disse d'Artagnan.
Athos concentrou-se, e  medida que se concentrava d'Artagnan via-o empalidecer; encontrava-se no perodo de embriaguez em que os bebedores vulgares caem e adormecem. 
Ele devaneava em voz alta, sem dormir. Este sonambulismo da embriaguez tinha qualquer coisa de assustador.
- Quereis absolutamente que vos conte? - perguntou.
- Suplico-vos - respondeu d'Artagnan.
- Faa-se portanto como desejais. Um dos meus amigos... um dos meus amigos, ouvi bem, e no eu - sublinhou Athos, interrompendo-se com um sorriso sombrio -, um dos 
condes da minha provncia, isto , Du Berry, nobre como um Dandolo ou um Montmorency, apaixonou-se aos vinte e cinco anos por uma rapariga de dezasseis, bela como 
os amores. Atravs da ingenuidade da sua idade despontava um esprito ardente, um esprito no de mulher, mas sim de poeta; no agradava, inebriava. Vivia numa vilazinha 
com o irmo, que era padre. Ambos tinham chegado  regio vindos ningum sabia de onde; mas ao v-la to bela e ao ver o irmo to piedoso, ningum pensava em perguntar-lhes 
donde vinham. De resto, diziam-nos de boa ascendncia. O meu amigo, que era o senhor da regio, poderia t-la seduzido ou tomado  fora, como lhe apetecesse, pois 
era o senhor; quem levantaria um dedo em defesa de dois estranhos, de dois desconhecidos? Infelizmente, ele era um homem honesto e casou com ela. O parvo, o ingnuo, 
o imbecil!
- Mas porqu tudo isso, se a amava? - perguntou d'Artagnan.
- Esperai - pediu Athos. - Levou-a para o seu palcio e fez dela a primeira dama da provncia; e deve-se-lhe prestar justia, pois desempenhava perfeitamente o seu 
papel.
- E depois? - perguntou d'Artagnan.
- Depois, um dia, quando andava a caar com o marido - continuou Athos em voz baixa e falando muito depressa -, caiu do cavalo e perdeu os sentidos. O conde correu 
em seu socorro, e como ela sufocava nas suas roupas ele rasgou-as com o punhal e descobriu-lhe o ombro.

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Adivinhais o que havia no ombro, d'Artagnan? - perguntou Athos soltando uma grande gargalhada.
- Posso sab-lo? - arriscou d'Artagnan.
- Uma flor-de-lis - Respondeu Athos. - Estava marcada. E Athos despejou de um s trago o copo que tinha na mo.
- Que horror! - gritou d'Artagnan. - Que me dizeis?...
- A verdade. Meu caro, o anjo era um demnio. A pobre rapariga roubara.
- E que fez o conde?
- O conde era um grande senhor, tinha nas suas terras direito de alta e baixa justia. Acabou de rasgar as roupas da condessa, amarrou-lhe as mos atrs das costas 
e enforcou-a numa rvore.
- Cus, Athos, um assassnio! - exclamou d'Artagnan.
- Sim, um assassnio, nem mais, nem menos - admitiu Athos, plido como a morte. - Mas estou sem vinho, parece-me...
E Athos agarrou o gargalo da ltima garrafa que restava, levou-a  boca e despejou-a de um s trago, como faria se fosse um copo vulgar.
Depois deixou cair a cabea sobre as mos; d'Artagnan ficou diante dele, dominado pelo espanto.
- Aquilo curou-me de mulheres belas, poticas e apaixonadas - declarou Athos, levantando-se e sem pensar j em continuar o aplogo do conde. - Deus vos conceda o 
mesmo! Bebamos!
- Ela morreu, portanto? - balbuciou d'Artagnan.
-  verdade - respondeu Athos. - Mas despejai o vosso copo. Presunto, tem piada,  que no podemos beber! - gritou Athos.
- E o irmo? - perguntou timidamente d'Artagnan.
- O irmo? - repetiu Athos.
- Sim, o padre.
- Ah! Informei-me a seu respeito, para o mandar enforcar tambm, mas ele tomara-me a dianteira e deixara a sua parquia na vspera.
- Soubestes ao menos quem era esse miservel?
- Era sem dvida o primeiro amante e o cmplice da bela, um digno homem que fingira ser padre para casar a amante e assegurar-lhe o futuro. Espero que tenha sido 
esquartejado.
- Oh, meu Deus, meu Deus! - exclamou d'Artagnan, aturdidissimo com a horrvel aventura.
- Comei presunto, d'Artagnan;  excelente - recomendou-lhe Athos, cortando uma fatia que ps no prato do jovem. - Que pena s haver quatro como este na adega! Teria 
bebido mais cinquenta garrafas.
D'Artagnan j no podia suportar semelhante conversa; capaz de o enlouquecer; deixou cair a cabea nas mos e fingiu adormecer.
- Os jovens j no sabem beber - comentou Athos, olhando-o com compaixo -, e no entanto este  dos melhores.


        XXVIII - REGRESSO


        D'Artagnan ficara aturdido com a terrvel confidncia de Athos; no entanto, muitas coisas ainda lhe pareceram obscuras naquela semi-revelao; em primeiro 
lugar, fora feita por um homem completamente bbedo a um homem meio embriagado, e no entanto, apesar do vcuo que faz subir ao crebro o vapor de duas ou trs garrafas 
de borgonha. ao levantar-se no dia seguinte, d'Artagnan tinha cada palavra de Athos to presente na memria como se,  medida que lhe tinham sado da boca, se tivessem 
impresso no seu esprito. A dvida, porm, s contribuiu para lhe avivar o desejo de chegar a uma certeza, e para isso passou pelo quarto do amigo com a inteno 
bem firme de reatar a conversa da vspera; mas encontrou Athos completamente calmo, isto , mais senhor de si e impenetrvel do que nunca.
De resto, o mosqueteiro, depois de trocar com ele um aperto de mo, foi o primeiro a ir ao encontro do seu pensamento.
- Apanhei uma grande bebedeira ontem, meu caro d'Artagnan - comeou. - Verifiquei isso esta manh: tinha a lngua muito suja e o pulso ainda muito agitado. Aposto 
que disse mil extravagncias...
E ao dizer estas palavras fitou o amigo com uma fixidez que o embaraou.
- No - replicou d'Artagnan -, e se bem me recordo s dissestes coisas vulgarissimas.
- Surpreendeis-me! Julgava ter-vos contado uma histria das mais lamentveis.
E fitava o jovem como se quisesse ler-lhe no mais fundo do corao.
- Palavra! - disse d'Artagnan. - Parece-me que estava ainda mais bbedo do que vs, pois no me lembro de nada.
Athos no se contentou com a palavra do amigo e insistiu:
- Deveis ter notado, meu caro, que cada um tem o seu gnero de embriaguez, triste ou alegre; eu tenho a embriaguez triste, e uma vez bbedo a minha mania  contar 
histrias lgubres que a minha estpida ama me meteu na cabea.  o meu defeito, o meu pecado; pecado capital, admito. Mas tirando isso sou bom bebedor.
Athos proferiu estas palavras de forma to natural que d'Artagnan se sentiu abalado na sua convico.
- Oh,  ento disso, com efeito - redarguiu o jovem, tentando no deixar fugir a verdade -,  ento disso que me recordo, como de resto nos lembramos de um sonho: 
falmos de enforcados!
- Como vedes - disse Athos, empalidecendo, mas ao mesmo tempo tentando sorrir -, tinha a certeza: os enforcados so o meu pesadelo.
- Sim, sim - prosseguiu d'Artagnan -, estou a recordar-me... Sim, tratava-se... esperai... tratava-se de uma mulher!

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- Vedes? - respondeu Athos, tornando-se quase lvido. -  a minha grande histria da mulher loura, e quando a conto  porque estou bbedo como um cacho.
- Sim,  isso - concordou d'Artagnan -, a histria da mulher loura, alta e bela, de olhos azuis.
- Sim, e enforcada.
- Pelo marido, que era um fidalgo vosso conhecido - continuou d'Artagnan, olhando fixamente para Athos.
- Exacto! Mas vede como se pode comprometer um homem quando j no sabemos o que dizemos - observou Athos, encolhendo os ombros, como se se compadecesse de si mesmo. 
Decididamente, vou deixar de me embebedar, d'Artagnan;  um pssimo hbito.
D'Artagnan guardou silncio.
- A propsito, agradeo-vos o cavalo que me trouxestes.
- Gostais dele? - perguntou d'Artagnan.
- Gosto, mas no  um cavalo resistente.
- Enganais-vos; percorri com ele dez lguas em menos de hora e meia e no me parecia mais cansado do que se tivesse dado a volta  Praa de Saint-Sulpice.
- Sendo assim, tendes de me lamentar.
- De vos lamentar?...
- Sim, porque me desfiz dele.
- Como assim?
- As coisas passaram-se assim: esta manh, acordei s seis da manh, dormeis como uma pedra e no sabia que fazer; ainda no estava recomposto da nossa pndega 
de ontem. Desci  sala principal e dei com um dos nossos ingleses a negociar um cavalo com um alquilador, pois o seu morrera ontem de congesto. Aproximei-me dele 
e ao v-lo oferecer cem pistolas por um alazo escuro disse-lhe:
"Por Deus, meu gentil-homem, tambm tenho um cavalo para vender.
"E at muito belo - redarguiu ele. - Vi-o ontem, quando o criado do vosso amigo o trazia pela mo.
"Achais que vale cem pistolas?
"Acho, e quereis vend-lo por esse preo?
"No, mas jogo-o.
"Jogai-lo comigo?
"Jogo.
"A qu?
"Aos dados.
"Dito e feito, e perdi o cavalo. Ah, mas em compensao voltei a ganhar a gualdrapa! - exclamou Athos".
D'Artagnan mostrou uma cara deveras aborrecida.
- Ficastes contrariado? - perguntou-lhe Athos.
- Fiquei - confesso - respondeu d'Artagnan. - Esse cavalo devia servir para nos reconhecerem num dia de batalha;

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era uma prenda, uma recordao. Athos, no procedestes bem.
- Vamos, meu caro amigo, ponde-vos no meu lugar - desculpou-se o mosqueteiro. - Aborrecia-me mortalmente e alm disso, palavra de honra, no gosto de cavalos ingleses. 
Vejamos, se se trata apenas de ser reconhecido por algum, bom, a sela bastar... E ela  deveras notvel. Quanto ao cavalo, arranjaremos qualquer desculpa para 
justificar o seu desaparecimento. Que diabo, um cavalo  mortal! Digamos que o meu teve o mormo ou o laparo.
D'Artagnan no se conformava.
- Contraria-me - continuou Athos - que pareceis querer tanto a esses animais, porque ainda no cheguei ao fim da minha histria.
- Que mais fizestes?
- Depois de perder o meu cavalo, nove contra dez, vede o azar, lembrei-me de jogar o vosso.
- Sim, mas ficastes por a, espero?...
- No, pus imediatamente a ideia em prtica.
- Essa agora! - exclamou d'Artagnan, inquieto.
- Joguei e perdi.
- O meu cavalo?
- O vosso cavalo; sete contra oito. Por um ponto... conheceis o provrbio.
- Athos, no estais no vosso juzo perfeito, juro-vos!
- Meu caro, ontem, quando vos contava as minhas histrias idiotas  que me deveis dizer isso, e no esta manh. Perdi-o com todos os equipamentos e arreios possveis.
- Mas isso  horrvel!
- Esperai que ainda no acabei... Seria um excelente jogador se no teimasse, mas teimo e acontece-me o mesmo quando bebo. Portanto, teimei...
- Mas que mais pudestes jogar, se no vos restava mais nada?
- Restava, restava, meu amigo... Restava-nos esse diamante que brilha no vosso dedo e que notara ontem.
- Este diamante?! - gritou d'Artagnan, levando vivamente a mo ao anel
- E como sou conhecedor, pois j tive alguns, avaliei-o em mil pistolas.
- Espero - disse muito srio d'Artagnan, meio morto de terror - que no tenhais arriscado o meu diamante...
- Pelo contrrio, caro amigo! Como deveis compreender, esse diamante era o nosso ltimo recurso; com ele podia voltar a ganhar os nossos arreios e os nossos cavalos 
e ainda o dinheiro para a viagem.
- Athos, fazeis-me tremer! - exclamou d'Artagnan.
- Falei portanto do vosso diamante ao meu parceiro, que tambm reparara nele. Que diabo, meu caro, trazeis no dedo uma estrela do cu e no quereis que se veja! 
Impossvel.


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- Acabai, meu caro, acabai - pediu d'Artagnan. - Porque, palavra de honra, dais cabo de mim com o vosso sangue-frio!
- Dividimos pois o diamante em dez partes de cem pistolas cada uma.
- Ah, quereis divertir-vos e experimentar-me, no ? I - disse d'Artagnan, a quem a clera comeava a puxar os cabelos, tal como Minerva puxa Aquiles na Ilada.
- No, no estou a brincar, com a breca! Gostaria de vos ver no meu lugar. Havia quinze dias que no via rosto humano e que me embrutecia a emborcar garrafas.
- Isso no era razo para jogardes o meu diamante! - respondeu d'Artagnan, fechando a mo numa crispao nervosa.
- Mas ouvi o resto: dez partes de cem pistolas, cada uma em dez lances sem desforra. Em treze lances perdi tudo. Em treze lances! O nmero 13 sempre me foi fatal. 
Foi em 13 de Julho que...
- Com mil demnios! - gritou d'Artagnan, levantando-se da mesa, j sem querer saber da histria da vspera, que a do dia lhe fizera esquecer.
- Pacincia - pediu Athos. - A verdade  que eu tinha um plano: o ingls era um original, vira-o de manh a conversar com Grimaud, e Grimaud avisara-me de que lhe 
propusera entrar ao seu servio. Resolvi jogar Grimaud, o silencioso Grimaud, dividido em dez partes.
- Outra vez! - exclamou d'Artagnan, desatando a rir sem querer.
- O prprio Grimaud, ouvistes? E com as dez partes de Grimaud, que no vale inteiro um ducado, voltei a ganhar o diamante. Dizei agora que a persistncia no  uma 
virtude!
- Palavra que isso tem um piado! - exclamou d'Artagnan. satisfeito, rindo a bandeiras despregadas.
- Como compreendeis, sentindo-me em mar de sorte, voltei a jogar imediatamente sobre o diamante.
- Oh, diabo! - exclamou d'Artagnan, de novo preocupado.
- Ganhei os vossos arreios, depois o vosso cavalo, depois os meus arreios, depois o meu cavalo, e depois tornei a perder. Em resumo, recuperei o vosso arreio e depois 
o meu.  esta a situao actual. Foi um lance soberbo; por isso fiquei por a.
D'Artagnan respirou como se lhe tivessem tirado a estalagem de cima do peito.
- Enfim, no perdi o diamante? - perguntou timidamente.
- Est intacto, caro amigo! Mais os arreios do vosso Bucfalo e do meu.
- Mas que faremos dos nossos arreios sem cavalos?
- Tenho uma ideia acerca deles.
- Athos, receio muito as vossas ideias.
- Escutai, no jogais h muito tempo, pois no, d'Artagnan?
- E no tenho nenhuma vontade de jogar.

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- Isso  o que dizeis agora! Portanto, como no jogais h muito tempo, dizia eu, deveis ter boa mo...
- Sim, e depois?
- Depois, o ingls e o companheiro ainda c esto. Notei que tinham muita pena de no ficar com os arreios... e vs pareceis interessado no vosso cavalo. No vosso 
lugar jogaria os vossos arreios contra o vosso
cavalo.
- Mas ele no querer s um arreio.
- Nesse caso, jogai os dois! No sou um egosta como vs.
- Fareis isso? - perguntou d'Artagnan, indeciso, de tal modo a confiana de Athos comeava a influenci-lo, mal-grado seu.
- Palavra de honra, e num s lance.
- Mas  que, j que perdi os cavalos, tenho enorme empenho em conservar os arreios.
- Ento jogai o vosso diamante.
- Oh, isso  outra coisa! Nunca, nunca.
- Diabo! - exclamou Athos. - Propor-vos-ia que jogsseis Planchet, mas como isso j foi feito o ingls talvez no estivesse pelos ajustes.
- Decididamente, meu caro Athos, prefiro no arriscar nada - declarou d'Artagnan.
-  pena - redarguiu friamente Athos. - O ingls est cheio de pistolas... Meu Deus, tentai um lance, um lance no custa nada.
- E se perco?
- Ganhareis.
- Mas se perco?
- Bom, entregareis os arreios.
- Arrisco um lance - decidiu d'Artagnan.
Athos foi  procura do ingls e encontrou-o na cavalaria a examinar os arreios com um olhar cobioso. A ocasio era boa. Athos apresentou as suas condies: os 
dois arreios contra um cavalo ou cem pistolas, a escolher. O ingls fez um clculo rpido: os dois arreios valiam trezentas pistolas; aceitou.
D'Artagnan deitou os dados a tremer e tirou o trs; a sua palidez assustou Athos, que se limitou a dizer:
- Mau lance, companheiro; tereis os cavalos completamente arreados, senhor.
O ingls, triunfante, nem sequer se deu ao trabalho de agitar os dados, atirou-os para cima da mesa sem olhar, de tal modo estava seguro da vitria; d'Artagnan virara-se 
para ocultar o seu mau humor.
- Vede, vede, vede - disse Athos com a sua voz tranquila. - Este lance de dados  extraordinrio e s o vi quatro vezes na minha vida:
dois ases!
O ingls olhou e ficou espantado, d'Artagnan olhou e ficou contente.
- Sim, continuou Athos, apenas quatro vezes: uma vez em casa do Sr. de Crquy; outra vez em minha casa, no campo, no meu castelo de...

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quando tinha um castelo; a terceira vez em casa do Sr. de Trville, onde ele nos surpreendeu a todos, e finalmente a quarta vez num botequim, onde me calhou a mim 
e perdi no lance cem luses e uma ceia.
- Ento o senhor recupera o seu cavalo - disse o ingls.
- Exacto - respondeu d'Artagnan.
- No h desforra?
- As nossas condies diziam: "Sem desforra." Lembrais-vos?
-  verdade; o cavalo vai ser entregue ao vosso criado, senhor.
- Um momento - atalhou Athos. - Com vossa licena, senhor, peo para dizer uma palavra ao meu amigo.
- Dizei.
Athos afastou-se com d'Artagnan.
- Que mais queres de mim, tentador? - perguntou-lhe d'Artagnan. - Queres que jogue, no ?
- No, quero que reflictais.
- Em qu?
- Ides recuperar o cavalo, no  verdade?
- Sem dvida.
- Fazeis mal; eu preferiria as cem pistolas. Como sabeis, jogastes os arreios contra o cavalo ou cem pistolas,  vossa escolha.
- Pois joguei.
- Eu optaria pelas cem pistolas.
- E eu opto pelo cavalo.
- Fazeis mal, repito-vos. Que faremos com um cavalo para os dois? No posso montar na garupa, pareceramos dois filhos de Aymon que tivessem perdido os irmos, e 
vs no me podeis humilhar cavalgando junto de mim nesse magnfico corcel. Eu no hesitava um instante: optava pelas cem pistolas; necessitamos de dinheiro para 
regressar a Paris.
- Quero aquele cavalo, Athos.
- E fazeis mal, meu amigo, insisto. Um cavalo tem uma distenso muscular, um cavalo tropea e arranja joalheiras, um cavalo come numa manjedoura onde comeu um cavalo 
mormoso, e a est um cavalo... ou antes, a esto cem pistolas perdidas. O dono de um cavalo tem de o alimentar, enquanto, pelo contrrio, cem pistolas alimentam 
o seu dono.
- Mas como regressaremos?
- Nos cavalos dos nossos lacaios, com a breca! Toda a gente ver perfeitamente, pelo nosso aspecto, que somos pessoas de condio.
- Teremos um rico aspecto montados em garranos, enquanto Aramis e Porthos se caracoleiam nos seus cavalos!
- Aramis! Porthos! - exclamou Athos, e desatou a rir.
- Que quereis dizer? - perguntou d'Artagnan, que no compreendia nada da hilaridade do amigo.
- Bem, bem, continuemos - disse Athos.
- Portanto, na vossa opinio...

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- Devemos optar pelas cem pistolas, d'Artagnan; com as cem pistolas podemos banquetear-nos at ao fim do ms; suportmos muitas canseiras, como sabeis, e precisamos 
de descansar um pouco.
- Eu descansar? Oh, no, Athos, assim que chegar a Paris vou procurar aquela pobre mulher!
- E julgais que o vosso cavalo vos ser to til nisso como bons luses de ouro? Optai pelas cem pistolas, meu amigo, optai pelas
cem pistolas.
D'Artagnan s precisava de um motivo para se render, e aquele pareceu-lhe excelente. Alis, se resistisse mais tempo receava parecer egosta aos olhos de Athos. 
Aquiesceu pois e optou pelas cem pistolas, que o ingls lhe entregou imediatamente.
Depois s pensaram em partir. A assinatura da paz com o estalajadeiro custou seis pistolas mais o velho cavalo de Athos; d'Artagnan e Athos montaram nos cavalos 
de Planchet e Grimaud e os dois criados puseram-se a caminho a p, com as selas  cabea.
Por muito mal montados que os dois amigos fossem no tardaram a adiantar-se aos criados e a chegar a Crvecoeur. De longe viram Aramis melancolicamente encostado 
 janela, a ver, como a minha irm Anne, o p levantar-se no horizonte.
- Ol! Eh, Aramis, que diabo fazeis a?! - gritaram os dois amigos.
- Ah, sois vs, d'Artagnan, e vs, Athos! - exclamou o jovem. - Pensava com que rapidez se vo os bens deste mundo, e o meu cavalo ingls, que se afastava e acaba 
de desaparecer no meio de uma nuvem de poeira, era para mim a imagem viva da fragilidade das coisas terrenas. A prpria vida pode-se resolver em trs palavras: Erat, 
est, fuit
- Isso quer dizer no fundo?... - perguntou d'Artagnan, que comeava a suspeitar a verdade.
- Quer dizer que acabo de fazer um mau negcio: sessenta luses por um cavalo que, pela maneira como corre, pode percorrer a trote cinco lguas por hora.
D'Artagnan e Athos desataram a rir.
- Meu caro d'Artagnan - disse Aramis -, no fiqueis muito aborrecido comigo, peo-vos; a necessidade faz lei; alis, sou o primeiro castigado, pois aquele infame 
alquilador roubou-me pelo menos cinquenta luses. Vs  que sabeis fazer as coisas: vindes nos cavalos dos vossos lacaios e fazeis conduzir os vossos cavalos de 
luxo  mo, devagarinho, em pequenas jornadas.
No mesmo instante um carroo que havia instantes surgira na estrada de Amiens parou e saram dele Grimaud e Planchet com as selas  cabea. O carroo regressava 
vazio a Paris e os dois lacaios tinham-se comprometido, mediante o seu transporte, a dar de beber ao carroceiro ao longo de toda a estrada.
- Que  aquilo? - perguntou Aramis, vendo o que se passava. - S
trazem as selas?
- Compreendeis agora? - tornou-lhe Athos.

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- Meus amigos, esto exactamente como eu: tambm conservei os arreios por instinto. Ol, Bazin! Colocai os meus arreios novos ao p dos destes senhores.
- E que fizestes dos padres? - perguntou d'Artagnan.
- Meu caro, convidei-os para jantar no dia seguinte - respondeu Aramis. - H por c um vinho excelente, diga-se de passagem, e embebedei-os de caixo  cova. Ento 
o proco proibiu-me de deixar a farda e o jesuta rogou-me que o ajudasse a ser admitido como mosqueteiro.
- Sem tese! - exclamou d'Artagnan. - Sem tese! Exijo a supresso da tese!
- Desde ento - continuou Aramis - vivo agradavelmente. Comecei um poema em versos de uma slaba e  bastante difcil, mas em todas as coisas o mrito reside na 
dificuldade. O tema  galante. Ler-vos-ei o primeiro canto: tem quatrocentos versos e dura um minuto.
- Meu caro Aramis - disse d'Artagnan, que detestava quase tanto os versos como o latim -, juntai ao mrito da dificuldade o da brevidade e pelo menos tereis a certeza 
de que o vosso poema possuir dois mritos.
- Depois - continuou Aramis - respira paixes honestas, como vereis... E agora, meus amigos, regressamos a Paris? Bravo, estou pronto! Ainda bem que vamos tornar 
a ver esse bom Porthos. Talvez no acrediteis, mas sinto a falta desse grande simplrio. Porthos no trocaria o seu cavalo nem por um reino. Tomara j v-lo montado 
no seu belo animal na sua sela... Estou certo de que parecer o Gro-MongoL.
Fez-se um alto de uma hora para descanso dos cavalos; depois Aramis pagou a sua conta, colocou Bazin no carroo com os seus camaradas e meteram-se a caminho ao 
encontro de Porthos.
Encontraram-no de p, menos plido do que o vira d'Artagnan na sua primeira visita, e sentado a uma mesa onde, embora estivesse sozinho, havia um jantar para quatro 
pessoas. O jantar compunha-se de carnes excelentemente cozinhadas, de vinhos escolhidos e de frutos soberbos.
- Por Deus! - exclamou levantando-se. - Chegais na melhor altura, meus senhores! Ia justamente na sopa e ides jantar comigo.
- Oh, oh! - interveio d'Artagnan. - Com certeza que no foi Mousqueton quem apanhou a lazo, como as garrafas, esse fricand recheado e esse lombo de vaca...
- Estou a restabelecer-me - declarou Porthos. - Estou a restabelecer-me. No h nada que enfraquea tanto como os malditos entorses. J tivestes entorses, Athos?
- Nunca! Mas recordo-me de que na nossa escaramua da Rua Frou recebi uma estocada que ao cabo de quinze ou dezoito dias me produziu exactamente o mesmo efeito.
- Mas este jantar no era s para vs, meu caro Porthos? - perguntou Aramis.

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- No - respondeu Porthos. - Esperava alguns gentis-homens das vizinhanas que acabam de me mandar dizer que no viro; substitui-los-eis e no perderei com a troca. 
Ol, Mousqueton, trazei assentos e o
dobro das garrafas!
- Sabeis o que estamos a comer? - perguntou Athos ao cabo de
dez minutos.
- Meu Deus, eu estou a comer vitela recheada com alcachofras e
miolos! - respondeu d'Artagnan.
- E eu lombo de cordeiro - disse Porthos.
- E eu peito de galinha - disse Aramis.
- Estais enganados, meus senhores - respondeu Athos. - O que comeis  carne de cavalo.
- Ora adeus! - redarguiu d'Artagnan, incrdulo.
- Cavalo! - exclamou Aramis, com uma careta de repugnncia. S Porthos no disse nada.
- Sim, carne de cavalo! No  verdade, Porthos, que estamos a comer carne de cavalo? Se calhar at com as gualdrapas!
- No, meus senhores, guardei os arreios - respondeu Porthos.
- Palavra que estamos uns para os outros - comentou Aramis. - At parece que passmos palavra.
- Que quereis, o cavalo envergonhava os meus visitantes e no os quis humilhar - desculpou-se Porthos.
- E a vossa duquesa continua nas termas, no  verdade? - insinuou d'Artagnan.
- Pois continua - respondeu Porthos. - Por outro lado, o governador da provncia, um dos gentis-homens que esperava hoje para jantar, pareceu-me desej-lo tanto 
que lho dei.
- Destes-lho?! - exclamou d'Artagnan.
- Meu Deus, sim, dei-lho,  essa a palavra - respondeu Porthos. - Porque ele valia decerto cento e cinquenta luses e o sovina s me pagou oitenta.
- Sem a sela? - perguntou Aramis.
- Sim, sem a sela.
- Como vedes, senhores, foi ainda Porthos quem fez o melhor negcio de ns todos - observou Athos.
Seguiu-se uma gargalhada geral que deixou o pobre Porthos sem saber o que pensar; mas assim que lhe explicaram o motivo de tamanha hilaridade compartilhou-a ruidosamente, 
conforme o seu costume.
- Excepto eu - disse Athos. - Achei o vinho de Espanha de Aramis to bom que mandei carregar umas sessenta garrafas no carroo dos lacaios, o que me deixou sem 
cheta.
- E eu - disse Aramis - imaginai como estaria de dinheiro se tenho dado at ao meu ltimo soldo  igreja de Montdidier e aos jesutas de Amiens, e se alm disso 
tenho assumido compromissos que teria agora de cumprir, como encomendar missas por mim e por vs que a serem ditas, senhores, no duvido nos fossem muito teis.

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- E eu - disse Porthos -, julgais que o meu entorse no me custou nada? Sem contar com o ferimento de Mousqueton, que me obrigou a mandar vir o cirurgio duas vezes 
por dia, o qual me fez pagar as visitas a dobrar, a pretexto de o imbecil do Mousqueton se ter feito balear num stio que habitualmente s se mostra aos boticrios. 
Mas eu recomendei-lhe que nunca mais se deixasse ferir a.
- Vamos, vamos - disse Athos, trocando um sorriso com d'Artagnan e Aramis -, vejo que vos comportastes generosamente com o pobre rapaz, como  prprio de um bom 
amo.
- Em resumo - continuou Porthos -, paga a minha despesa, restar-me-ao uns trinta escudos.
- E a mim uma dezena de pistolas - disse Aramis.
- Apre, at parece que somos os Cresos da sociedade! Quanto vos resta das vossas cem pistolas, d'Artagnan?
- Das minhas cem pistolas? Em primeiro lugar, dei-vos cinquenta... -Sim?...
- Ora essa!
- Ah,  verdade, j me lembro!...
- Depois, paguei seis ao estalajadeiro.
- Que animal, esse estalajadeiro! Por que lhe destes seis pistolas?
- Vs  que me dissestes para lhas dar.
- No h dvida que sou demasiado bom. Em resumo, quanto resta?
- Vinte e cinco pistolas - respondeu d'Artagnan.
- E eu - disse Athos, tirando uns trocos da algibeira -, eu ...
- Vs, nada.
- De facto,  to pouca coisa que no vale a pena ir para o monte.
- Agora, calculemos quanto possumos ao todo. Porthos!
- Trinta escudos.
- Aramis!
- Dez pistolas.
- E vs, d'Artagnan?
- Vinte e cinco.
- Isso faz ao todo? - perguntou Athos.
- Quatrocentas e setenta e cinco libras! - respondeu d'Artagnan, que contava como Arquimedes.
- Quando chegarmos a Paris ainda devemos ter quatrocentas, mais os arreios - disse Porthos.
- Mas os nossos cavalos de esquadro? - lembrou Aramis.
- Bom, dos quatro cavalos dos lacaios faremos dois de amo que tiraremos  sorte; com as quatrocentas libras arranjaremos uma pileca para um dos desmontados e entregaremos 
os restos das algibeiras a d'Artagnan, que tem boa mo, para os ir jogar na primeira tavolagem que encontrar.
- Entretanto jantemos, antes que a comida arrefea - disse Porthos.

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Os quatro amigos, agora mais tranquilos quanto ao seu futuro, fizeram honras ao repasto, cujos restos foram deixados para os Srs. Mousqueton, Bazin, Planchet e Grimaud.
Quando chegou a Paris, d'Artagnan encontrou uma carta do Sr. de Trville comunicando-lhe que, a seu pedido, o rei acabava de lhe conceder a merc de entrar para 
os mosqueteiros.
Como era tudo o que d'Artagnan anbicionava no mundo,  parte, evidentemente, o desejo de reencontrar a Sr.a Bonacieux, correu satisfeitssimo para junto dos seus 
camaradas, de quem se separara havia cerca de meia hora, e que encontrou muito tristes e preocupados. Estavam reunidos em conselho em casa de Athos, o que indicava 
sempre circunstncias de certa gravidade.
O Sr. de Trville acabava de os mandar avisar de que, como o rei estava firmemente decidido a abrir a campanha no dia 1 de Maio, deviam preparar incontinente os 
seus equipamentos.
Os quatro filsofos entreolharam-se preocupadissimos: o Sr. de Trville no era para brincadeiras no tocante a disciplina.
- E enquanto avaliais os equipamentos? - perguntou d'Artagnan.
- Oh, fizemos as contas com uma economia espartana e falta-nos a cada um mil e quinhentas libras! - informou Aramis.
- Quatro vezes mil e quinhentas libras so seis mil libras - acrescentou Athos.
- A mim parece-me que com mil libras cada um... Verdade seja que no falo como espartano, mas sim como procurador... - insinuou d'Artagnan.
- Tenho uma ideia! - exclamou Porthos, de sbito.
- J  alguma coisa, pois nem sequer tenho a sombra de uma - declarou friamente Athos. - Mas quanto a d'Artagnan, meus senhores, a felicidade de ser de futuro dos 
nossos p-lo louco. Mil libras! Declaro que s para mim preciso de duas mil!
- Quatro vezes dois so oito - disse ento Aramis. - Precisamos portanto de oito mil libras para os nossos equipamentos, embora, valha a verdade, desses equipamentos 
j tenhamos as selas.
- Mais - disse Athos, esperando que d'Artagnan que ia agradecer ao Sr. de Trville, fechasse a porta -, mais o belo diamante que brilha no dedo do nosso amigo... 
Que diabo,  demasiado bom camarada para deixar irmos em apuros quando traz no dedo mdio o resgate de um rei!

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        XXIX - A CAA AO EQUIPAMENTO


        O mais preocupado dos quatro amigos era sem dvida nenhuma d'Artagnan, embora d'Artagnan na sua qualidade de guarda, fosse muito mais fcil de equipar do 
que os Srs. Mosqueteiros, que eram fidalgos. Mas o nosso cadete da Gasconha era, como j tivemos ensejo de verificar, uma pessoa previdente e quase avara e por isso 
(explicai os contrrios) quase mais presunosa ainda do que Porthos.  preocupao com a sua vaidade, d'Artagnan juntava naquele momento uma inquietao menos egosta. 
As poucas informaes que conseguira obter acerca da Sr.a Bonacieux no lhe tinham proporcionado nenhuma novidade. O Sr. de Trville falara  rainha; a rainha ignorava 
onde estava a jovem retroseira e prometera mandar procur-la. Mas tal promessa era muito vaga e no tranquilizava nada d'Artagnan.
Athos no saa do seu quarto; estava resolvido a no arriscar um passo para se equipar.
- Ainda temos quinze dias - dizia aos amigos. - Se passados esses quinze dias no tiver arranjado nada, ou antes, se nada me tiverem arranjado, como sou demasiado 
bom catlico para estoirar a cabea com um tiro de pistola, procurarei uma boa zaragata com quatro guardas de Sua Eminncia ou oito ingleses e bater-me-ei at um 
me matar, o que, dada a sua quantidade no pode deixar de me acontecer. Dir-se- ento que morri pelo rei, de modo que terei feito o meu servio sem necessidade 
de me equipar.
Porthos continuava a passear, de mos atrs das costas, meneando a cabea de alto a baixo e dizendo:
- Prosseguirei com a minha ideia. Aramis, preocupado no dizia nada.
 fcil ver por estes pormenores funestos que a desolao reinava na comunidade.
Os lacaios, pela sua parte, como os vassalos de Hiplito, partilhavam a triste pena dos amos. Mousqueton fazia proviso de restos; Bazin, que sempre tivera queda 
para a devoo, no saa das igrejas; Planchet entretinha-se a ver voar as moscas, e Grimaud, a quem a tristeza geral no conseguia levar a romper o silncio imposto 
pelo amo, soltava suspiros capazes de comover as pedras.
Os trs amigos - porque como dissemos Athos jurara no dar um passo para se equipar -, os trs amigos saam de manh muito cedo e entravam tardissimo. Vagueavam 
pelas ruas de olhos postos no cho, no tivesse alguma das pessoas que por ali passara antes deles terem perdido a bolsa. Dir-se-ia que seguiam pistas, tamanha era 
a ateno com que olhavam para o cho nos stios por onde passavam. Quando se encontravam,

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trocavam olhares desolados que queriam dizer: "Encontraste alguma coisa?"
No entanto, como Porthos fora o primeiro a ter uma ideia e a seguira com persistncia, foi o primeiro a agir. Era um homem de aco, o digno Porthos. D'Artagnan 
viu-o um dia dirigir-se para a Igreja de Saint-Leu e seguiu-o instintivamente. Porthos entrou no lugar santo depois de erguer as guias do bigode e alisar a pra, 
o que denotava sempre da sua parte as intenes mais conquistadoras. Como d'Artagnan tomava algumas precaues para se dissimular, Porthos julgou no ser visto. 
D'Artagnan entrou atrs dele e Porthos foi-se encostar do lado de um pilar; d'Artagnan, sempre despercebido encostou-se do outro.
Precisamente naquele dia havia um sermo e por isso a igreja tinha muita gente. Porthos aproveitou a circunstncia para deitar o olho s mulheres. Graas aos bons 
cuidados de Mousqueton, o seu exterior estava longe de deixar transparecer a misria que ia l por dentro. O chapu estava um bocadinho coado, a pluma um pouco 
desbotada, os bordados um tanto baos e as rendas algo rotas, mas  meia luz ningum reparava em tais ninharias e Porthos no deixava de ser o belo Porthos. D'Artagnan 
notou no banco mais prximo do pilar a que Porthos e ele estavam encostados uma espcie de beleza madura, um pouco deslavada, um pouco seca, mas muito direita e 
altiva debaixo da sua touca negra. Os olhos de Porthos baixavam-se furtivamente sobre a dama e depois divagava ao longo da nave.
Pela sua parte, a dama, que de vez em quando corava, lanava com a rapidez do relmpago um olhar ao volvel Porthos, e imediatamente os olhos de Porthos divagavam 
pela igreja. Era evidente tratar-se de um manejo que impressionava a dama de touca preta, pois ela mordia os lbios at sangrarem, coava a ponta do nariz e mexia-se 
desesperadamente no seu lugar.
Vendo isto, Porthos torceu de novo o bigode, alisou pela segunda vez a pra e ps-se a fazer sinais a outra dama, que estava perto do coro, e que no s era uma 
bela dama, mas tambm uma grande dama sem dvida, pois tinha atrs de si um pretinho que trouxera a almofada em que estava ajoelhada e uma criada que segurava na 
bolsa brasonada onde guardava o livro de missa.
A dama de touca preta seguia atravs de todos os seus meandros o olhar de Porthos, at que descobriu que ele se detinha na dama da almofada de veludo, do pretinho 
e da criada.
Entretanto, Portos jogava pelo seguro: eram piscadelas de olho, dedos pousados nos lbios, sorrizinhos assassinos, que realmente assassinavam a bela desdenhada.
Soltou por isso, em forma de mea culpa e batendo no peito um "Hum!" de tal modo sonoro que toda a gente, incluindo a dama da almofada vermelha se virou no seu lugar. 
Porthos manteve-se firme: embora tivesse ouvido bem. Fez de surdo.
A dama da almofada vermelha produziu sensao, pois era de facto muito bela, e impressionou a dama de touca preta,

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que viu nela uma rival realmente temvel. Tambm impressionou grandemente Porthos que a achou mais bonita do que a dama de touca preta, e igualmente d'Artagnan, 
que reconheceu a dama de Meung, de Calais e de Dover que o seu perseguidor, o homem da cicatriz, cumprimentara tratando-a por Milady.
Sem perder de vista a dama da almofada vermelha, d'Artagnan continuou a seguir os manejos de Porthos, que achava divertidissimos; julgou adivinhar que a dama da 
touca preta era a procuradora da Rua dos Ursos, tanto mais que a Igreja de Saint-Leu no ficava muito longe dessa rua.
Adivinhou ento por induo que Porthos procurava desforrar-se da sua derrota de Chantilly, quando a procuradora se mostrara to recalcitrante a respeito da bolsa.
Mas no meio de tudo aquilo, d'Artagnan notou tambm que ningum correspondia aos galanteios de Porthos. No passava tudo de quimeras e iluses; mas para um amor 
verdadeiro, para um cime autntico, haver outra realidade alm das iluses e das quimeras?
O sermo terminou. A procuradora dirigiu-se para a pia da gua benta: Porthos antecipou-se-lhe e, em vez de um dedo, meteu a mo toda. A procuradora sorriu, julgando 
que era por ela que Porthos fazia aquilo tudo; mas foi pronta e cruelmente desenganada: quando no estava a mais de trs passos dele, Porthos virou a cabea e fixou 
invariavelmente os olhos na dama da almofada vermelha, que se levantava e se aproximava seguida do seu pretinho e da criada.
Quando a dama da almofada vermelha chegou junto de Porthos, este tirou a mo a escorrer da pia da gua benta; a bela devota tocou com a sua mo afilada a manpula 
de Porthos, fez sorrindo o sinal da cruz e saiu da igreja.
Foi de mais para a procuradora; no duvidou mais de que aquela dama e Porthos se entendiam. Se fosse uma grande dama, teria desmaiado: mas como no passava de uma 
procuradora, limitou-se a dizer ao mosqueteiro, com furor concentrado:
- Ento, Sr. Porthos, no me ofereceis gua benta?
Ao ouvir-lhe a voz, Porthos teve um sobressalto digno de um homem que acordasse depois de um sono de cem anos.
- Se... senhora! - exclamou. - Sois de facto vs? Como est o vosso marido, esse caro Sr. Coquenard? Continua a ser to sovina como era? Onde tinha eu os olhos que 
nem sequer vos vi durante as duas horas que durou o sermo?
- Estava a dois passos de vs, senhor - respondeu a procuradora. - Mas no me vistes porque s tnheis olhos para a bela dama a quem acabais de dar gua benta.
Porthos fingiu-se embaraado.
- Ah, notastes!... - murmurou.
- S quem fosse cego no via.

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- Tendes razo - reconheceu negligentemente Porthos. -  uma duquesa minha amiga com a qual tenho muita dificuldade em me encontrar por causa dos cimes do marido, 
e que me mandara avisar de que viria hoje, apenas para me ver, a esta msera igreja nos confins deste bairro perdido.
- Sr. Porthos, quereis ter a bondade de me oferecer o brao durante cinco minutos para ter o prazer de conversar convosco? - perguntou a procuradora.
- Por que no, senhora? - redarguiu Porthos, piscando o olho a si mesmo, como um jogador que ri da partida que vai pregar.
Neste momento, d'Artagnan passava na cola de Milady; olhou de esguelha para Porthos e viu-lhe a piscadela de olho triunfante.
"Oh, oh!", disse para consigo, raciocinando de acordo com a moral estranhamente fcil daquela poca galante, "ali est um que talvez se consiga equipar dentro do 
prazo marcado."
Entretanto, Porthos, cedendo  presso do brao da procuradora como um barco cede ao leme, chegou ao claustro de Saint-Magloire, passagem pouco frequentada e encerrada 
por molinetes nas duas extremidades. De dia s se viam por ali mendigos a comer ou garotos a brincar.
- Ah, Sr. Porthos! - exclamou a procuradora, depois de se assegurar de que nenhuma pessoa estranha  populao habitual do local os podia ver nem ouvir. - Ah, Sr. 
Porthos, sois um grande vencedor, ao que parece!
- Eu, senhora? - disse Porthos empertigando-se. - Mas porqu?
- Ento os sinais de h bocado, e a gua benta?...  pelo menos uma princesa, aquela dama com o seu pretinho e a sua criada de quarto!
- Enganais-vos; meu Deus, no,  simplesmente uma duquesa - respondeu Porthos.
- E o batedor que esperava  porta, e a carruagem com um cocheiro em libr de gala que esperava no seu lugar?
Porthos no vira nem o batedor nem a carruagem; mas com o seu olhar de mulher ciumenta a Sr.a Coquenard vira tudo.
Porthos lamentou no ter feito logo de incio a dama da almofada vermelha princesa.
- Sois o menino bonito das belas, Sr. Porthos! - prosseguiu, suspirando, a procuradora.
- Como deveis compreender, com o fsico com que a natureza me dotou no me podiam faltar aventuras galantes - redarguiu Porthos.
- Meu Deus, como os homens esquecem depressa! - exclamou a procuradora, erguendo os olhos ao cu.
- Menos depressa do que as mulheres, parece-me - respondeu Porthos. - Porque enfim, eu, senhora, posso dizer que fui vossa vtima, quando ferido, moribundo, me vi 
abandonado pelos cirurgies. Eu, o descendente de uma famlia ilustre,

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que confiara na vossa amizade, estive quase a morrer dos meus ferimentos, primeiro, e de fome, depois, numa m estalagem de Chantilly, sem que vos dignsseis responder 
uma s vez s cartas ardentes que vos escrevi.
- Mas, Sr. Porthos... - murmurou a procuradora, que sentia, a julgar pelo comportamento das maiores damas da poca, que no procedera bem.
- Eu que sacrifiquei por vs a condessa de Penaflor...
- Bem sei.
- A baronesa de...
- Sr. Porthos, no me acabrunheis mais.
- A duquesa de...
- Sr. Porthos, sede generoso!
- Tendes razo, senhora, no vos incomodarei mais.
- Mas  o meu marido que no quer ouvir falar de emprestar.
- Sr.a Coquenard - respondeu Porthos -, lembrai-vos da primeira carta que me escrevestes e que conservo gravada na memria.
A procuradora soltou um gemido.
- Alm disso, a quantia que pedeis emprestada era bastante avultada...
- Sr.a Coquenard, dei-vos a preferncia. Bastou-me escrever  duquesa de... No digo o seu nome, porque sou incapaz de comprometer uma mulher; mas a verdade  que 
bastou-me escrever-lhe para que me enviasse mil e quinhentas.
A procuradora verteu uma lgrima.
- Sr. Porthos, juro-vos que me castigastes exemplarmente e que se no futuro vos encontrardes em semelhante apuro no tereis mais do que dirigir-vos a mim.
- Ento, senhora, no falemos de dinheiro, por favor, que  um assunto humilhante! - redarguiu Porthos, como que revoltado.
- Portanto j no me amais... - disse lenta e tristemente a procuradora.
Porthos guardou um silncio majestoso.
-  assim que me respondeis? Infelizmente, compreendo!
- Lembrai-vos da ofensa que me fizestes, senhora. Tenho-a aqui - disse Porthos, pousando a mo no corao e carregando com fora.
- Eu a repararei. Vamos, meu caro Porthos!...
- De resto, que vos pedia eu? - prosseguiu Porthos, com um encolher de ombros cheio de bonomia. - Um emprstimo e mais nada. No fim de contas, sou um homem comedido. 
Sei que no sois rica, Sr.a Coquenard, e que o vosso marido  obrigado a sugar os pobres litigantes para lhes arrancar alguns mseros escudos. Oh, se fsseis condessa, 
marquesa ou duquesa, seria diferente e no vos perdoaria!
A procuradora sentiu-se ofendida.
- Pois ficai sabendo, Sr. Porthos - volveu-lhe -, que o meu cofre, apesar de ser o cofre de uma procuradora, talvez esteja melhor recheado do que o de todas as vossas 
lambisgias arruinadas!
- Nesse caso, ofendestes-me duplamente - replicou Porthos, tirando o brao da procuradora debaixo do seu. - Porque se sois rica, Sr.a Coquenard, ento a vossa recusa 
j no tem desculpa.
- Quando digo que sou rica - recuou a procuradora, ao ver que se deixara levar demasiado longe -, no  para que se tome a palavra  letra. No sou precisamente 
rica, vivo com desafogo.
- Olhai, senhora, no falemos mais a tal respeito, peo-vos - redarguiu Porthos. - Ofendestes-me; toda a simpatia se extinguiu entre ns.
- Sois um ingrato!
- S tendes que vos queixar de vs... - tornou-lhe Porthos.
- Ide ento ter com a vossa bela duquesa! No vos retenho mais.
- No preciso que me mandeis.
- Vejamos, Sr. Porthos, mais uma vez, a ltima: ainda me amais?
- infelizmente, senhora, quando vamos entrar em campanha, numa campanha onde os meus pressentimentos me dizem que serei morto... - respondeu Porthos, no tom mais 
melanclico que conseguiu arranjar.
- Oh, no digais semelhantes coisas! - exclamou a procuradora,
rompendo em soluos.
- Qualquer coisa mo diz - continuou Porthos, em tom cada vez
mais melanclico.
- Dizei antes que tendes um novo amor.
- No, e falo-vos francamente. Nenhuma outra mulher me interessa, e at sinto aqui, no fundo do corao, qualquer coisa por vs. Mas dentro de quinze dias, como 
sabeis ou como no sabeis, comea a fatal campanha. Vou estar horrivelmente preocupado com o meu equipamento; depois, farei uma viagem a casa da minha famlia, nos 
confins da Bretanha, para arranjar o dinheiro necessrio  minha partida.
Porthos notou um derradeiro combate entre o amor e a avareza.
- E como - prosseguiu - a duquesa que acabais de ver na igreja tem as suas terras perto das minhas, faremos a viagem juntos. Como sabeis, as viagens parecem sempre 
muito menos longas quando so feitas a dois...
- No tendes nenhum amigo em Paris, Sr. Porthos? - perguntou a
procuradora.
- Julguei ter - respondeu Porthos, retomando o seu ar melanclico -, mas bem vi que me enganava.
- Tendes, sim, Sr. Porthos, tendes - redarguiu a procuradora, num impulso que a ela prpria surpreendeu. - Ide amanh l a casa. Sois filho da minha tia, meu primo, 
portanto; vindes de Noyon, na Picardia, tendes diversos processos em Paris e no tendes procurador. Retereis bem tudo isto?
- Perfeitamente, senhora.
- Ide  hora do jantar.
- Muito bem.
- E aguentai firme diante do meu marido, que  finrio, apesar dos seus setenta e seis anos.

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- Setenta e seis anos! Apre, que bonita idade! - exclamou Porthos
- Que idade avanada, deveis dizer, Sr. Porthos. O pobre homem pode deixar-me viva de um momento para o outro - continuou a procuradora, deitando um olhar significativo 
a Porthos. - Felizmente, pelo contrato de casamento deixmos tudo um ao outro.
- Tudo? - perguntou Porthos.
- Tudo.
- Sois uma mulher cautelosa, bem vejo, minha querida Sr.a Coquenard - insinuou Porthos, apertando ternamente a mo da procuradora.
- Estamos portanto reconciliados, caro Sr. Porthos? - perguntou ela, requebrando-se.
- Por toda a vida! - respondeu Porthos no mesmo tom.
- Adeus, meu traidor...
- Adeus, minha esquecida.
- At amanh, meu anjo!
- At amanh, chama da minha vida.

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        XXX - MILADY


        D'Artagnan seguira Milady sem ser notado por ela. Viu-a subir para a sua carruagem e ouviu-a dar ao cocheiro ordem de seguir para Saint-Germain.
Era intil tentar seguir a p uma viatura levada a trote por dois cavalos vigorosos. D'Artagnan regressou pois  Rua Frou.
Na Rua de Seine encontrou Planchet parado diante da loja de um pasteleiro e como que extasiado diante de um brioche deveras apetitoso.
Mandou-o ir selar dois cavalos s cavalarias do Sr. de Trville, um para ele, d'Artagnan, outro para ele, Planchet, e de ir ter consigo a casa de Athos (o Sr. de 
Trville pusera definitivamente as suas cavalarias s ordens de d'Artagnan).
Planchet encaminhou-se para a Rua do Colombier e d'Artagnan para a Rua Frou. Athos estava em casa e despejava tristemente uma das garrafas do famoso vinho de Espanha 
que trouxera da sua viagem  Picardia. Fez sinal a Grimaud para trazer um copo para d'Artagnan, e Grimaud obedeceu como de costume.
D'Artagnan contou ento a Athos tudo o que se passara na igreja entre Porthos e a procuradora e como o seu camarada estava provavelmente, quela hora, em vias de 
se equipar.
- Quanto a mim - respondeu Athos, depois de ouvir a histria -, posso estar tranquilo, pois no sero as mulheres que pagaro o meu arns.
- E no entanto, simptico, corts e grande senhor como sois, meu caro Athos, no haveria princesas, nem rainhas que resistissem aos vossos galanteios.
- Como este d'Artagnan  novo! - exclamou Athos, encolhendo os
ombros.
E fez sinal a Grimaud para trazer segunda garrafa.
Neste momento Planchet meteu timidamente a cabea pela porta entreaberta e anunciou ao amo que os dois cavalos estavam ali.
- Quais cavalos? - perguntou Athos.
- Dois que o Sr. de Trville me emprestou para dar uma volta e com os quais vou dar uma volta por Saint-Germain.
- E que ides fazer a Saint-Germain? - voltou a perguntar Athos. Ento d'Artagnan contou-lhe o encontro que tivera na igreja e como
reconhecera a mulher que, com o fidalgo da capa preta e da cicatriz junto da tmpora, era a sua permanente preocupao.
- Quer dizer, estais apaixonado por ela como estivestes pela Sr.a Bonacieux - concluiu Athos, encolhendo desdenhosamente os ombros, como se se compadecesse da fraqueza 
humana.
- Eu? De modo nenhum! - exclamou d'Artagnan. - Tenho apenas curiosidade de desvendar o mistrio em que se envolve. No sei porqu, imagino que essa mulher, por mais 
desconhecida que seja e por mais desconhecido que eu lhe seja, tem qualquer influncia sobre a minha vida.
- Bem vistas as coisas, tendes razo - declarou Athos. - No conheo nenhuma mulher que valha a pena procurar, uma vez perdida. A Sr.a Bonacieux perdeu-se, tanto 
pior para ela! Que se encontre!
- No, Athos, no, enganais-vos - redarguiu d'Artagnan. - Amo a minha pobre Constance mais do que nunca e se soubesse onde ela est, ainda que fosse no cabo do mundo, 
iria arranc-la das mos dos seus inimigos; mas ignoro-o, todas as minhas buscas foram inteis. Que quereis, alguma coisa tenho de fazer para me distrair.
- Distra-vos ento com Milady, meu caro d'Artagnan; desejo-o de todo o corao, se isso for capaz de vos divertir.
- Escutai, Athos: em vez de estardes fechado aqui, como se estivsseis preso, montai a cavalo e vinde passear comigo a Saint-Germain - sugeriu d'Artagnan.
- Meu caro - replicou Athos -, monto os meus cavalos quando os
tenho, seno vou a p.
- Pois eu - respondeu d'Artagnan, sorrindo da misantropia de Athos, que noutro o teria certamente ofendido -, eu que sou menos orgulhoso do que vs, monto o que 
encontro. Portanto, at  vista, meu
caro Athos.
- At  vista - disse o mosqueteiro, fazendo sinal a Grimaud para abrir a garrafa que acabava de trazer.
D'Artagnan e Planchet saltaram para as selas e puseram-se a caminho de Saint-Germain.

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Durante todo o caminho o que Athos dissera acerca da Sr.a Bonacieux no saiu da cabea do jovem. Embora d'Artagnan no fosse muito sentimental, a bonita retroseira 
produzira uma impresso sincera no seu corao. Como dizia, estava pronto a ir ao cabo do mundo para a procurar. Mas o mundo tem muitos cabos, precisamente por ser 
redondo, de modo que no sabia para que lado se virar.
Entretanto, ia procurar saber quem era Milady. Milady falara com o homem da capa preta; portanto, conhecia-o. Ora, no esprito de d'Artagnan fora o homem de capa 
preta quem raptara a Sr.a Bonacieux da segunda vez, exactamente como a raptara da primeira. D'Artagnan s mentia pois metade, o que  mentir muito pouco, quando 
dizia que procurando Milady procurava ao mesmo tempo Constance.
Entregue a estes pensamentos e esporeando de vez em quando o cavalo, d'Artagnan chegara a Saint-Germain. Acabava de seguir ao longo do pavilho onde dez anos mais 
tarde deveria nascer Lus XIV. Atravessava uma rua quase deserta, olhando para a direita e para a esquerda a ver se descobria algum vestgio da sua bela inglesa, 
quando no rs-do-cho de uma bonita casa, que de acordo com o uso da poca no tinha nenhuma janela para a rua, viu aparecer uma cara conhecida. Essa cara passeava 
numa espcie de terrao guarnecido de flores. Planchet foi o primeiro a reconhec-la.
- Eh, senhor! - exclamou dirigindo-se a d'Artagnan. - No vos lembrais daquela cara de parvo?
- No - respondeu d'Artagnan. - E no entanto estou certo de que no  a primeira vez que a vejo...
- Sem dvida nenhuma - disse Planchet. -  o pobre Lubin, o lacaio do conde de Wardes, aquele de quem vos livrastes to bem h um ms em Calais, na estrada da casa 
de campo do governador.
- Ah, sim, sim!... - exclamou d'Artagnan. - Reconheo-o agora. Achas que te ter reconhecido?
- Oh, senhor, ele estava to transtornado que duvido que tenha guardado de mim uma lembrana muito ntida!
- Nesse caso, vai falar com o moo e informa-te durante a conversa se o amo morreu - ordenou d'Artagnan.
Planchet saltou do cavalo, foi direito a Lubin, que de facto o no reconheceu, e os dois lacaios puseram-se a conversar na melhor harmonia do mundo, enquanto d'Artagnan 
levava os dois cavalos para uma ruela e, contornando uma casa, vinha assistir ao paleio atrs de uma sebe de aveleiras.
Ao cabo de um instante de observao atrs da sebe, ouviu o rudo de uma viatura e viu parar defronte de si a carruagem de Milady. No havia erro possvel: Milady 
vinha l dentro. D'Artagnan deitou-se sobre o pescoo do cavalo, a fim de ver tudo sem ser visto.
Milady deitou a cabea loura fora da portinhola e deu umas ordens  sua criada de quarto.
Esta, uma linda rapariga de vinte a vinte e dois anos,

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esperta e viva, autntica criada ladina de grande dama, saltou do estribo, em que vinha sentada segundo o costume da poca, e dirigiu-se para o terrao onde d'Artagnan 
vira Lubin.
D'Artagnan seguiu a criadita com os olhos e viu-a encaminhar-se para o terrao. Mas por acaso uma ordem do interior chamara Lubin, de modo que Planchet ficara sozinho, 
a olhar para todos os lados a ver se descobria por que caminho desaparecera d'Artagnan.
A criada de quarto aproximou-se de Planchet, que tomou por Lubin, e disse-lhe, estendendo-lhe um bilhetinho:
- Para o vosso amo.
- Para o meu amo? - repetiu Planchet, atnito.
- Sim e com muita urgncia. Ide pois depressa.
Em seguida correu para a carruagem, que entretanto dera a volta e ficara virada para o lado donde viera; saltou para o estribo e a carruagem voltou a partir.
Planchet virou e revirou o bilhete; depois, habituado  obedincia passiva, saltou do terrao, meteu pela ruela e encontrou ao fim de vinte passos d'Artagnan, que 
tendo visto tudo vinha ao seu encontro.
- Para vs, senhor - disse Planchet, apresentando o bilhete ao
jovem.
- Para mim? - estranhou d'Artagnan. - Tens a certeza?
- Se tenho a certeza, meu Deus! A criada disse: "Para o vosso amo." Como no tenho outro amo a no serdes vs... Um brinquinho de rapariga, palavra, aquela criadita!
D'Artagnan abriu a carta e leu estas palavras:


Uma pessoa que se interessa por vs mais do que o pode dizer gostaria de saber em que dia estareis em estado de passear na floresta. Amanh, na estalagem do Champ 
du Drap d'Or, um lacaio vestido de preto e vermelho esperar a vossa resposta.


- Oh, oh, aqui est uma coisa curiosa! - exclamou d'Artagnan. - Parece que Milady e eu nos preocupamos com a sade da mesma pessoa. Dize-me, Planchet, como est 
esse bom Sr. de Wardes? No morreu?
- No, senhor, e est to bem quanto pode estar com quatro estocadas no corpo, aquelas que com toda a limpeza destes a esse digno gentil-homem. Encontra-se ainda 
muito fraco, pois perdeu quase todo o sangue. Como disse ao senhor, Lubin no me reconheceu e contou-me toda a aventura de uma ponta  outra.
- Muito bem, Planchet, s o rei dos lacaios; agora, monta a cavalo e apanhemos a carruagem.
No tiveram de correr muito; ao cabo de cinco minutos viram a carruagem parada  beira da estrada; um cavaleiro ricamente vestido estava  portinhola.
A conversa entre Milady e o cavaleiro era to animada que d'Artagnan parou do outro lado da carruagem sem que ningum, alm da bonita criadita, desse pela sua presena.

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Falavam em ingls, lngua que d'Artagnan no compreendia; mas pelo tom o jovem julgou adivinhar que a bela inglesa estava muito encolerizada. Ela terminou com um 
gesto que no deixou quaisquer dvidas acerca da natureza do dilogo: uma pancada de leque aplicada com tal fora que o pequeno artefacto feminino voou em mil pedaos.
O cavaleiro soltou uma gargalhada que pareceu exasperar Milady.
D'Artagnan achou que era o momento de intervir; aproximou-se da outra portinhola e disse, descobrindo-se respeitosamente:
- Senhora, permitis que vos oferea os meus servios? Parece-me que este cavalheiro vos irritou. Dizei uma palavra, senhora, e encarrego-me de o castigar pela sua 
falta de cortesia.
Milady virara-se ao ouvir as primeiras palavras e olhara o jovem com espanto. Quando ele terminou, respondeu-lhe em excelente francs:
- Senhor, com muito prazer me colocaria sob a vossa proteco se a pessoa que discute comigo no fosse meu irmo.
- Ah, desculpai-me ento! - redarguiu d'Artagnan. - Mas como compreendeis ignorava isso, senhora.
- Que quer este intrometido? - perguntou, baixando-se  altura da portinhola, o cavaleiro que Milady designara como seu parente. - Por que no segue o seu caminho?
- Intrometido sois vs - redarguiu d'Artagnan, baixando-se por seu turno sobre o pescoo do cavalo e respondendo do seu lado atravs da portinhola. - No sigo o 
meu caminho porque me apraz parar aqui.
O cavaleiro dirigiu algumas palavras em ingls  irm.
- Falei-vos em francs - interveio d'Artagnan. - Dai-me portanto o prazer, peo-vos, de me responder na mesma lngua. Sois irmo da senhora; seja! Mas no sois meu, 
felizmente.
Julgar-se-ia que Milady, medrosa como  habitualmente uma mulher, se fosse interpor neste comeo de provocao, a fim de impedir que a questo fosse mais longe; 
mas, muito pelo contrrio, recostou-se na carruagem e gritou friamente ao cocheiro:
- Para o palcio!
A bonita criadinha lanou um olhar inquieto a d'Artagnan, cujo rosto simptico parecia ter produzido o seu efeito sobre ela.
A carruagem partiu e deixou os dois homens diante um do outro, sem que qualquer obstculo material os separasse.
O cavaleiro fez um movimento para seguir a carruagem; mas d'Artagnan, cuja clera j a ferver aumentara ainda mais ao reconhecer no ingls aquele que em Amiens lhe 
ganhara o cavalo e quase ganhara a Athos o seu diamante, saltou-lhe s rdeas e deteve-o.
- Ento, senhor, pareceis com mais pressa de vos irdes embora do que eu, como se no houvesse entre ns uma pequena questo a resolver.
- Ah, ah! - exclamou o ingls. - Quereis ento dar-me lies? Pelos vistos, tendes sempre de desempenhar um papel...
-  verdade, e isso recorda-me que tenho uma desforra a tirar.

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Veremos, meu caro senhor, se manejais to habilmente a espada como o copo de dados.
- Bem vedes que no trago espada - declarou o ingls. - Quereis armar em valente contra um homem sem armas?
- Espero que as tenhais em casa - replicou d'Artagnan. - Em todo o caso, tenho duas e se quiserdes emprestar-vos-ei uma.
- Intil - recusou o ingls. - Estou suficientemente fornecido dessa espcie de utenslios.
- Ento, meu digno gentil-homem - prosseguiu d'Artagnan - escolhei a mais comprida e vinde mostrar-ma esta tarde.
- Onde, por favor?
- Atrs do Luxemburgo h um stio encantador para os passeios do gnero do que vos proponho.
- Est bem, seja a.
- A vossa hora?
- Seis horas.
- A propsito, tambm tendes provavelmente um ou dois amigos?
- Tenho trs que se sentiro muito honrados em jogar a mesma partida que eu.
- Trs? Maravilhoso! Que coincidncia,  precisamente a minha conta! - declarou d'Artagnan.
- Agora, quem sois? - perguntou o ingls.
- Sou o Sr. d'Artagnan, gentil-homem gasco em servio nas Guardas, companhia do Sr. dos Essarts. E vs?
- Eu sou Lorde Winter, baro de Sheffield.
- Sou um vosso criado, Sr. Baro, embora tenhais nomes muito difceis de reter - disse d'Artagnan.
E esporeando o cavalo meteu-o a galope e retomou o caminho de Paris.
Como era seu hbito em semelhantes ocasies, d'Artagnan foi direito a casa de Athos.
Encontrou Athos deitado num grande canap, onde esperava, como dissera, que o seu equipamento o viesse procurar.
Contou a Athos tudo o que acabava de se passar, excepto a carta do Sr. de Wardes.
Athos ficou encantado quando soube que se ia bater contra um ingls. J dissemos que esse era o seu sonho.
Mandaram chamar imediatamente Porthos e Aramis pelos lacaios e puseram-nos ao corrente da situao.
Porthos desembainhou a espada e ps-se a esgrimir contra a parede, recuando de vez em quando e flectindo os joelhos como um bailarino. Aramis, que continuava a trabalhar 
no seu poema, fechou-se no gabinete de Athos e pediu que no o incomodassem antes do momento de desembainhar.
Athos pediu por sinais uma garrafa a Grimaud.
Quanto a d'Artagnan traou s para consigo um planozinho,

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que veremos mais tarde em execuo, e que lhe prometia alguma aventura engraada, como se podia deduzir pelos sorrisos que de vez em quando lhe passavam pelo rosto, 
cujo devaneio iluminavam.


        XXXI - INGLESES E FRANCESES


         hora combinada dirigiram-se com os quatro lacaios para trs do Luxemburgo, um recinto abandonado s cabras. Athos deu uma moeda ao cabreiro para que se 
retirasse. Os lacaios foram encarregados de montar sentinela.
No tardou a aproximar-se do recinto um grupo silencioso, que entrou e se juntou aos mosqueteiros; depois, de acordo com os hbitos de alm-mar, sucederam-se as 
apresentaes.
Os ingleses eram todos pessoas da mais alta categoria, para quem os nomes extravagantes dos seus adversrios foram motivo no s de surpresa, mas tambm de inquietao.
- Mas assim - declarou Lorde de Winter, depois de os trs amigos se apresentarem - No sabemos quem sois e no nos bateremos com semelhantes nomes; isso so nomes 
de pastores!
- Por isso, como muito bem calculastes, milorde, so nomes falsos - respondeu Athos.
- O que s contribuir para que tenhamos um grande prazer em conhecer os vossos verdadeiros nomes - redarguiu o ingls.
- Jogastes contra ns sem nos conhecerdes - lembrou Athos -, o que vos no impediu de ganhardes os nossos dois cavalos...
-  certo, mas nesse caso arriscvamos apenas as nossas pistolas; desta vez, arriscamos o nosso sangue: joga-se com toda a gente, s se luta com iguais.
-  justo - admitiu Athos.
Chamou  parte aquele dos quatro ingleses com quem se devia bater e disse-lhe o seu nome em voz baixa. Porthos e Aramis fizeram outro tanto.
- Basta-vos? - perguntou Athos ao seu adversrio. - Achais-me suficiente grande senhor para me concederdes a merc de cruzar a espada comigo?
- Sim, senhor - respondeu o ingls, inclinando-se.
- E agora quereis que vos diga uma coisa? - perguntou Athos, friamente.
- Qual? - volveu-lhe o ingls.
- Que tereis feito bem em no exigir que me desse a conhecer.
- Porqu?

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- Porque me julgam morto, porque tenho razes para desejar que se no saiba que estou vivo e porque vou ser obrigado a matar-vos para que o meu segredo no seja 
revelado.
O ingls olhou Athos, julgando que este gracejava; mas Athos no gracejava de forma alguma.
- Senhores - disse dirigindo-se simultaneamente aos seus companheiros e aos seus adversrios -, estais prontos?
- Estamos - responderam em unssono ingleses e franceses.
- Ento, em guarda - comandou Athos.
Imediatamente oito espadas brilharam aos raios do sol poente e o combate comeou com um encarniamento muito natural entre pessoas duas vezes inimigas.
Athos esgrimia com tanta calma e mtodo como se estivesse numa sala de armas.
Porthos, emendado sem dvida da sua excessiva confiana desde a sua aventura de Chantilly, aplicava-se com muita finura e prudncia.
Aramis, que tinha o terceiro canto do seu poema para acabar, despachava-se como homem cheio de pressa.
Athos, o primeiro a acabar, matou o seu adversrio: vibrou-lhe apenas uma estocada, mas, como o prevenira, foi uma estocada mortal; a espada atravessou-lhe o corao.
Porthos, o segundo, estendeu o seu na erva, com uma estocada numa coxa; e como o ingls, sem opor mais resistncia, lhe entregou a espada, Porthos tomou-o nos braos 
e levou-o para a sua carruagem.
Aramis atacou o seu to energicamente que depois de recuar uns cinquenta passos o ingls acabou por se pr em fuga, com tanta rapidez quanta lhe permitiam as pernas, 
e por desaparecer, no meio da assuada dos lacaios.
Quanto a d'Artagnan, entregara-se pura e simplesmente a um jogo defensivo; depois, quando vira o seu adversrio bem cansado, fizera-lhe saltar a espada com um vigoroso 
golpe de ilharga. Vendo-se desarmado, o baro deu dois ou trs passos  retaguarda; mas escorregou e caiu de costas.
D'Artagnan caiu sobre ele num s salto, colocou-lhe a espada na garganta e disse ao ingls:
- Poderia matar-vos, senhor, pois estais completamente nas minhas mos, mas concedo-vos a vida por amor da vossa irm.
D'Artagnan no cabia em si de contente; acabava de pr em prtica o plano que imaginara antecipadamente e cujo desenvolvimento lhe fizera despontar no rosto os sorrisos 
de que falmos.
Encantado por ter lutado com um gentil-homem to compreensivo, o ingls abraou d'Artagnan, cumulou de amabilidades os trs mosqueteiros e como o adversrio de Porthos 
estava j instalado na carruagem e o de Aramis dera s de vila-diogo, pensou-se apenas no defunto. Como Porthos e Aramis o despissem, na esperana de que o ferimento 
no fosse mortal,

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caiu-lhe do cinturo uma volumosa bolsa. D'Artagnan apanhou-a e estendeu-a a Lorde de Winter.
- Que diabo quereis que faa disso? - perguntou o ingls.
- Entregai-a  sua famlia - respondeu d'Artagnan.
- A famlia no se interessa por essa misria, herda quinze mil luzes de rendimento. Guardai a bolsa para os vossos lacaios.
D'Artagnan meteu a bolsa na algibeira.
- E agora, meu jovem amigo, porque espero que me permitais dar-vos este ttulo - disse Lorde de Winter -, esta noite, se quiserdes, apresentar-vos-ei a minha irm, 
Lady Clarick. Quero que vos tome sob a sua proteco e como no  totalmente destituda de corao talvez no futuro uma palavra dita por ela vos seja til...
D'Artagnan corou de prazer e inclinou-se em sinal de assentimento. Entretanto, Athos aproximara-se de d'Artagnan.
- Que tencionais fazer dessa bolsa? - perguntou-lhe ao ouvido.
- Tencionava entregar-vo-la, meu caro Athos.
- A mim? Porqu?
- Demnio, fostes vs que o matastes: so os despojos opimos.
- Eu, herdeiro de um inimigo?! - redarguiu Athos. - Por quem me tomais?
-  o costume na guerra - lembrou d'Artagnan. - Por que no h-de ser o costume num duelo?
- Mesmo no campo de batalha, nunca fiz isso - respondeu Athos. Porthos encolheu os ombros. Aramis, com um trejeito de lbios,
aprovou Athos.
- Ento - disse d'Artagnan -, demos o dinheiro aos lacaios, como Lorde Winter nos disse que fizssemos.
- Sim - concordou Athos -, demos a bolsa, no aos nossos lacaios, mas sim aos lacaios ingleses.
Athos pegou na bolsa e atirou-a para a mo do cocheiro:
- Para vs e para os vosos camaradas.
Esta grandeza de maneiras num homem inteiramente carecido de meios impressionou o prprio Porthos, e semelhante generosidade francesa, espalhada por Lorde de Winter 
e pelo amigo, teve por toda a parte um grande xito, excepto junto dos Srs. Grimaud, Mousqueton, Planchet e Bazin.
Ao despedir-se de d'Artagnan, Lorde de Winter deu-lhe o endereo da irm; morava na Praa Royale, que era ento o bairro da moda, no nmero 6. Alis comprometeu-se 
a vir busc-lo para o apresentar. D'Artagnan marcou-lhe encontro s oito horas, em casa de Athos.
Ser apresentado a Milady era coisa que no saa da cabea do nosso gasco. Recordara-se de que forma estranha aquela mulher estivera at ali relacionada com o seu 
destino. Segundo a sua convico, tratava-se de alguma criatura do cardeal, e no entanto sentia-se irresistivelmente atrado para ela, por um desses sentimentos 
de que no nos damos conta.

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O seu nico receio era que Milady reconhecesse nele o homem de Meung e de Dover. Saberia ento que era amigo do Sr. de Trville e por conseguinte que pertencia de 
corpo e alma ao rei, o que desde logo lhe faria perder parte das suas vantagens, uma vez que, conhecido de Milady como ela o conhecia, jogaria com ela de igual para 
igual. Quanto quele comeo de intriga entre ela e o conde de Wardes, o nosso presunoso pouco se preocupava com isso, embora o conde fosse jovem, belo, rico e estivesse 
a caminho de se tornar deveras benquisto do cardeal O que no quer dizer nada para quem conta vinte anos, e sobretudo para quem nasceu em Tarbes.
D'Artagnan comeou por ir para casa vestir-se a preceito; depois, regressou a casa de Athos e, conforme o seu costume, contou-lhe tudo. Athos escutou-lhe os projectos; 
em seguida, abanou a cabea e recomendou-lhe prudncia com uma espcie de amargura.
- Homessa! - observou-lhe. - Acabais de perder uma mulher que dizeis boa, encantadora, perfeita e j correis atrs doutra?
D'Artagnan sentiu quanto esta censura era verdadeira.
- Amava a Sr.a Bonacieux com o corao, ao passo que amo Milady com a cabea - respondeu. - Entrando em sua casa procuro sobretudo esclarecer-me acerca do papel 
que desempenha na corte.
- O papel que desempenha, meu Deus! No  difcil de adivinhar depois de tudo o que me dissestes.  alguma emissria do cardeal; uma mulher que vos atrair a uma 
cilada onde certamente deixareis a cabea.
- Diabo, meu caro Athos, vedes as coisas muito pelo lado negro, parece-me!
- Meu caro, desconfio das mulheres... Que quereis, tenho motivos para isso! E sobretudo das mulheres louras. Ora, Milady  loura, no foi o que me dissestes?
- Tem os cabelos do mais belo louro que se possa imaginar.
- Ah, meu pobre d'Artagnan! - exclamou Athos.
- Escutai, quero elucidar-me; quando souber o que desejo saber, afastar-me-ei.
- Pois sim, elucidai-vos - concluiu fleumaticamente Athos. Lorde de Winter chegou  hora marcada, mas Athos, prevenido a
tempo, passou para a segunda diviso. Encontrou portanto d'Artagnan sozinho e como eram cerca de oito horas saiu imediatamente com o jovem.
Esperava-os em baixo uma carruagem elegante, e como estava atrelada a dois excelentes cavalos chegaram num instante  Praa Royale.
Milady Clarick recebeu graciosamente d'Artagnan. O seu palcio era de uma sumptuosidade notvel; e embora a maioria dos ingleses, expulsos pela guerra, deixassem 
a Frana ou estivessem prestes a deix-la, Milady acabava de mandar fazer novos melhoramentos, o que provava que a medida geral que expulsava os ingleses a no atingia.
- Aqui tendes - disse Lorde de Winter apresentando d'Artagnan  irm -, um jovem gentil-homem que teve a minha vida nas suas mos e no quis abusar das suas vantagens,

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embora fssemos duplamente inimigos, quer por ter sido eu que o insultei, quer porque sou ingls. Agradecei-lhe portanto, senhora, se tendes alguma amizade por mim. 
Milady franziu levemente o sobrolho; uma nuvem quase invisvel passou-lhe pela testa e apareceu-lhe nos lbios um sorriso de tal modo estranho que o jovem, ao ver 
aquele triplo matiz, teve como que um arrepio.
O irmo no viu nada; virara-se para brincar com o macaco favorito de Milady, que o puxava pelo gibo.
- Sede bem-vindo, senhor - disse Milady numa voz cuja doura singular contrastava com os sinais de mau humor que d'Artagnan acabava de notar. - Adquiristes hoje 
direitos eternos ao meu reconhecimento.
O ingls virou-se ento e contou o combate sem omitir nenhum pormenor. Milady escutou-o com a maior ateno; no entanto, via-se facilmente o esforo que fazia para 
ocultar as suas impresses e que o relato lhe no era agradvel. O sangue subia-lhe  cara e o seu pezinho agitava-se impacientemente debaixo do vestido.
Lorde de Winter no reparou em nada. Quando acabou aproximou-se de uma mesa onde estavam servidos numa bandeja uma garrafa de vinho de Espanha e copos. Encheu dois 
e com um sinal convidou d'Artagnan a beber.
D'Artagnan sabia que a melhor maneira de ofender um ingls era recusar beber com ele. Aproximou-se portanto da mesa e pegou no segundo copo. Contudo, no perdeu 
de vista Milady e notou no vidro a mudana que se operara no seu rosto. Agora que julgava no ser vista, animava-lhe a fisionomia um sentimento muito semelhante 
 ferocidade e mordia o leno com raiva.
Entrou ento a bonita criadinha que d'Artagnan j vira; disse algumas palavras em ingls a Lorde de Winter e este pediu imediatamente licena a d'Artagnan para se 
retirar, desculpando-se com a urgncia do assunto que o chamava e encarregando a irm de obter o seu perdo. D'Artagnan trocou um aperto de mo com Lorde de Winter 
e voltou para junto de Milady. O rosto da mulher, dotado de uma mobilidade surpreendente, recuperara a sua expresso graciosa; apenas algumas manchazinhas vermelhas 
espalhadas pelo leno indicavam que mordera os lbios at sangrarem.
Eram uns lbios magnficos, que dir-se-iam de coral. A conversa tomou cariz animado. Milady parecia ter-se recomposto por completo. Contou que Lorde de Winter era 
apenas seu cunhado e no seu irmo. Ela casara com um filho segundo que a deixara viva com um filho. Esse filho era o nico herdeiro de Lorde de Winter, desde que 
Lorde de Winter se no casasse. Tudo isto revelava a d'Artagnan um vu que envolvia qualquer coisa, mas que ainda no distinguia o que fosse.
De resto, passada meia hora de conversa, d'Artagnan estava convencido de que Milady era sua compatriota: falava o francs com uma pureza e uma elegncia que no 
deixavam nenhuma dvida a tal respeito.
D'Artagnan desfez-se em tiradas galantes e em protestos de dedicao. Milady sorriu com benevolncia de todas as tolices que escaparam ao nosso gasco. Chegou a 
hora de se retirar. D'Artagnan despediu-se de Milady e saiu do salo o mais feliz dos homens.
Na escada encontrou a bonita criadinha, que roou por ele levemente e, corada at  raiz dos cabelos, lhe pediu perdo por lhe ter tocado, numa voz to meiga que 
o perdo lhe foi concedido imediatamente.
D'Artagnan voltou no dia seguinte e foi recebido ainda melhor do que na vspera. Lorde de Winter no estava e foi Milady quem lhe fez desta vez todas as honras da 
noite. Pareceu tomar grande interesse por ele, perguntou-lhe donde era, quem eram os seus amigos e se no pensara nenhuma vez em entrar ao servio do Sr. Cardeal.
D'Artagnan, que como sabemos era bastante prudente para um rapaz de vinte anos, recordou-se ento das suas suspeitas acerca de Milady; fez-lhe um grande elogio de 
Sua Eminncia e disse-lhe que no deixaria de entrar para as guardas do cardeal, em vez de entrar para as do rei, se tivesse conhecido, por exemplo, o Sr. de Cavois 
em vez de conhecer o Sr. de Trville.
Milady mudou de assunto sem afectao alguma e perguntou a d'Artagnan, da forma mais descontrada do mundo, se nunca fora a Inglaterra.
D'Artagnan respondeu que fora l mandado pelo Sr. de Trville para tratar de uma remonta de cavalos e que at trouxera quatro como amostra.
No decurso da conversa, Milady contraiu duas ou trs vezes os lbios: enfrentava um gasco que jogava com a cabea.
D'Artagnan retirou-se  mesma hora da vspera. No corredor voltou a encontrar a bonita Ketty - assim se chamava a criadita -, que o olhou com uma expresso de misteriosa 
benevolncia, uma expresso que no enganava ningum. Mas d'Artagnan estava to preocupado com a ama que no tinha olhos para mais ningum.
D'Artagnan voltou a casa de Milady no dia seguinte e dois dias depois, e de todas as vezes Milady lhe dispensou acolhimento mais gracioso.
Todas as vezes tambm, quer na antecmara, quer no corredor, quer na escada, encontrou a bonita criadinha.
Mas como j dissemos d'Artagnan no prestava nenhuma ateno  persistncia da pobre Ketty.

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        XXXII - UM JANTAR DE PROCURADOR


        Entretanto, o duelo em que Porthos tivera papel to brilhante no lhe fizera esquecer o jantar para que o convidara a mulher do procurador. No dia seguinte, 
por volta da uma hora e depois de uma ltima escovadela de Mousqueton, dirigiu-se para a Rua dos Ursos com o passo de um homem duplamente afortunado.
O seu corao palpitava, mas no era, como o de d'Artagnan, de juvenil e impaciente amor. No, um interesse mais material fustigava-lhe o sangue: ia finalmente transpor 
o limiar misterioso, subir a escada desconhecida que tinha trepado um a um os velhos escudos de mestre Coquenard.
Ia ver da realidade certo cofre cuja imagem vira vinte vezes nos seus sonhos; cofre de forma comprida e profunda, fechado a cadeado, aferrolhado, pregado ao cho; 
cofre que ouvira tantas vezes falar e que as mos um pouco magras,  certo, mas no sem elegncia da procuradora iam abrir aos seus olhos admiradores.
E depois ele, o homem errante sobre a terra, o homem sem fortuna, o homem sem famlia, o soldado habituado s estalagens, aos botequins, s tabernas, s pousadas, 
o gastrnomo obrigado na maior parte das vezes a contentar-se com a comida das casas de pasto de acaso, ia provar comida caseira, desfrutar um interior confortvel 
e beneficiar desses pequenos cuidados que, quanto mais duros somos, mais nos agradam, como dizem os velhos soldados.
Vir como primo sentar-se todos os dias a uma boa mesa, desenrugar a fronte plida e franzida do velho procurador, depender um pouco os jovens amanuenses ensinando-lhes 
a bassette, o passadez e o lansquen nas suas mais finas prticas, e ganhando-lhes como se fossem honorrios, pela lio que lhes daria numa hora, as suas economias 
de um ms, tudo isto sorria enormemente a Porthos.
O mosqueteiro lembrava-se bem de ter ouvido aqui e ali as palavras nada abonatrias que corriam na poca acerca dos procuradores, e que lhes sobreviveram -a sovinice, 
o mau passadio, os dias de jejum-, mas como no fim de contas, exceptuando alguns acessos de economia que Porthos achara sempre muito intempestivos, encontrara a 
procuradora bastante liberal (para uma procuradora, bem entendido), esperou deparar com uma casa razoavelmente abastada.
No entanto,  porta, o mosqueteiro teve algumas dvidas, pois o ambiente no tinha nada que atrasse as pessoas: patamar malcheiroso e escuro, escada mal iluminada 
por janelas gradeadas atravs das quais se coava a claridade baa de um ptio vizinho; no primeiro andar, uma porta baixa e guarnecida de pregos enormes, como a 
porta principal do Grand-Chtelet.
Porthos bateu com o dedo; um amanuense alto e plido, escondido numa floresta de cabelos virgens, veio abrir e cumprimentou-o com o ar de um homem obrigado a respeitar 
ao mesmo tempo noutro a alta estatura que indica fora, o uniforme que indica o estado e o rosto rubicundo que indica o hbito de viver bem.
Outro amanuense mais pequeno atrs do primeiro, outro amanuense maior atrs do segundo, moo de cartrio de doze anos atrs do terceiro.
Ao todo, trs amanuenses e meio; o que para a poca denotava um cartrio dos mais afreguesados.
Embora o mosqueteiro s devesse chegar  uma hora, desde o meio-dia que a procuradora andava de olho  espreita e contava com o corao, e talvez tambm com o estmago, 
do seu adorador para o levar a antecipar a chegada.
A Sr.a Coquenard chegou portanto pela porta do apartamento quase ao mesmo tempo que o seu convidado chegava pela porta da escada, e a apario da digna senhora tirou-o 
de um grande embarao. Os amanuenses tinham olhos curiosos, e ele, no sabendo muito bem que dizer quela escala ascendente e descendente, permanecia mudo e quedo.
-  o meu primo! - exclamou a procuradora. - Entrai, entrai, Sr. Porthos.
O nome de Porthos produziu o seu efeito sobre os amanuenses, que desataram a rir; mas Porthos virou-se e todas as caras recuperaram a sua gravidade.
Chegaram ao gabinete do procurador depois de atravessarem a antecmara onde estavam os amanuenses e o cartrio onde deveriam estar. Esta ltima diviso era uma espcie 
de sala negra recheada de papelada. Saindo do cartrio deixaram a cozinha  direita e entraram na sala de recepo.
Todas estas divises, que comunicavam umas com as outras, no inspiraram a Porthos boas ideias. As palavras deviam ouvir-se longe atravs de todas aquelas portas 
abertas; depois, ao passar, deitara um olhar rpido e investigador  cozinha, e confessava para consigo mesmo, para vergonha da procuradora e seu grande pesar, que 
no vira o fogo, a animao, o movimento que na altura de uma boa refeio reinam habitualmente nesse santurio da gastronomia.
O procurador fora sem dvida prevenido da visita, porque no demonstrou nenhuma surpresa ao ver Porthos, que foi ao seu encontro com ar bastante descontrado e o 
cumprimentou cortesmente.
- Somos primos, ao que parece, no  verdade, Sr. Porthos? - disse o procurador, levantando-se  fora de braos do seu cadeiro de cana.
O velho, metido num grande gibo preto onde se lhe perdia o corpo franzino, tinha rosto macilento e magro; mas os seus olhinhos cinzentos brilhavam como carbnculos 
e pareciam, com a sua boca escarninha, a nica parte da cara donde a vida lhe no fugira. Infelizmente, as pernas comeavam a recusar servir

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toda aquela carga de ossos. Desde que havia cinco ou seis meses aquele enfraquecimento se fizera sentir, o digno procurador tornara-se pouco a pouco escravo da mulher.
O primo foi aceite com resignao e mais nada. Noutras circunstncias, mestre Coquenard teria declinado qualquer parentesco com o Sr. Porthos.
- Sim, senhor, somos primos - confirmou Porthos, sem se desconcertar, e que de resto nunca esperara ser recebido pelo marido com entusiasmo.
- Pelo lado das mulheres, creio? - acrescentou maliciosamente o procurador.
Porthos no notou a zombaria e tomou-a por uma ingenuidade de que riu por baixo do seu bigode farfalhudo. Mas a Sr.a Coquenard, que sabia que procuradores ingnuos 
eram uma variedade muitssimo rara na espcie, sorriu um pouco e corou muito.
Desde a chegada de Porthos que mestre Coquenard olhava com inquietao para um grande armrio colocado defronte da sua secretria de carvalho. Porthos adivinhou 
que aquele armrio, embora no correspondesse pela forma ao que vira nos seus sonhos, devia ser o ditoso cofre e congratulou-se por a realidade ter mais seis ps 
de altura do que o sonho.
Mestre Coquenard no levou mais longe as suas investigaes genealgicas, mas desviando o olhar inquieto do armrio para Porthos limitou-se a dizer:
- Antes de partir para o campo, o senhor nosso primo conceder-nos- a merc de jantar uma vez connosco, no  verdade, Sr.a Coquenard?...
Desta feita, Porthos recebeu o golpe em pleno estmago e sentiu-o; e parece que da sua parte a Sr.a Coquenard tambm lhe no ficou insensvel, pois acrescentou:
- O meu primo no voltar se achar que o tratamos mal; mas no caso contrrio, tem to pouco tempo para passar em Paris e consequentemente para nos ver que mal nos 
ficaria no lhe pedirmos que passasse connosco quase todos os instantes de que possa dispor at  sua partida.
- Oh, as minhas pernas, as minhas pobres pernas! Onde estais? - murmurou Coquenard.
E tentou sorrir.
O auxlio que recebera no momento em que vira atacadas as suas esperanas gastronmicas inspirou ao mosqueteiro muito reconhecimento para com a sua procuradora.
No tardou a chegar a hora do jantar. Passaram  sala respectiva, grande diviso escura situada defronte da cozinha.
Os amanuenses que, segundo parecia, tinham sentido na casa perfumes inacostumados, eram de uma pontualidade militar e seguravam nas mos os seus bancos, prontinhos 
para se sentarem. Entretanto, movimentavam os maxilares com intenes aterradoras.

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"Meu Deus", pensou Porthos, deitando uma olhadela aos trs famintos, porque o moo de cartrio no era, como se calcula, admitido s honras da mesa magistral; "meu 
Deus, no lugar do meu primo no conservaria semelhantes comiles. Parecem nufragos que no comem h seis semanas!"
Mestre Coquenard entrou, empurrado na sua cadeira de rodas pela Sr.a Coquenard, a quem Porthos se apressou a ajudar a levar o marido at  mesa.
Mal entrou, agitou o nariz e os maxilares, a exemplo dos seus amanuenses.
- Oh, oh! - exclamou. - Aqui est uma sopa tentadora! "Que diabo acharo eles de extraordinrio na sopa?", perguntou Porthos aos seus botes, perante o aspecto de 
um caldo magro, abundante mas perfeitamente intragvel, no qual boiavam algumas cdeas to raras como as ilhas de um arquiplago.
A Sr.a Coquenard sorriu e a um sinal seu toda a gente se sentou apressadamente.
Mestre Coquenard foi o primeiro a ser servido e depois Porthos; em seguida, a Sr.a Coquenard encheu o seu prato e distribuiu as cdeas sem caldo pelos amanuenses 
impacientes.
Neste momento a porta da sala de jantar abriu-se por si mesma, chiando, e atravs dos batentes entreabertos Porthos viu o moo de cartrio que, no podendo participar 
no festim, comia o po com o duplo cheiro da cozinha e da sala de jantar.
Depois da sopa a criada trouxe uma galinha cozida, magnificncia que dilatou as plpebras dos convivas, de tal forma que pareciam prestes a rasgar-se.
- V-se que gostais da vossa famlia, Sr.a Coquenard - comentou o procurador com um sorriso quase trgico. - Trata-se sem dvida de uma cortesia que tendes para 
com o vosso primo.
Mas a pobre galinha era magra e estava revestida de uma dessas grossas peles arrepiadas que os ossos nunca conseguem furar, apesar dos seus esforos. Deviam-na ter 
procurado durante muito tempo antes de a encontrarem no poleiro para onde se retirara a fim de morrer de velhice.
"Diabo, que coisa to triste!", pensou Porthos. "Respeito a velhice, mas ligo-lhe pouca importncia cozida ou assada."
Olhou  sua volta para ver se a sua opinio era compartilhada; mas ao contrrio do que acontecia consigo s viu olhos chamejantes, que devoravam antecipadamente 
a sublime galinha alvo do seu desprezo.
A Sr.a Coquenard puxou a travessa para si e trinchou habilmente as duas grandes patas negras, que colocou no prato do marido; cortou o pescoo, que ps de parte, 
juntamente com a cabea, para si mesma; tirou uma asa para Porthos, e entregou  criada que acabara de o trazer, o animal quase intacto, que voltou para a cozinha 
antes de o mosqueteiro ter tempo de examinar as variaes que a decepo provoca nos rostos, consoante os caracteres e os temperamentos daqueles que a experimentam.

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Em vez da galinha, veio de volta uma travessa de favas, travessa enorme na qual alguns ossos de carneiro, que  primeira vista se poderia crer acompanhados de carne, 
fingiam mostrar-se.
Mas os amanuenses no se deixaram cair no logro e os rostos lgubres transformaram-se em caras resignadas.
A Sr.a Coquenard distribuiu este "manjar" aos jovens com a moderao de uma boa dona de casa.
Chegou a vez do vinho. Mestre Coquenard deitou de uma garrafinha de barro a tera parte de um copo a cada um dos rapazes, serviu-se a si mesmo de quantidade idntica 
e a garrafa passou imediatamente para o lado de Porthos e da Sr.a Coquenard.
Os amanuenses deitavam dois teros de gua no tero de vinho e depois de beberem metade do copo voltavam a ench-lo de gua, e assim sucessivamente, o que os levava, 
no fim da refeio, a tomar uma bebida que da cor do rubi passara para a do topzio queimado.
Porthos comeu timidamente a sua asa de galinha e estremeceu quando sentiu por baixo da mesa o joelho da procuradora, que acabava de encontrar o dele. Bebeu tambm 
meio copo daquele vinho to parcamente distribudo, que reconheceu ser da horrvel colheita de Montreuil, o terror dos paladares requintados.
Mestre Coquenard viu-o beber o seu vinho puro e suspirou.
- Quereis favas, primo Porthos? - perguntou a Sr.a Coquenard, no tom de quem quer dizer: "Acreditai em mim, no comais."
- Macacos me mordam se lhes puser o dente! - murmurou Porthos.
E depois, em voz alta:
- Obrigado, prima, mas j no tenho fome.
Fez-se silncio. Porthos no sabia que atitude tomar. O procurador repetiu vrias vezes:
- Ah, Sr.a Coquenard, dou-vos os meus cumprimentos, o vosso jantar foi um autntico festim! Meu Deus, o que eu comi!
Mestre Coquenard comera a sua sopa, as patas negras da galinha e chupara o nico osso de carneiro onde havia um pouco de carne.
Porthos julgou que o mistificavam e comeou a cofiar o bigode e a franzir o sobrolho; mas o joelho da Sr.a Coquenard veio muito suavemente aconselhar-lhe pacincia.
O silncio e a interrupo do servio, ininteligveis para Porthos, tinham pelo contrrio um significado terrvel para os amanuenses: a um olhar do procurador, acompanhado 
de um sorriso da Sr.a Coquenard, levantaram-se lentamente da mesa, dobraram os guardanapos mais lentamente ainda, cumprimentaram e saram.
- Ide, rapazes, ide fazer a digesto trabalhando - disse gravemente o procurador.
Assim que os amanuenses saram, a Sr.a Coquenard levantou-se e tirou de um aparador um bocado de queijo, marmelada e um bolo que ela prpria fizera com amndoas 
e mel.
Mestre Coquenard franziu o sobrolho, porque j lhe parecia demasiada comida; Porthos contraiu os lbios, pois verificava que no havia afinal com que jantar.
Olhou a ver se a travessa de favas ainda estava na mesa, mas a travessa das favas desaparecera.
- Um festim, decididamente! - exclamou mestre Coquenard, agitando-se na cadeira. - Um autntico festim, epulae epularum; Lculo janta em casa de Lculo.
Porthos olhou a garrafa, que estava perto de si, e pensou que com vinho, po e queijo jantaria; mas no havia vinho, a garrafa estava vazia, e nem o Sr. nem a Sr.a 
Coquenard pareceram dar por isso.
"Bom, estou prevenido....., disse Porthos para consigo.
Passou a lngua por uma colherzinha de marmelada e enviscou os dentes na massa peganhenta do bolo da Sr.a Coquenard.
"Pronto, est consumado o sacrifcio", pensou. "Ah, se no fosse a esperana de ver com a Sr.a Coquenard o que contm o armrio do marido!..."
Depois das delcias de semelhante repasto, a que chamava um excesso, mestre Coquenard experimentou a necessidade de dormir a sua soneca. Porthos esperava que a coisa 
fosse imediata e ali mesmo; mas o maldito procurador no esteve pelos ajustes: foi preciso conduzi-lo ao seu quarto e no se calou enquanto o no puseram diante 
do seu armrio, no rebordo do qual, para melhor precauo, colocou os ps.
A procuradora levou Porthos para um quarto contguo e comeou a estabelecer as bases da reconciliao.
- Podeis vir jantar trs vezes por semana - disse a Sr.a Coquenard.
- Obrigado, mas no gosto de abusar - respondeu Porthos. - De resto, tenho de tratar do meu equipamento.
-  verdade... - gemeu a procuradora. - Maldito equipamento!
- A quem o dizeis! - secundou-a Porthos.
- Mas de que se compe o equipamento da vossa unidade, Sr. Porthos?
- De muitas coisas. Como sabeis, os mosqueteiros so soldados de elite e precisam de muitos objectos inteis aos guardas e aos suos.
- Pois sim, mas pormenorizai-o.
- Ao todo pode ir a... - comeou Porthos, que preferia discutir o total em vez das parcelas.
- A quanto? - interrompeu-o ela. - Espero que no exceda... Deteve-se; faltavam-lhe as palavras.
- Oh, no, no excede duas mil e quinhentas libras! - redarguiu Porthos. - Creio at que com alguma economia me chegaro duas mil libras.

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- Meu Deus, duas mil libras! - exclamou a mulher. - Mas  uma fortuna!
Porthos fez uma careta das mais significativas; a Sr.a Coquenard compreendeu-a.
- Pedi que pormenorizsseis o equipamento porque como tenho muitos parentes e clientes no comrcio estou quase certa de obter as coisas por cem por cento menos do 
que vs prprio pagareis.
- Ah! ah! - exclamou Porthos. - Era ento isso que quereis dizer...
- Sim, caro Sr. Porthos. Em primeiro lugar, no precisais de um cavalo?
-  verdade, preciso de um cavalo.
- Pois tenho justamente o que vos convm.
- Portanto, quanto a cavalo, estamos arrumados! - exclamou Porthos, radiante. - Em seguida preciso de um equipamento completo, que se compe de objectos que s um 
mosqueteiro pode comprar e que no ir alm, alis, de trezentas libras.
- Trezentas libras... Pnhamos ento trezentas libras - acedeu a procuradora, suspirando.
Porthos sorriu: o leitor lembra-se de que tinha a sela que recebera de Buckingham; eram portanto trezentas libras que contava meter sorrateiramente na algibeira.
- Depois - continuou -, h o cavalo do meu lacaio e a minha mala. Quanto s armas, escusais de vos preocupar: tenho-as.
- Um cavalo para o vosso lacaio?... - repetiu, hesitante, a procuradora. - Mas isso  coisa de grande senhor, meu amigo!
- E ento, senhora, sou por acaso algum labrego? - redarguiu orgulhosamente Porthos.
- No! Queria apenas dizer-vos que s vezes um bonito macho tem to bom aspecto como um cavalo, e que me parece que se vos arranjassem um bonito macho para Mousqueton...
- Seja ento um bonito macho - concordou Porthos. - Tendes razo: j vi grandssimos fidalgos espanhis com todo o squito montado em machos. Mas cuidado, Sr.a Coquenard, 
que seja um macho com penachos e guizos...
- Ficai tranquilo - respondeu a procuradora.
- Resta a mala - lembrou Porthos.
- Oh, no vos preocupeis com isso! - exclamou a Sr.a Coquenard. - O meu marido tem cinco ou seis malas; escolhereis a melhor. H sobretudo uma que ele preferia nas 
suas viagens, em que cabe tudo e mais alguma coisa.
- E est vazia, a vossa mala? - perguntou ingenuamente Porthos.
- Claro que est vazia - respondeu tambm ingenuamente a procuradora.
- Ah!... Mas a mala de que preciso  uma mala bem fornecida, minha cara.

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A Sr.a Coquenard voltou a suspirar. Molire ainda no escrevera O Avarento; a Sr.a Coquenard tem portanto precedncia sobre Harpago.
Enfim, o resto do equipamento foi sucessivamente debatido da mesma maneira; e o resultado da negociao foi que a procuradora pediria ao marido um emprstimo de 
oitocentas libras em prata e forneceria o cavalo e o macho que teriam a honra de levar  glria Porthos e Mousqueton.
Assentes as condies e estipulados os juros, assim como o prazo de pagamento, Porthos despediu-se da Sr.a Coquenard. Esta bem o quis reter deitando-lhe olhares 
ternos; mas Porthos pretextou as exigncias do servio e a procuradora no teve remdio seno ceder o passo ao rei. O mosqueteiro regressou a casa cheio de fome 
e de muito mau humor.



        XXXIII - CRIADITA E AMA

        Entretanto, como dissemos, apesar dos protestos da sua conscincia e dos sbios conselhos de Athos, d'Artagnan estava de hora para hora mais apaixonado por 
Milady. Por isso ia todos os dias fazer-lhe uma corte  qual o aventuroso gasco estava convencido de que ela no deixaria de corresponder mais tarde ou mais cedo.
Uma noite, quando chegava de cabea erguida, ligeiro como um homem que espera uma chuva de ouro, encontrou a criadita ao porto; mas desta vez a bonita Ketty no 
se limitou a sorrir-lhe de passagem, pegou-lhe meigamente na mo.
"Bom", pensou d'Artagnan, "est encarregada de me transmitir algum recado da ama; vai marcar-me algum encontro que no ousou dizer-me de viva voz..."
E olhou a linda rapariga com o ar mais triunfante que conseguiu arranjar.
- Gostaria de vos dizer duas palavras, Sr. Cavaleiro... - balbuciou a criadita.
- Fala, minha filha, fala - animou-a d'Artagnan. - Escuto-te.
- Aqui  impossvel: o que tenho para vos dizer  demasiado longo e sobretudo demasiado secreto.
- Ah, bom!... Mas nesse caso, como h-de ser?
- Se o Sr. Cavaleiro me quisesse acompanhar... - disse timidamente Ketty.
- Aonde quiserdes, minha bela criana.
- Ento, vinde.
E Ketty, que no largara a mo de d'Artagnan, arrastou-o por uma escadinha de caracol escura e, depois de o fazer subir uns quinze degraus, abriu uma porta.

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- Entrai, Sr. Cavaleiro. Aqui estaremos ss e poderemos conversar.
- De quem  este quarto, minha bela criana? - perguntou d'Artagnan.
-  meu, Sr. Cavaleiro, e comunica com o da minha ama por esta porta. Mas estai tranquilo que ela no poder ouvir o que dissermos; nunca se deita antes da meia-noite.
D'Artagnan olhou  sua volta. O quartito era encantador, de bom gosto e asseio; mas mal-grado seu os olhos de d'Artagnan fixaram-se na porta que Ketty lhe dissera 
comunicar com o quarto de Milady.
Ketty adivinhou o que se passava no esprito do jovem e suspirou.
- Amais muito a minha ama, Sr. Cavaleiro? - observou.
- Oh, muito mais do que posso dizer! Estou louco por ela! Ketty voltou a suspirar.
- Infelizmente, senhor,  pena...
- Que diabo vs nisso to digno de lstima? - perguntou d'Artagnan.
-  que, senhor, a minha ama no vos ama nem um bocadinho - respondeu Ketty.
- O qu?! - exclamou d'Artagnan. - Ter-te- encarregado de mo dizeres?...
- Oh, no, senhor! Fui eu que, no vosso interesse, tomei a resoluo de vos prevenir.
- Obrigado, minha boa Ketty, mas apenas pela inteno, porque a confidncia, como concordars, no  nada agradvel.
- Quereis dizer que no acreditais em nada do que vos disse, no  verdade?
- Temos sempre dificuldade em acreditar em semelhantes coisas, minha bela criana, quanto mais no seja por amor-prprio.
- Portanto, no me acreditais?
- Confesso que enquanto me no deres algumas provas do que dizes...
- Que dizeis a isto?
E Ketty tirou do seio um bilhetinho.
- Para mim? - perguntou d'Artagnan, apoderando-se vivamente do bilhete.
- No, para outro.
- Para outro? -Sim.
- O seu nome, o seu nome! - gritou d'Artagnan.
- Vede o endereo.
- Sr. Conde de Wardes.
A recordao da cena de Saint-Germain surgiu imediatamente no esprito do presunoso gasco. Num gesto rpido como o pensamento, rasgou o sobrescrito, apesar do 
grito que soltou Ketty ao ver o que ele ia fazer, ou antes o que fazia.

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- Meu Deus, Sr. Cavaleiro, que fazeis?!
- Eu? Nada! - respondeu d'Artagnan, e leu:


No respondestes ao meu primeiro bilhete; estais doente ou tereis esquecido os olhos que me deitastes no baile da Sr.a de Guise? Chegou a ocasio, conde! No a deixeis 
escapar.


D'Artagnan empalideceu; estava ferido no seu amor-prprio e julgou-se ferido no seu amor.
- Pobre caro Sr. d'Artagnan! - disse Ketty numa voz cheia de compaixo e apertando de novo a mo do jovem.
- Lamentas-me, boa pequena? - murmurou d'Artagnan.
- Oh, sim, de todo o corao! Porque sei o que  o amor!
- Sabes o que  o amor? - inquiriu d'Artagnan, olhando-a pela primeira vez com certa ateno.
- Infelizmente, sei.
- Nesse caso, em vez de me lamentares farias muito melhor se me ajudasses a vingar-me da tua ama.
- E que espcie de vingana pretendeis tirar?
- Desejo triunfar dela, suplantar o meu rival.
- Nunca vos ajudarei nisso, Sr. Cavaleiro! - respondeu vivamente Ketty.
- E porqu? - perguntou d'Artagnan.
- Por duas razes.
- Quais?
- A primeira  que a minha ama nunca vos amar.
- Que sabes disso?
- Feriste-a no corao.
- Eu? Em que a posso ter ferido se desde que a conheo vivo a seus ps como um escravo? Fala, suplico-te.
- S o direi ao homem... que for capaz de ler at ao fundo da minha alma!
D'Artagnan olhou Ketty pela segunda vez. A jovem era de uma frescura e de uma beleza que muitas duquesas no hesitariam em trocar pela sua coroa.
- Ketty, lerei at ao fundo da tua alma quando quiseres; no seja esse o obstculo, minha querida filha.
E deu-lhe um beijo que deixou a pobre criana corada como uma cereja.
- Oh, no! - exclamou Ketty. - Vs no me amais! Quem amais  a minha ama, ainda h pouco o dissestes.
- E isso impede-te de me dizeres a segunda razo?
- A segunda razo, Sr. Cavaleiro - respondeu Ketty,

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animada pelo beijo e pela expresso dos olhos do rapaz -,  que no amor cada um por si!
S ento d'Artagnan se lembrou das olhadelas lnguidas de Ketty quando se encontravam na antecmara, na escada ou no corredor, os seus leves toques de mo e os seus 
suspiros abafados. Absorvido porm pelo desejo de agradar  grande dama, desdenhara a criadita: quem caa guias no perde tempo com pardais.
Mas desta vez o nosso gasco viu num relance de olhos todo o partido que se podia tirar daquele amor que Ketty acabava de confessar de forma to ingnua ou to impudente: 
intercepo das cartas dirigidas ao conde de Wardes, cumplicidades na praa, entrada a toda a hora no quarto de Ketty, contguo ao da ama... O prfido, como se v, 
sacrificava j em pensamento a pobre rapariga para ter Milady a bem ou a mal.
- Pois bem, queres que te d, minha querida Ketty, uma prova deste amor de que duvidas? - perguntou  jovem.
- De que amor? - quis ela saber.
- Do que estou pronto a sentir por ti.
- E qual  essa prova?
- Queres que esta noite passe contigo o tempo que passo habitualmente com a tua ama?
- Claro que quero! - exclamou Ketty, batendo as mos. - Com todo o prazer.
- Nesse caso, minha querida filha - disse d'Artagnan, sentando-se num cadeiro -, vem c para que te diga que s a mais bonita criadinha que jamais vi!
E disse-lho to convincentemente que a pobre criana, que no queria seno acredit-lo, o acreditou... No entanto, com grande surpresa de d'Artagnan, a bonita Ketty 
sabia defender-se com certa resoluo.
O tempo passa depressa quando se passa em ataques e defesas.
Deu meia-noite e ouviu-se quase ao mesmo tempo tocar a campainha-no quarto de Milady.
- Meu Deus, a minha ama est a chamar-me! - exclamou Ketty. - Ide-vos embora, depressa!
D'Artagnan levantou-se e pegou no chapu como se tencionasse obedecer; mas depois abriu rapidamente a porta de um grande armrio, em vez de abrir a da escada, e 
escondeu-se l dentro, no meio dos vestidos e dos penteadores de Milady.
- Que fazeis? - perguntou Ketty.
D'Artagnan, que se apoderara rapidamente da chave, fechou-se no armrio sem responder.
- Ento? - gritou Milady com vs spera. - Estais a dormir, para no virdes quando toco?
E d'Artagnan ouviu abrir-se violentamente a porta de comunicao.
- Aqui estou, Milady, aqui estou! - apressou-se a responder Ketty, correndo ao encontro da ama.
Ambas entraram no quarto de dormir e como a porta de comunicao ficou aberta, d'Artagnan pde ouvir ainda durante algum tempo Milady ralhar  criada. Por fim acalmou-se 
e a conversa recaiu nele, enquanto Ketty cuidava da ama.
- No vi o nosso gasco esta noite - disse Milady.
- Como, senhora, no veio? Seria capaz de ser infiel antes de ser feliz? - observou Ketty.
- Oh, no! Deve ter sido impedido pelo Sr. de Trville ou pelo Sr. dos Essarts. Sei o que valho, Ketty; aquele est pelo beicinho.
- Que fareis dele, senhora?
- Que farei dele?... Estai tranquila, Ketty, h entre esse homem e mim uma coisa que ele ignora... Esteve quase a fazer-me perder o meu crdito junto de Sua Eminncia... 
mas hei-de vingar-me!
- Julguei que a senhora o amasse...
- Eu. am-lo? Detesto-o! Um parvo que tem a vida de Lorde de Winter nas mos e no o mata, fazendo-me assim perder trezentas mil libras de rendimento!
-  verdade - disse Ketty -, o vosso filho era o nico herdeiro do tio e at  sua maioridade tereis o usufruto da sua fortuna.
D'Artagnan arrepiou-se at  medula dos ossos ao ouvir aquela suave criatura censur-lo, naquela voz estridente que tinha tanta dificuldade em disfarar quando conversava, 
por no ter matado um homem que vira cumul-la de amizade.
- Por isso - continuou Milady -, j me teria vingado nele mesmo se. no sei porqu, o cardeal me no tivesse recomendado que o poupasse.
- Ah, sim?... Mas a senhora no tem poupado aquela mulherzinha que ele amava.
- Quem. a retroseira da Rua dos Fossoyeurs? No se esqueceu j de que ela existia? Que bela vingana, palavra!
Um suor frio escorria pela testa de d'Artagnan: aquela mulher era um monstro.
Continuou a escutar, mas infelizmente a toilette acabara.
- Pronto - disse Milady -, ide-vos deitar e amanh procurai ter uma resposta  carta que vos dei.
- Para o Sr. de Wardes? - perguntou Ketty.
- Evidentemente, para o Sr. de Wardes.
- A est um - observou Ketty - que tem o ar de ser absolutamente o contrrio do pobre Sr. d'Artagnan.
- Sa, menina - ordenou Milady. - No gosto de comentrios.
D'Artagnan ouviu a porta fechar-se e depois o rudo de dois ferrolhos que Milady corria, a fim de se encerrar no seu quarto; pela sua parte, mas o mais devagarinho 
possvel, Ketty deu uma volta  chave na fechadura. S ento d'Artagnan empurrou a porta do armrio.
- Meu Deus, que tendes? Como estais plido! - disse Ketty, baixinho.
- Abominvel criatura! - murmurou d'Artagnan.

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- Silncio! Silncio! Sa - pediu Ketty. - H apenas uma parede fina entre o meu quarto e o de Milady e ouve-se num tudo o que se diz no outro.
-  justamente por isso que no sairei - redarguiu d'Artagnan.
- Como? - murmurou Ketty, corando.
- Ou pelo menos sairei... mais tarde.
E puxou Ketty para si. No havia maneira de resistir; a resistncia faz tanto barulho!... Por isso Ketty cedeu.
Era um gesto de vingana contra Milady. D'Artagnan achou que se tinha razo para dizer que a vingana  o prazer dos deuses. Assim, se tivesse um pouco de corao, 
ter-se-ia contentado com aquela nova conquista; mas d'Artagnan s tinha ambio e orgulho.
Todavia, deve-se dizer em seu abono, que o primeiro emprego que fez da sua influncia sobre Ketty foi tentar saber o que acontecera  Sr.a Bonacieux; mas a pobre 
rapariga jurou sobre o crucifixo a d'Artagnan que o ignorava completamente, pois a sua ama nunca a deixava penetrar mais de metade dos seus segredos. Apenas julgava 
poder responder que no morrera.
Quanto  causa que estivera quase a fazer Milady perder o seu crdito junto do cardeal, Ketty no sabia nada; mas desta vez, d'Artagnan estava mais adiantado do 
que ela; como vira Milady num navio detido no momento em que ele prprio deixava a Inglaterra, desconfiou que dessa vez se tratava das agulhetas de diamantes.
Mas o mais claro no meio daquilo tudo era que o dio autntico, o dio profundo, o dio arraigado de Milady lhe vinha de no ter matado o cunhado.


d'Artagnan voltou no dia seguinte a casa de Milady. Ela estava de muito mau humor e d'Artagnan desconfiou que era a falta de resposta do Sr. de Wardes que a irritava 
assim. Ketty entrou, mas Milady recebeu-a muito duramente. Um olhar que lanou a d'Artagnan queria dizer: "Bem vedes o que sofro por vs."
Todavia, para o fim da noite a bela leoa amansou; escutou sorrindo as palavras ternas de d'Artagnan e at lhe deu a mo a beijar.
D'Artagnan saiu sem saber que pensar; mas como era um rapaz a quem no se fazia facilmente perder a cabea, enquanto cortejava Milady traara mentalmente um planozinho.
Encontrou Ketty  porta, e como na vspera subiu ao seu quarto para saber novidades. Ketty apanhara uma grande descompostura e tinham-na acusado de negligncia. 
Milady no compreendia o silncio do conde de Wardes e ordenara-lhe que fosse ao seu quarto s nove da manh para lhe dar terceira carta.
D'Artagnan obrigou Ketty a prometer-lhe que lhe levaria a carta a sua casa no dia seguinte de manh; a pobre rapariga prometeu tudo o que quis o amante: estava louca.
As coisas passaram-se como na vspera: d'Artagnan fechou-se no armrio, Milady chamou, fez a sua toilette, despediu Ketty e trancou a
porta. Tambm como na vspera, d'Artagnan s regressou a casa s
cinco da manh.
s onze horas viu chegar Ketty; trazia na mo nova carta de Milady. Desta vez, a pobre criana nem sequer tentou disput-la a d'Artagnan; deixou-o apoderar-se dela. 
Pertencia de corpo e alma ao seu belo soldado. D'Ar tagnan abriu a carta e leu o seguinte:


 a terceira vez que vos escrevo para vos dizer que vos amo. Cuidado, no tenha de vos escrever quarta vez para vos dizer que vos detesto.
Se estiverdes arrependido da forma como procedestes para comigo, a rapariga que vos entregar esta carta dir-vos- de que maneira um homem galante pode obter o seu 
perdo.


D'Artagnan corou e empalideceu vrias vezes ao ler o bilhete.
- Oh, vs continuais a am-la! - exclamou Ketty, que no desviara um instante os olhos do rosto do jovem.
- No, Ketty, enganas-te, j no a amo; mas quero vingar-me dos
seus desdns.
- Sim, conheo a vossa vingana; dissestes-me qual era.
- Que te importa, Ketty? Bem sabes que  s a ti que amo!
- Como posso sab-lo?
- Pela forma como a desprezarei. Ketty suspirou.
D'Artagnan pegou numa pena e escreveu:
Senhora, at aqui duvidara que fosse de facto a mim que os vossos dois primeiros bilhetes eram dirigidos, de tal modo me considerava indigno de semelhante honra; 
alis, estava to doente que em qualquer dos casos, hesitaria em responder.
Mas hoje tenho de me render  evidncia e acreditar na excessiva bondade com que me tratais, pois no s a vossa carta, mas tambm a vossa criada, me afirmam que 
tenho a honra de ser
amado por vs.
Ela no necessita de me dizer de que maneira um homem galante pode obter o seu perdo. Irei pedir-vos o meu esta noite, s onze horas. Tardar um dia, seria agora 
a meus olhos fazer-vos nova ofensa.
Aquele que tornastes o mais feliz dos homens,

Conde de Wardes.


Este bilhete comeava por ser uma mentira e acabava por ser uma indelicadeza; era tambm, do ponto de vista dos nossos costumes actuais, qualquer coisa como uma 
infmia. Mas ligava-se ento menos importncia a tais coisas do que se liga hoje. Alis, d'Artagnan sabia Milady culpada,

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pelas suas prprias confisses, de traio a cnones mais importantes e nutria por ela uma estima deveras insignificante. E no entanto, apesar dessa pouca estima, 
sentia uma paixo insensata por aquela mulher. Paixo bria de desprezo, mas paixo ou sede, como se queira.
A inteno de d'Artagnan era bem simples: atravs do quarto de Ketty alcanava o da ama; aproveitava o primeiro momento de surpresa, de pudor, de pnico, para a 
subjugar; talvez fosse mal sucedido, mas era preciso deixar qualquer coisa ao acaso. A campanha comeava dali a oito dias e tinha de partir; no havia portanto tempo 
para estar com meias medidas.
- Toma, entrega esta carta a Milady;  a resposta do Sr. de Wardes - disse a Ketty, entregando-lhe a carta lacrada.
A pobre Ketty tornou-se mortalmente plida; suspeitava o que continha a carta.
- Ouve, minha querida filha - disse-lhe d'Artagnan -, como deves compreender, isto tem de acabar de uma maneira ou de outra. Milady pode descobrir que entregaste 
o primeiro bilhete ao meu criado, em vez de o entregares ao criado do conde; que fui eu que abri os outros, que deviam ser abertos pelo Sr. de Wardes; ento, Milady 
pe-te na rua e tu, que a conheces, sabes que no  mulher para deixar por a a sua vingana.
- Infelizmente! - suspirou Ketty. - Mas por quem me expus a tudo isso?
- Por mim, bem sei, minha linda - respondeu o jovem -, mas tambm te estou muito reconhecido, juro-te.
- Mas afinal que contm o vosso bilhete?
- Milady to dir.
- Oh, no me amais! - exclamou Ketty. - Sou to infeliz!
Para esta censura existe uma resposta com que sempre se enganam as mulheres; d'Artagnan respondeu de maneira que Ketty conservasse as suas maiores iluses.
Mesmo assim chorou muito antes de se decidir a entregar a carta a Milady, mas por fim resolveu-se, como desejava d'Artagnan.
Alis, ele prometeu-lhe que  noite saria cedo dos aposentos de Milady, e que assim que deixasse esta subiria ao quarto dela.
Esta promessa acabou de convencer a pobre Ketty.


        XXXIV - ONDE SE TRATA DO EQUIPAMENTO DE ARAMIS
        E DE PORTHOS


        Desde que os quatro amigos andavam, cada um por seu lado,  caa do seu equipamento, que no se reuniam regularmente. Comiam uns sem os outros, onde se encontravam, 
ou antes, onde podiam. O servio, por seu turno, tomava-lhes tambm parte do tempo precioso, que bem pouco era, de que dispunham e que passava a correr. Apenas tinham 
combinado encontrar-se uma vez por semana, por volta da uma hora, em casa de Athos, atendendo a que este, conforme jurara, estava resolvido a no transpor o limiar 
da sua porta.
Precisamente no dia em que Ketty fora a casa de d'Artagnan era dia de reunio,
Por isso, assim que Ketty saiu, d'Artagnan dirigiu-se para a Rua Frou.
Encontrou Athos e Aramis a filosofarem. Aramis ainda no perdera as veleidades de tornar a vestir a sotaina. Athos, como era seu costume, no o dissuadia nem o encorajava. 
Athos entendia que se devia deixar a cada um o seu livre arbtrio. Nunca dava conselhos que lhe no pedissem. Mesmo assim, era preciso pedir-lhos duas vezes.
"Em geral, ningum pede conselhos para os seguir", dizia ele; "ou ento s os seguem para terem algum a quem censurar por os ter dado."
Porthos chegou pouco depois de d'Artagnan. Os quatro amigos encontravam-se pois reunidos.
Os quatro rostos exprimiam quatro sentimentos diferentes: o de Porthos, a tranquilidade; o de d'Artagnan, a esperana; o de Aramis, a preocupao, e o de Athos, 
a indiferena.
Pouco depois de iniciada a conversa, durante a qual Porthos deixou entrever que uma pessoa altamente colocada se dignara encarregar-se de o tirar de apuros, Mousqueton 
entrou.
Vinha pedir a Porthos que fosse a sua casa, onde, dizia ele com ar muito compumgido, a sua presena era urgente.
- Chegou o meu equipamento? - perguntou Porthos.
- Sim e no - respondeu Mousqueton.
- Que queres dizer com isso?...
- Vinde, senhor.
Porthos levantou-se, despediu-se dos amigos e seguiu Mousqueton. Um instante depois, Bazin apareceu no limiar da porta.
- Que me quereis, meu amigo? - perguntou Aramis com a suavidade de linguagem que se notava nele sempre que as suas ideias se viravam para a Igreja...

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- Est um homem  espera do senhor l em casa - respondeu Bazin.
- Um homem? Que homem?
- Um mendigo.
- Dai-lhe esmola, Bazin, e dizei-lhe que reze por um pobre pecador.
- O mendigo quer  viva fora falar-vos e afirma que tereis muito prazer em o ver.
- Mas no disse nada de especial para mim?
- Efectivamente, disse assim: "Se o Sr. Aramis hesitar em vir falar comigo, dizei-lhe que venho de Tours."
- De Tours?! - exclamou Aramis. - Mil perdes, meus senhores, mas sem dvida o homem traz-me notcias que esperava.
Levantou-se imediatamente e saiu apressado. Ficaram Athos e d'Artagnan.
- Creio que esses velhacos resolveram o seu problema. Que vos parece, d'Artagnan? - perguntou Athos.
- Sei que Porthos estava no bom caminho - respondeu d'Artagnan. - Quanto a Aramis, para ser franco nunca estive seriamente preocupado. Mas vs, meu caro Athos, que 
to generosamente distribuste as pistolas do ingls, que eram a vossa legtima riqueza, que ides fazer?
- Estou satisfeito por ter matado o sujeito, meu filho, pois nos tempos que correm  quase uma obra de caridade matar um ingls; mas se tivesse embolsado as suas 
pistolas elas pesar-me-iam como um remorso.
- Meu caro Athos, tendes realmente ideias inconcebveis!
- Adiante, adiante!  verdade o que me disse ontem o Sr. de Trville, que me deu a honra de me visitar, que andais com esses ingleses suspeitos protegidos do cardeal?
- No  bem isso, apenas visito uma inglesa, aquela de quem vos falei.
- Ah, sim, a mulher loura, a respeito de quem vos dei conselhos que naturalmente vos abstivestes de seguir! ...
- Dei-vos as minhas razes.
- Pois destes: esperais arranjar l o vosso equipamento, segundo deduzi das vossas palavras.
- De modo nenhum! Adquiri a certeza de que a mulher est por algum motivo relacionada com o rapto da Sr.a Bonacieux.
- Compreendo: para encontrardes uma mulher, fazeis a corte a outra;  o caminho mais longo, mas mais divertido.
D'Artagnan esteve quase a contar tudo a Athos, mas houve um pormenor que o deteve: Athos era um gentil-homem severo em questes de honra, e havia, em todo o planozinho 
que o nosso apaixonado traara em relao a Milady, certas coisas que, estava antecipadamente certo, no obteriam a aprovao de um puritano. Preferiu portanto guardar 
silncio, e como Athos era o homem menos curioso do mundo as confidncias de d'Artagnan no foram mais longe.

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Pela nossa parte, deixamos os dois amigos, que no tinham nada muito importante a dizer um ao outro, para seguir Aramis.
Vimos com que rapidez, ao ouvir dizer que o homem que lhe queria falar vinha de Tours, Aramis seguiu, ou antes, tomou a dianteira a Bazin e foi num salto da Rua 
Frou  Rua de Vaugirard.
Quando entrou em casa, encontrou efectivamente um homem baixo, de olhos inteligentes, mas coberto de andrajos.
- Fostes vs que perguntastes por mim? - inquiriu o mosqueteiro.
- Perguntei pelo Sr. Aramis; sois vs?
- Eu prprio. Tendes alguma coisa para me entregar?
- Tenho, se me mostrardes certo leno bordado...
- Imediatamente - respondeu Aramis, tirando uma chave do peito e abrindo um cofrezinho de bano incrustado de madreprola. - Ei-lo, vede.
- Muito bem - disse o mendigo. - Mandai sair o vosso lacaio. Com efeito, Bazin, curioso de saber o que o mendigo queria do amo,
regulara o passo dele e chegara quase ao mesmo tempo que Aramis. Mas tal celeridade no lhe adiantou grande coisa; a pedido do mendigo, o amo fez-lhe sinal para 
se retirar e no teve outro remdio seno obedecer.
Assim que Bazin saiu, o mendigo deitou um olhar rpido  sua volta, a fim de ter a certeza de que ningum o podia ver nem ouvir, e, abrindo a vstia esfarrapada, 
mal apertada por um cinto de couro, ps-se a descoser a parte de cima do gibo, donde tirou uma carta.
Aramis soltou um grito de alegria ao ver o sinete, beijou a caligrafia em que vinha escrito o endereo e, com um respeito quase religioso, abriu a carta, que dizia 
o seguinte:


Amigo, quer o destino que estejamos separados mais algum tempo; mas os belos dias da juventude no se perdero sem recompensa. Cumpri o vosso dever na guerra; eu 
cumpro o meu noutro lado. Aceitai o que o portador vos entregar e fazei a campanha como bom gentil-homem, pensando em mim que beijo ternamente os vossos olhos negros.

Adeus, ou antes, at  vista!


Entretanto o mendigo continuava a descoser o gibo, donde tirou uma a uma cento e cinquenta pistolas duplas de Espanha, que alinhou em cima da mesa. Depois, abriu 
a porta, saudou e saiu antes de o jovem, estupefacto, ter tempo de lhe dirigir a palavra.
Aramis releu ento a carta e verificou que tinha um  post-scriptum.


P. S. - Acolhei condignamente o portador, que  conde e grande de Espanha.

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- Sonhos dourados! - exclamou Aramis. - Oh, a bela vida! Sim, somos jovens! Sim, teremos ainda dias felizes! Oh, a ti, meu amor, meu sangue, minha vida, tudo, tudo, 
tudo, minha linda amada!
E beijava a carta com paixo, sem sequer olhar o ouro que cintilava em cima da mesa.
Bazin bateu  porta; Aramis j no tinha motivo para o manter afastado; permitiu-lhe a entrada.
Bazin ficou estupefacto ao ver o ouro e esqueceu-se de que vinha anunciar d'Artagnan, o qual, curioso de saber quem era o mendigo, deixara Athos para vir a casa 
de Aramis.
Ora, como d'Artagnan no fazia cerimnia com Aramis, vendo que Bazin se esquecia de o anunciar, anunciou-se a si mesmo.
- Demnio, meu caro Aramis - comentou d'Artagnan ao ver o dinheiro -, se so essas as ameixas que nos mandam de Tours, apresentai os meus cumprimentos ao pomareiro 
que as apanhou.
- Enganai-vos, meu caro - respondeu Aramis, sempre discreto-, o meu editor  que acaba de me enviar os direitos de autor daquele poema em versos de uma slaba que 
comecei a escrever em Amiens.
- Deveras? - disse d'Artagnan. - Nesse caso, o vosso editor  generoso, meu caro Aramis,  tudo o que vos posso dizer.
- Como, senhor, um poema vende-se to caro?... - estranhou Bazin. -  incrvel! Oh, senhor, j que fazeis tudo o que quereis, podeis tornar-vos igual ao Sr. de Voiture 
e ao Sr. de Bensarade! Tambm gosto disso. Um poeta  quase um abade. Ah, Sr. Aramis, fazei-vos poeta, suplico-vos!
- Bazin, meu amigo - observou Aramis -, parece-me que vos estais a meter na conversa...
Bazin compreendeu que se excedera; baixou a cabea e saiu.
- Com a breca, vendeis as vossas produes a peso de ouro - comentou d'Artagnan. - Tendes muita sorte, meu amigo; mas cuidado, ou ainda acabais por perder essa carta 
que sai da vossa sobreveste e que sem dvida tambm  do vosso editor...
Aramis corou at  raiz dos cabelos, guardou melhor a carta e abotoou o gibo.
- Meu caro d'Artagnan, se estais de acordo, vamos procurar os nossos amigos; e uma vez que estou rico, recomecemos hoje a jantar juntos enquanto no sois rico tambm.
- Com o maior prazer, palavra! - aprovou d'Artagnan. - H muito tempo que no comemos um jantar conveniente; e como projecto para esta noite uma expedio um pouco 
arriscada, no me importaria, confesso, de me alegrar com algumas garrafas de velho borgonha.
- Concordo com o velho borgonha; tambm no desgosto dele - respondeu Aramis, a quem a vista do ouro fizera esquecer as suas ideias de retirada.

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E depois de meter na algibeira trs ou quatro pistolas duplas para fazer face s necessidades de momento, guardou as outras no cofre de bano incrustado de madreprola, 
onde estava j o famoso leno que lhe servira de talism.
Os dois amigos dirigiram-se primeiro para casa de Athos, que, fiel ao juramento que fizera de no sair, se encarregou de mandar vir o jantar; e como ele era profundo 
conhecedor das coisas gastronmicas, d'Artagnan e Aramis no tiveram nenhuma dificuldade em confiar-lhe to importante misso.
Dirigiam-se para casa de Porthos quando  esquina da Rua do Bac encontraram Mousqueton, que com ar abatido tocava diante de si", um macho e um cavalo.
D'Artagnan soltou um grito de surpresa, no isento de um misto de alegria.
- O meu cavalo amarelo! - exclamou. - Aramis, olhai para aquele cavalo...
- Que horrvel pileca! - respondeu Aramis.
- Pois meu caro, foi naquele cavalo que vim para Paris - declarou d'Artagnan.
- Como, o senhor conhece este cavalo? - admirou-se Mousqueton.
- Tem uma cor original - observou Aramis. - Nunca vi nenhum com semelhante pelagem.
- Acredito - concordou d'Artagnan. - Por isso o vendi por trs escudos, pela pelagem, pois a carcaa no vale com certeza dezoito libras. Mas como se encontra esse 
cavalo em teu poder, Mousqueton?
- Nem me faleis disso, senhor! - pediu o criado. - Foi uma horrvel partida do marido da nossa duquesa!
- Como assim, Mousqueton?
- Sim, somos vistos com muito bons olhos por uma mulher de categoria, a duquesa de... Oh, perdo, mas o meu amo recomendou-me que fosse discreto! Ela tinha-nos obrigado 
a aceitar uma pequena lembrana, um magnfico ginete espanhol e um macho andaluz que davam gosto ver; mas o marido soube da coisa, confiscou no caminho os dois magnficos 
animais que nos enviavam e substituiu-os por estes horrveis bichos!
- Que tu lhe devolves? - perguntou d'Artagnan.
- Justamente! - respondeu Mousqueton. - Como compreendeis no podemos aceitar semelhantes montadas em troca daqueles que nos prometeram.
- No, claro, embora tivesse gostado de ver Porthos montado no meu Boto de Ouro, para ter uma ideia da figura que eu prprio fiz ao chegar a Paris - declarou d'Artagnan. 
- Mas no te detemos mais, Mousqueton; vai desempenhar-te da comisso que o teu amo te encarregou, vai. Ele est em casa?
- Est, sim, senhor - respondeu Mousqueton -, mas muito aborrecido.
E continuou o seu caminho para o Cais dos Grands-Augustins,

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enquanto os dois amigos iam tocar  porta do infortunado Porthos. Este, que os vira atravessar o ptio, decidira no abrir. Por isso, tocaram em vo.
Entretanto, Mousqueton continuava o seu caminho e, depois de atravessar a Ponte Nova, sempre tocando adiante de si as duas pilecas, chegou  Rua dos Ursos. Uma vez 
chegado, prendeu, consoante as ordens do amo, cavalo e macho  aldraba da porta do procurador; depois, sem se preocupar com a sua sorte futura, voltou para casa 
e anunciou a Porthos que a sua comisso estava cumprida.
Passado certo tempo, os dois pobres animais, que no comiam desde manh, fizeram tal barulho levantando e deixando cair a aldraba da porta que o procurador ordenou 
ao moo do cartrio que se fosse informar na vizinha a quem pertenciam o cavalo e o macho.
A Sr.a Coquenard reconheceu o seu presente e ao princpio no compreendeu a que se devia aquela devoluo; mas em breve a visita de Porthos a esclareceu. A clera 
que brilhava nos olhos do mosqueteiro, apesar da conteno que ele se impunha, assustou a sensvel amante. Com efeito, Mousqueton no ocultara ao amo que encontrara 
d'Artagnan e Aramis e que d'Artagnan reconhecera no cavalo amarelo o garrano bearns em que viera para Paris e que vendera por trs escudos.
Porthos saiu depois de marcar encontro  procuradora no Convento de Saint-Magloire. O procurador, ao ver que Porthos se retirava, convidou-o para jantar, convite 
que o mosqueteiro recusou com um ar cheio de majestade.
A Sr.a Coquenard dirigiu-se muito trmula para o Convento de Saint-Magloire, pois j adivinhava as censuras que a esperavam; mas estava fascinada pelos grandes ares 
de Porthos.
Tudo o que um homem ferido no seu amor-prprio pode deixar cair, em imprecaes e censuras, sobre a cabea de uma mulher, deixou Porthos cair sobre a cabea curvada 
da procuradora.
- Procedi com a melhor das intenes - desculpou-se a mulher. - Um dos nossos clientes  negociante de cavalos, devia dinheiro ao cartrio e mostrava-se recalcitrante. 
Comprei-lhe o macho e o cavalo pelo que nos devia; ele prometera-me duas montadas reais.
- Pois, senhora, se vos devia mais de cinco escudos o vosso alquilador  um ladro - volveu-lhe Porthos.
- No  proibido procurar comprar barato, Sr. Porthos - redarguiu a procuradora, tentando desculpar-se.
- No, senhora; mas aqueles que procuram comprar barato devem permitir aos outros procurar amigos mais generosos.
E Porthos deu meia volta e em seguida um passo para se retirar.
- Sr. Porthos! Sr. Porthos! - gritou a procuradora. - Procedi mal confesso, no devia ter regateado quando se trata de equipar um cavaleiro como vs!
Sem responder, Porthos deu segundo passo para se retirar.
A procuradora julgou v-lo numa nuvem cintilante, todo rodeado de duquesas e marquesas que lhe lanavam bolsas de ouro aos ps.
- Esperai, em nome do Cu, Sr. Porthos! Esperai e conversemos.
- Conversar convosco d-me azar - redarguiu Porthos.
- Mas, dizei-me, que quereis?
- Nada, pois aconteceria o mesmo se vos pedisse alguma coisa.
A procuradora pendurou-se no brao de Porthos e dominada pela sua dor confessou:
- Sr. Porthos, eu no percebo nada dessas coisas. Sei porventura que  um cavalo? Sei porventura o que so arneses?
- Deveis ter recorrido a mim, que sou entendido na matria, senhora; mas quisestes poupar e por consequncia emprestar com usura.
- Foi um erro, Sr. Porthos, mas dou-vos a minha palavra de honra de que o repararei.
- Como? - perguntou o mosqueteiro.
- Escutai. Esta noite o Sr. Coquenard vai a casa do Sr. Duque de Chaulnes, que o mandou chamar para uma consulta que demorar pelo menos duas horas. Vinde, estaremos 
ss e faremos as nossas contas.
- At que enfim! Isso  que  falar, minha querida!
- Perdoais-me?
- Veremos... - respondeu majestosamente Porthos. E separaram-se dizendo um ao outro:
- At logo!
"Diabo, parece-me que me aproximo finalmente do cofre de mestre Coquenard...", pensou Porthos enquanto se afastava.


        XXXV - DE NOITE TODOS OS GATOS SO PARDOS


        A noite, esperada to impacientemente por Porthos e d'Artagnan chegou por fim.
Como de costume, d'Artagnan apresentou-se por volta das nove horas em casa de Milady. Encontrou-a de um humor encantador; nunca o recebera to bem. O nosso gasco 
viu  primeira vista de olhos que o seu bilhete fora entregue e produzia o seu efeito.
Ketty entrou com sorvetes. A ama mostrou-lhe uma expresso encantadora e sorriu-lhe com o seu mais gracioso sorriso; mas a pobre rapariga estava to triste que nem 
sequer reparou na benevolncia de Milady.
D'Artagnan olhava uma aps outra as duas mulheres e era forado a confessar que a natureza se enganara ao form-las: dera  grande dama uma alma venal e vil e  
criadita o corao de uma duquesa.

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s dez horas, Milady comeou a parecer inquieta e d'Artagnan compreendeu o que isso significava. Ela olhava o relgio, levantava-se, tornava a sentar-se e sorria 
a d'Artagnan com um ar que queria dizer: "Sois muito amvel, sem dvida, mas sereis um amor se vos fsseis embora!"
D'Artagnan levantou-se e pegou no chapu; Milady deu-lhe a mo a beijar. O jovem sentiu que ela lha apertava e compreendeu que o no fazia por um sentimento de garridice, 
mas sim de reconhecimento por ele se ir embora.
- Ama-o endiabradamente - murmurou.
Depois saiu.
Desta vez, Ketty no o esperava em parte alguma, nem na antecmara, nem no corredor, nem no porto. D'Artagnan teve de encontrar sozinho a escada do quartito.
Ketty estava sentada, com o rosto escondido nas mos e chorava.
Ouviu entrar d'Artagnan, mas no levantou a cabea. O jovem foi ao seu encontro e pegou-lhe nas mos; ento ela rompeu em soluos.
Como d'Artagnan presumira, Milady, ao receber a carta, tinha, no delrio da sua alegria, contado tudo  criada; depois, como recompensa da maneira como dessa vez 
se desempenhara da sua comisso, dera-lhe uma bolsa. Mas Ketty, ao regressar ao seu quarto, atirara a bolsa para um canto, onde ficara aberta e espalhara trs ou 
quatro moedas de ouro no tapete.
Ao ouvir a voz de d'Artagnan a pobre rapariga levantou a cabea. Ele prprio ficou assustado ao ver-lhe o rosto transtornado. Ketty juntou as mos com ar suplicante, 
mas sem ousar dizer palavra.
Por pouco sensvel que fosse o corao de d'Artagnan, sentiu-se comovido ao ver aquela dor muda; mas prezava demasiado os seus projectos, e sobretudo aquele, para 
alterar fosse no que fosse o programa que traara antecipadamente. No deu portanto a Ketty nenhuma esperana de ceder, apenas lhe apresentou a sua aco como uma 
simples vingana.
Vingana de resto tanto mais fcil quanto era certo que Milady, sem dvida para ocultar o seu rubor ao amante, recomendara a Ketty que apagasse todas as luzes dos 
seus aposentos, mesmo do quarto. O Sr. de Wardes devia sair antes de amanhecer, sempre no escuro.
Pouco depois ouviram Milady entrar no seu quarto. D'Artagnan meteu-se imediatamente no armrio. Mal se escondeu a campainha tocou.
Ketty entrou no quarto da ama, mas no deixou a porta aberta. No entanto, a parede era to delgada que se ouvia quase tudo o que as duas mulheres diziam.
Milady parecia bria de alegria e obrigava Ketty a repetir os mil pequenos pormenores da pretensa conversa da criadita com Wardes: como recebera a sua carta, como 
respondera, qual era a expresso do seu rosto, se parecia muito apaixonado... E a todas as perguntas a pobre Ketty, obrigada a manter a presena de esprito, respondia 
com voz
abafada, na qual nem sequer notava o acento doloroso, de tal modo a felicidade  egosta.
Por fim, como se aproximasse a hora do seu encontro com o conde, Milady mandou apagar todas as luzes do quarto e ordenou a Ketty que voltasse para o seu e introduzisse 
Wardes assim que ele chegasse.
A espera de Ketty no foi longa. Logo que d'Artagnan viu atravs do buraco da fechadura do armrio que se encontrava tudo mergulhado na obscuridade, saiu do seu 
esconderijo no preciso momento em que Ketty fechava a porta de comunicao.
- Que barulho  esse? - perguntou-lhe Milady.
- Sou eu - respondeu d'Artagnan a meia voz. - Eu, o conde de
Wardes.
- Oh, meu Deus, meu Deus! - murmurou Ketty. - Nem sequer esperou pela hora que ele prprio fixara!
- Ento, por que no entrais? - perguntou Milady, com voz trmula. - Conde, conde - acrescentou -, bem sabeis que vos espero!
Perante este apelo, d'Artagnan afastou suavemente Ketty e entrou no quarto de Milady.
Se a raiva e a dor podem torturar uma alma,  a do amante que recebe sob um nome que no  o seu os protestos de amor que se dirigem ao seu feliz rival.
D'Artagnan encontrava-se numa situao dolorosa que no previra: o cime mordia-lhe o corao e sofria quase tanto como a pobre Ketty, que chorava naquele momento 
no quarto contguo.
- Sim, conde - dizia Milady na sua voz mais terna, apertando-lhe carinhosamente a mo nas suas -, sim, sinto-me feliz pelo amor que os vossos olhos e as vossas palavras 
me exprimiram todas as vezes que nos encontrmos. Tambm vos amo. Oh, amanh quero qualquer penhor vosso que me prove que pensais em mim, e para que me no esqueais, 
tomai!
E passou um anel do seu dedo para o de d'Artagnan.
O jovem lembrou-se de ter visto aquele anel na mo de Milady; era uma safira magnfica rodeada de brilhantes.
O primeiro movimento de d'Artagnan foi de lho restituir, mas Milady acrescentou:
- No, no; guardai esse anel por amor de mim. Alis, aceitando-o, prestais-me um servio muito maior do que podereis imaginar - acrescentou em tom comovido.
"Esta mulher est cheia de mistrios...", disse d'Artagnan para consigo.
Neste momento esteve quase a revelar tudo. Abriu a boca para dizer a Milady quem era e com que intenes vingativas estava ali, mas ela acrescentou:
- Pobre anjo, que esse monstro gasco quase matou! O monstro era ele.

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- Os vossos ferimentos ainda vos fazem sofrer? - continuou Milady.
- Sim, muito - respondeu d'Artagnan, sem saber que dizer.
- Estai tranquilo que eu vos vingarei, e cruelmente! - murmurou Milady.
"Irra, o momento das confidncias ainda no chegou!", disse d'Artagnan para consigo.
O jovem precisou de algum tempo para se recompor deste pequeno dilogo; mas todas as ideias de vingana que trouxera se tinham desvanecido por completo. Aquela mulher 
exercia sobre ele um poder incrvel, odiava-a e adorava-a ao mesmo tempo, nunca imaginara que dois sentimentos to contrrios pudessem habitar no mesmo corao e, 
confundindo-se, formar um amor estranho e de certo modo diablico.
Entretanto, acabava de dar uma hora; tinham de se separar. No momento de deixar Milady, d'Artagnan sentiu apenas um vivo pesar, e na despedida apaixonada que se 
dirigiram reciprocamente combinaram encontrar-se de novo na semana seguinte. A pobre Ketty esperava poder trocar algumas palavras com d'Artagnan quando ele passasse 
pelo seu quarto, mas Milady acompanhou-o pessoalmente na obscuridade e s o deixou na escada.
No dia seguinte de manh, d'Artagnan correu para casa de Athos. Estava metido numa aventura singular e queria pedir-lhe conselho. Contou-lhe tudo; Athos franziu 
vrias vezes o sobrolho.
- A vossa Milady - declarou - parece-me uma criatura infame, mas nem por isso procedestes menos mal enganando-a. Agora, eis-vos de uma maneira ou de outra com uma 
inimiga terrvel nos braos.
Enquanto falava, Athos olhava com ateno a safira rodeada de diamantes que tomara no dedo de d'Artagnan o lugar do anel da rainha, cuidadosamente guardado num estojo.
- Olhais este anel? - perguntou o gasco, muito orgulhoso de exibir aos olhos dos amigos to rico presente.
- Olho - respondeu Athos. - Recorda-me uma jia de famlia.
-  belo, no  verdade? - perguntou d'Artagnan.
- Magnfico! - respondeu Athos. - No supunha que houvesse duas safiras de to bela gua. Trocaste-a pelo vosso diamante?
- No - respondeu d'Artagnan. -  um presente da minha bela inglesa, ou antes, da minha bela francesa, porque embora lho no tenha perguntado estou convencido de 
que nasceu em Frana.
- Esse anel foi-vos dado por Milady? - inquiriu Athos, num tom de voz em que era fcil distinguir uma grande emoo.
- Pessoalmente. Deu-mo esta noite.
- Mostrai-me esse anel - pediu Athos.
- Aqui o tendes - respondeu d'Artagnan, tirando-o do dedo. Athos examinou-o e ps-se muito plido; depois experimentou-o no
anelar da mo esquerda: ficava nesse dedo como se tivesse sido feito
para ele. Uma nuvem de clera e de vingana passou pela fronte habitualmente calma do gentil-homem.
-  impossvel que seja o mesmo - murmurou. - Como iria este anel parar s mos de Lady Clarick? E no entanto  muito difcil que haja entre duas jias tal semelhana.
- Conheceis esse anel? - perguntou d'Artagnan.
- Julguei reconhec-lo, mas sem dvida enganei-me - respondeu Athos.
E restituiu-o a d'Artagnan, sem deixar no entanto de o olhar.
- Por favor - disse passado um instante -, tirai esse anel do dedo ou virai o engaste para dentro; traz-me  memria to cruis recordaes que no teria cabea 
para conversar convosco. No viestes pedir-me conselho? No me dissestes que estveis embaraado, sem saber o que deveis fazer?... Mas esperai... dai-me essa safira: 
aquela a que me referi tinha uma das faces lascada devido a um acidente.
D'Artagnan tirou de novo o anel do dedo e entregou-o a Athos. Este estremeceu:
- Tomai - disse. - Vede, no  estranho?
E mostrava a d'Artagnan a falha que se lembrava dever existir.
- Mas de quem recebestes esta safira, Athos?
- Da minha me, que a recebera da me dela. Como vos disse, trata-se de uma velha jia... que nunca devia sair da famlia.
- E vs... vendeste-a? - perguntou d'Artagnan, hesitante.
- No - respondeu Athos, com um sorriso singular. - Dei-a durante uma noite de amor, como vos foi dada a vs.
D'Artagnan ficou por sua vez pensativo; parecia-lhe ver na alma de Milady abismos de profundezas sombrias e desconhecidas. Em vez de meter o anel no dedo, guardou-o 
na algibeira.
- Escutai - disse-lhe Athos, pegando-lhe na mo. - Sabeis que vos amo, d'Artagnan; se tivesse um filho, no o amaria mais do que a vs. Pois bem, acreditai-me, renunciai 
a essa mulher. No a conheo, mas uma espcie de intuio diz-me que  uma criatura perdida e que h algo fatal nela.
- E tendes razo - disse d'Artagnan. - Por isso a vou deixar; confesso-vos que essa mulher tambm me assusta.
- Tereis essa coragem? - perguntou Athos.
- Terei - respondeu d'Artagnan -, e imediatamente.
- Ainda bem, meu filho, que assim pensais - disse o gentil-homem, apertando a mo ao gasco quase paternalmente. - Deus queira que essa mulher, que ainda mal entrou 
na vossa vida, no deixe nela um rasto funesto!
E Athos despediu d'Artagnan com uma inclinao de cabea, como um homem que deseja dar a entender que no se importa de ficar s com os seus pensamentos.
Quando chegou a casa, d'Artagnan encontrou Ketty  sua espera.

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Um ms de febre no teria modificado mais a pobre criana do que aquela noite de insnia e dor.
Era enviada pela ama ao falso Wardes. Milady estava louca de amor, bria de alegria; queria saber quando o conde lhe concederia segundo encontro. E a pobre Ketty, 
plida e trmula, esperava a resposta de d'Artagnan.
Athos tinha grande influncia sobre o jovem. Os conselhos do amigo juntamente com os protestos do seu prprio corao tinham-no decidido, agora que o seu orgulho 
estava salvo e a sua vingana satisfeita, a no tornar a ver Milady. Pegou portanto na pena e escreveu a seguinte carta:


No conteis comigo, senhora, para o prximo encontro: desde a minha convalescena tenho tantas ocupaes desse gnero que preciso de lhes dar certa ordem. Quando 
chegar a vossa vez, terei a honra de vos informar.

Beijo-vos as mos.

Conde de Wardes.


A respeito da safira nem uma palavra. Quereria o gasco conservar uma arma contra Milady? Ou, sejamos francos, no conservaria a safira como ltimo recurso para 
comprar o equipamento?
Seria incorrecto julgar as aces de uma poca do ponto de vista doutra poca. O que hoje seria olhado como uma desonra para um homem galante era naquele tempo coisa 
muito simples e muito natural, e os filhos mais novos das melhores famlias eram em geral mantidos pelas amantes.
D'Artagnan entregou a carta aberta a Ketty, que a leu, primeiro sem a compreender, e que quase enlouqueceu de alegria ao l-la segunda vez.
Ketty no podia acreditar em tamanha felicidade e d'Artagnan teve de lhe renovar de viva voz as garantias que a carta lhe dava por escrito. E fosse qual fosse, dado 
o temperamento exaltado de Milady, o perigo que corresse a pobre criana em entregar semelhante bilhete  ama, nem por isso deixou de regressar to depressa quanto 
as pernas lho permitiram  Praa Royale.
O corao da melhor das mulheres  implacvel para com os sofrimentos de uma rival.
Milady abriu a carta com uma pressa igual  que Ketty pusera em trazer-lha; mas  primeira palavra que leu ps-se lvida. Depois amarrotou o papel; em seguida virou-se 
para Ketty com os olhos a relampejar.
- Que carta  esta? - perguntou.
- Mas...  a resposta  da senhora - respondeu Ketty, toda trmula.
- Impossvel! - gritou Milady. -  impossvel que um gentil-homem tenha escrito a uma mulher semelhante carta!
Depois, de sbito, estremecendo:
- Meu Deus, ter-se- dado o caso de... E deteve-se.
Rangia os dentes e estava cor de cinza. Quis dar um passo para a janela, a fim de tomar ar, mas s conseguiu estender os braos; as pernas faltaram-lhe e caiu num 
cadeiro.
Ketty julgou que se sentisse mal e precipitou-se para lhe desapertar o corpete. Mas Milady endireitou-se vivamente.
- Que me queres? - perguntou. - Por que me tocas?
- Pensei que a senhora estivesse indisposta e quis socorr-la - respondeu a criada, assustadssima com a expresso terrvel que adquirira o rosto da ama.
- Indisposta eu, eu? Tomas-me por uma mulherzinha fraca? Quando me insultam, no fico indisposta, vingo-me, entendes?
E fez sinal com a mo a Ketty para sair.


        XXXVI SONHO DE VINGANA


         noite, Milady deu ordem para introduzirem o Sr. d'Artagnan assim que chegasse, conforme o seu hbito. Mas ele no veio.
No dia seguinte, Ketty procurou de novo o jovem e contou-lhe tudo o que se passara na vspera. D'Artagnan sorriu: a clera ciumenta de Milady era a sua vingana.
 noite, Milady, ainda mais impaciente do que na vspera, renovou a ordem relativa ao gasco; mas como na vspera esperou-o inutilmente.
No dia seguinte, Ketty apresentou-se em casa de d'Artagnan, j no alegre e viva como nos dois dias anteriores, mas pelo contrrio tristssima.
D'Artagnan perguntou  pobre rapariga o que tinha; mas ela, como nica resposta, tirou uma carta da algibeira e entregou-lha.
Era uma carta do punho de Milady; apenas desta vez estava endereada a d'Artagnan e no ao Sr. de Wardes. Abriu-a e leu o que se segue:


Caro Sr. d'Artagnan: No est certo abandonar assim os seus amigos, sobretudo no momento em que os vai deixar por tanto tempo. O meu cunhado e eu espermo-lo ontem 
e anteontem inutilmente. Acontecer o mesmo esta noite?

Sua muito reconhecida,

Lady Clarick.

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-  muito simples - disse d'Artagnan - e j esperava esta carta. O meu crdito sobe  medida que baixa o do conde de Wardes.
- Ireis? - perguntou Ketty.
- Escuta, minha querida filha - disse o gasco, que procurava desculpar-se a seus prprios olhos de faltar  promessa que fizera a Athos -, no compreendes que seria 
impoltico no corresponder a um convite to positivo? No me vendo voltar, Milady no compreenderia a interrupo das minhas visitas, poderia desconfiar de qualquer 
coisa, e quem pode dizer at onde iria a vingana de uma mulher da sua tmpera?
- Oh, meu Deus, sabeis apresentar as coisas de uma forma que tendes sempre razo! - protestou Ketty. - Mas ides novamente fazer-lhe a corte; e se desta vez lhe agradsseis 
sob o vosso verdadeiro nome e sob o vosso verdadeiro rosto, seria muito pior do que da primeira vez!
O instinto permitia adivinhar  pobre rapariga o que ia acontecer.
D'Artagnan tranquilizou-a o melhor que pde e prometeu-lhe ficar insensvel s sedues de Milady.
Mandou dizer que estava reconhecidissimo pelas suas atenes e que iria receber as suas ordens; mas no ousou escrever-lhe com receio de no conseguir disfarar 
suficientemente a sua letra a olhos to experientes como os de Milady.
Ao darem nove horas, d'Artagnan estava na Praa Royale. Era evidente que os criados que esperavam na antecmara estavam prevenidos, pois logo que d'Artagnan apareceu, 
ainda antes de perguntar se Milady estava visvel, um deles correu a anunci-lo.
- Que entre - disse Milady numa voz breve, mas to penetrante que d'Artagnan a ouviu na antecmara.
Introduziram-no.
- No estou para ningum - disse Milady ao criado. - Ouvistes? Para ningum.
O lacaio saiu.
D'Artagnan deitou um olhar curioso a Milady: estava plida e tinha os olhos mortios, quer por ter chorado, quer por no ter dormido. Intencionalmente tinham diminudo 
o nmero habitual de luzes, mas mesmo assim a jovem no conseguia esconder os vestgios da febre que a devorara durante dois dias.
D'Artagnan aproximou-se dela com a sua galanteria habitual; Milady fez ento um esforo supremo para lhe corresponder, mas nunca fisionomia mais transtornada desmentiu 
sorriso mais amvel.
s perguntas que d'Artagnan lhe dirigiu acerca da sua sade respondeu:
- M, muito m.
- Mas ento - disse d'Artagnan - sou importuno; tendes necessidade de repouso, sem dvida, e vou-me retirar.
- No - ops-se Milady. - Pelo contrrio, ficai, Sr. d'Artagnan; a vossa amvel companhia distrair-me-.

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"Oh, oh, nunca foi to encantadora! Desconfiemos...", pensou d'Artagnan.
Milady tomou o ar mais afectuoso que lhe foi possvel e imprimiu ao dilogo todo o brilho que pde. Ao mesmo tempo, a febre que a abandonara um instante voltava 
a restituir-lhe o fulgor aos olhos, as cores s faces e o carmim aos lbios. D'Artagnan reencontrou a Circe que j o envolvera nos seus encantamentos. O seu amor, 
que julgava extinto mas que estava apenas adormecido, acordou no seu corao. Milady sorria e d'Artagnan sentia que se perderia por aquele sorriso.
Houve um momento em que sentiu qualquer coisa como um remorso do que fizera quela mulher.
Pouco a pouco, Milady tornou-se mais comunicativa. Perguntou a d'Artagnan se tinha alguma amante.
- Meu Deus - respondeu d'Artagnan com o ar mais sentimental que conseguiu tomar -, como podeis ser to cruel que me faais semelhante pergunta, a mim que desde que 
vos vi s vivo e suspiro para vs e por vs?...
Milady sorriu estranhamente.
- Amais-me, portanto...
- Terei necessidade de vo-lo dizer, ainda o no notastes?
- Decerto. Mas como sabeis quanto mais orgulhosos so os coraes mais difceis de conquistar.
- Oh, as dificuldades no me assustam! - redarguiu d'Artagnan. - S as impossibilidades me metem medo.
- Nada  impossvel a um verdadeiro amor - observou Milady.
- Nada, senhora?
- Nada - repetiu Milady.
"Demnio, a nota mudou!", comentou d'Artagnan para consigo. "Ter-se- apaixonado por mim por acaso, a caprichosa, e estar disposta a dar-me outra safira igual  
que me deu tomando-me por Wardes?"
D'Artagnan aproximou vivamente a sua cadeira da de Milady.
- Vejamos, que fareis para provar esse amor de que falais? - perguntou ela.
- Tudo o que se exigisse de mim. Haja quem ordene e estou pronto.
- Para tudo?
- Para tudo! - exclamou d'Artagnan, que sabia antecipadamente no arriscar grande coisa em semelhante compromisso.
- Bom, conversemos um pouco... - sugeriu Milady, aproximando tambm o seu cadeiro da cadeira de d'Artagnan.
- Escuto-vos, senhora.
Milady ficou um instante concentrada e como que indecisa; depois, pareceu tomar uma resoluo e disse:
- Tenho um inimigo.
- Vs, senhora?! - exclamou d'Artagnan, fingindo-se surpreendido. - Ser possvel, meu Deus? Bela e boa como sois...
- Um inimigo mortal.

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- Deveras?
- Um inimigo que me insultou to cruelmente que existe entre ele e mim uma guerra de morte. Posso contar convosco como auxiliar?
D'Artagnan compreendeu acto contnuo aonde a vingativa criatura queria chegar.
- Podeis, senhora - respondeu com nfase. - O meu brao e a minha vida pertencem-vos como o meu amor.
- Sendo assim, j que sois to generoso como estais apaixonado... Deteve-se.
- Que devo fazer? - perguntou d'Artagnan.
- Deixar, a partir de hoje, de falar de impossibilidades - respondeu Milady aps um momento de silncio.
- No me mateis de felicidade! - exclamou d'Artagnan, precipitando-se de joelhos e cobrindo de beijos as mos que lhe abandonavam.
- Vinga-me desse infame Wardes - murmurou Milady entre dentes - e eu saberei desembaraar-me de ti em seguida, duplo parvo, lmina de espada viva!
"Cai-me voluntariamente nos braos, depois de me terdes escarnecido to afrontosamente, hipcrita e perigosa mulher, e rir-me-ei de ti com aquele que queres matar 
por minha mo", pensava d'Artagnan.
Em seguida levantou a cabea e disse:
- Estou pronto.
- Ainda bem que me compreendestes, caro Sr. d'Artagnan - declarou Milady.
- Adivinharia um dos vossos olhares.
- Portanto poreis ao meu servio o vosso brao, que j adquiriu tanta nomeada?
- Imediatamente.
- Mas como pagarei semelhante servio? Conheo os apaixonados, so pessoas que no fazem nada desinteressadamente...
- Sabeis a nica resposta que desejo - redarguiu d'Artagnan -, a nica que  digna de vs e de mim!
E puxou-a suavemente para si.
Ela quase no resistiu; disse apenas, sorrindo:
- Interesseiro!...
- Oh! - exclamou d'Artagnan, verdadeiramente arrebatado pela paixo que aquela mulher tinha o dom de despertar no seu corao. - Oh,  como se a minha felicidade 
me parecesse inverosmil, e como, tendo sempre medo de a ver evolar-se como um sonho, tivesse pressa de a transformar em realidade!
- Mereceis sem dvida essa pretensa felicidade.
- Estou s vossas ordens - declarou d'Artagnan.
- De certeza? - perguntou Milady, com uma derradeira dvida.
- Indicai-me o infame que foi capaz de fazer chorar os vossos belos olhos.
- Quem vos disse que chorei?
- Pareceu-me...
- As mulheres como eu no choram.
- Tanto melhor! Vamos, dizei-me como se chama.
- Lembrai-vos de que o seu nome  todo o meu segredo.
- No entanto,  necessrio que eu o conhea.
- Sim,  necessrio; e ser uma prova de que tenho confiana em vs...
- Encheis-me de alegria. Como se chama?
- Conhecei-lo...
- Deveras? -Sim.
- No  nenhum dos meus amigos? - perguntou d'Artagnan, fingindo hesitao para fazer crer na sua ignorncia.
- Se fosse um dos vossos amigos hesitareis - perguntou Milady. E um relmpago de ameaa passou-lhe pelos olhos.
- No. Nem que fosse meu irmo! - exclamou d'Artagnan, como que arrebatado pelo entusiasmo.
O nosso gasco avanava sem se arriscar; porque sabia aonde queria
chegar.
- Aprecio a vossa dedicao - declarou Milady.
- Meu Deus, e no apreciais mais nada em mim? - perguntou d'Artagnan.
- Tambm vos aprecio - acrescentou ela, pegando-lhe na mo.
E a ardente presso fez tremer d'Artagnan, como se, pelo simples facto de lhe tocar, a febre que queimava Milady se lhe transmitisse.
- Quereis dizer que me amais? - perguntou ansioso. - Oh, se fosse verdade seria motivo para perder a razo!
E envolveu-a nos braos. Ela no tentou afastar os lbios dos dele, quando a beijou; apenas no lhe correspondeu.
Os seus lbios estavam frios; pareceu a d'Artagnan que acabava de beijar uma esttua.
Mas nem por isso ficou menos brio de alegria, menos electrizado de amor; quase acreditava no amor de Milady; quase acreditava no crime de Wardes. Se o tivesse naquele 
momento ao alcance da mo, mat-lo-ia.
Milady aproveitou a oportunidade.
- Chama-se... - comeou.
- Wardes! - exclamou d'Artagnan. - J sabia que era ele.
- E como o sabeis? - perguntou Milady, pegando-lhe nas mos e tentando ler-lhe atravs dos olhos at ao fundo da alma.
D'Artagnan sentiu que se excedera e cometera um erro.
- Dizei, dizei; v, dizei! - repetia Milady. - Como sabeis?
- Como sabia?...
- Sim.
- Sabia-o porque ontem, num salo onde me encontrava, Wardes mostrou um anel que disse ter-lhe sido dado por vs.

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- Miservel! - gritou Milady.
O epteto, como muito bem se compreende, repercutiu-se at ao fundo do corao de d'Artagnan. - E ento?
- Ento, vingar-vos-ei desse miservel - declarou d'Artagnan, dando-se ares de D. Jafeth da Armnia.
- Obrigada, meu bravo amigo! - exclamou Milady. - E quando serei vingada?
- Amanh... imediatamente... quando quiserdes.
Milady ia gritar: "Imediatamente!", mas reflectiu que semelhante precipitao seria pouco agradvel para d'Artagnan.
Alis, tinha mil precaues a tomar, mil conselhos a dar ao seu defensor, para que evitasse explicaes com o conde diante de testemunhas. Mas uma palavra de d'Artagnan 
tudo resolveu:
- Amanh estareis vingada ou eu estarei morto.
- No! Vingar-me-eis, mas no morrereis:  um cobarde.
- Com as mulheres, talvez; mas com os homens, no. Sei alguma coisa a esse respeito.
- Mas parece-me que na vossa luta com ele no tivestes de vos queixar da sorte.
- A sorte  uma cortes: favorvel ontem, pode trair-me amanh.
- O que quer dizer que hesitais agora...
- No, no hesito, Deus me defenda; mas seria justo deixares-me ir para uma morte possvel sem me terdes dado ao menos um pouco mais do que esperana?...
Milady respondeu com um olhar que queria dizer: "S isso? Dizei." Depois, acompanhando o olhar de palavras explicativas, disse ternamente:
-  justssimo.
- Oh, sois um anjo! - exclamou o jovem.
- Portanto, est tudo combinado?
- Excepto o que vos pedi, querido amor!
- Mas se vos digo que podeis confiar na minha ternura...
- No tenho amanh para esperar.
- Silncio! Ouo o meu irmo;  intil que vos encontre aqui. Tocou; Ketty apareceu.
- Sa por essa porta - disse, empurrando uma portinha disfarada - e voltai s onze horas para acabarmos a nossa conversa. Ketty introduzir-vos- no meu quarto.
A pobre criana pensou cair redonda no cho ao ouvir estas palavras.
- Que fazeis a, menina, imvel como uma esttua? Vamos, acompanhai o cavaleiro - ordenou-lhe Milady. - E vs, s onze horas, como ouvistes!
"Parece que os seus encontros amorosos so todos s onze horas", pensou d'Artagnan. "Deve ser um hbito adquirido..."

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Milady estendeu-lhe a mo, que ele beijou ternamente.
"Cautela", disse para consigo enquanto se retirava sem quase responder s censuras de Ketty, "cautela, no sejamos parvos! Decididamente, esta mulher  uma grande 
celerada e todo o cuidado  pouco."


        XXXVII - O SEGREDO DE MILADY


        D'Artagnan sara do palcio em vez de subir imediatamente ao quarto de Ketty, apesar dos pedidos insistentes da jovem, e isso por duas razes: a primeira, 
porque assim evitava as censuras, as recriminaes e as splicas; a segunda, porque queria analisar um pouco as suas ideias e, se possvel, as daquela mulher.
Tudo o que havia de mais claro no caso era que d'Artagnan amava Milady como um louco e que ela o no amava absolutamente nada. Por instantes, d'Artagnan concluiu 
que o melhor que tinha a fazer era voltar para casa e escrever a Milady uma longa carta confessando-lhe que ele e Wardes eram at ali uma e a mesma pessoa e que 
portanto no podia comprometer-se, sob pena de suicdio, a matar Wardes. Mas tambm o espicaava um feroz desejo de vingana que o levava a desejar possuir aquela 
mulher sob o seu prprio nome; e como tal vingana lhe parecia conter certa doura, no queria de modo algum renunciar a ela. Deu cinco ou seis vezes a volta  Praa 
Royale, virando-se de dez em dez passos para olhar a luz dos aposentos de Milady, que se distinguia atravs das gelosias. Era evidente que daquela vez a jovem tinha 
menos pressa do que da primeira em recolher ao seu quarto. Por fim a luz desapareceu.
E com ela extinguiu-se a ltima irresoluo no corao de d'Artagnan. Recordou-se dos pormenores da primeira noite e, com o corao aos pulos e a cabea em fogo, 
voltou a entrar no palcio e precipitou-se para o quarto de Ketty.
A jovem, plida como a morte e tremendo como varas verdes, quis deter o amante; mas Milady, de ouvido  escuta, ouvira o barulho que fizera d'Artagnan e abriu a 
porta. - Vinde - disse.
Tudo aquilo era de to incrvel impudncia, de to monstruoso descaramento, que d'Artagnan mal podia acreditar no que via e ouvia. Julgava-se envolvido em qualquer 
dessas intrigas fantsticas que s acontecem em sonhos.
Mas nem por isso correu menos para Milady, cedendo  atraco que o man exerce sobre o ferro. A porta fechou-se atrs deles.


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Ketty lanou-se por seu turno contra a porta.
O cime, o furor, o orgulho ofendido, todas as paixes, enfim, que assaltam o corao de uma mulher apaixonada a impeliam para uma revelao; mas estaria perdida 
se confessasse ter contribudo para semelhante maquinao; e sobretudo d'Artagnan estaria perdido para ela. Este ltimo pensamento amoroso aconselhou-lhe tambm 
aquele derradeiro sacrifcio.
Pelo seu lado, d'Artagnan atingira o cmulo de todos os seus desejos: j no era um rival que se amava em si, era a ele mesmo que se fingia amar. Uma voz ntima 
dizia-lhe bem no fundo do corao que no passava de um instrumento de vingana que se acarinhava enquanto se esperava que cumprisse a sua misso de morte; mas o 
orgulho, o amor-prprio, a loucura, faziam calar essa voz, abafavam esse murmrio. Depois o nosso gasco, com a dose de confiana que lhe conhecemos, comparava-se 
a Wardes e perguntava-se por que motivo, no fim de contas, o no amariam tambm por si mesmo.
Abandonou-se pois por completo s sensaes do momento. Milady deixou de ser para ele a mulher de intenes fatais que por momentos o assustara para se tornar numa 
amante ardente e apaixonada que se abandonava por completo a um amor que ela prpria parecia experimentar. Passaram-se assim cerca de duas horas.
Entretanto, os transportes de dois amantes acalmaram-se; Milady, que no tinha os mesmos motivos que d'Artagnan para esquecer, foi a primeira a regressar  realidade 
e perguntou ao jovem se as medidas que deveriam conduzir no dia seguinte a um duelo entre ele e Wardes estavam j bem planeadas no seu esprito.
Mas d'Artagnan, cujas ideias tinham tomado outro curso e esquecera como um tolo o assunto, respondeu galantemente que era muito tarde para se ocupar de duelos e 
estocadas.
Semelhante desinteresse pela nica coisa que a preocupava assustou Milady, cujas perguntas se tornaram mais insistentes.
Ento, d'Artagnan, que nunca pensara seriamente em semelhante duelo, quis mudar de assunto, mas no o conseguiu.
Milady conteve-o nos limites que traara antecipadamente com o seu esprito irresistvel e a sua vontade de ferro.
D'Artagnan julgou-se muito espirituoso aconselhando a Milady que renunciasse, perdoando a Wardes, aos projectos loucos que traara.
Mas s primeiras palavras que disse a jovem estremeceu e afastou-se.
- Tereis medo, querido d'Artagnan? - perguntou numa voz aguda e escarninha que ecoou estranhamente na obscuridade.
- Nem penseis nisso, querida! - respondeu d'Artagnan. - Mas enfim, se o pobre conde de Wardes fosse menos culpado do que imaginais?
- De qualquer modo - redarguiu gravemente Milady -, enganou-me, e uma vez que me enganou merece a morte.

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- Que morra ento, visto o condenardes! - declarou d'Artagnan em tom to firme que pareceu a Milady a expresso de uma dedicao a toda a prova.
E aproximou-se imediatamente dele.
- No poderamos dizer quanto tempo durou a noite para Milady; mas d'Artagnan julgava estar junto dela havia apenas duas horas quando o dia rompeu por entre as fendas 
das gelosias e em breve invadiu o quarto com a sua claridade macilenta.
Ento Milady, vendo que d'Artagnan a ia deixar, recordou-lhe a promessa que fizera de a vingar de Wardes.
- Estou pronto - respondeu d'Artagnan -, mas primeiro gostaria de ter a certeza de uma coisa.
- Qual? - perguntou Milady.
- De que me amais.
- Parece-me que vo-lo provei.
- Sim, e por isso vos perteno de corpo e alma.
- Obrigada, meu bravo amante! Mas assim como vos provei o meu amor, provar-me-eis tambm o vosso, no  verdade?
- Certamente. No entanto, se me amais como dizeis - continuou d'Artagnan -, no receais um pouco por mim?
- Que posso recear?
- Que seja ferido gravemente, morto mesmo.
- Impossvel - declarou Milady. - Sois um homem to valente e uma to fina espada...
- No prefereis portanto - insistiu d'Artagnan - um meio que vos vingaria da mesma maneira tornando intil o combate?...
Milady olhou o amante em silncio; a claridade baa dos primeiros raios de luz dava aos seus olhos uma expresso estranhamente funesta.
- Na verdade - disse ela -, agora estou convencida de que hesitais.
- No, no hesito; mas  que esse pobre conde de Wardes me mete realmente pena desde que j no o amais, e parece-me que um homem  to cruelmente punido s por 
perder o vosso amor que no precisa doutro castigo.
- Quem vos disse que o amei? - perguntou Milady.
- Pelo menos posso crer agora sem demasiada fatuidade que amais outro - respondeu o jovem em tom acariciador -, e alm disso, repito-vos, interesso-me pelo conde.
- Vs? - perguntou Milady.
- Sim, eu.
- E porqu?
- Porque s eu sei...
- O qu?
- Que est longe de ser, ou antes, de ter sido to culpado para convosco como parece.

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- Deveras? - inquiriu Milady, com ar inquieto. - Explicai-vos, porque no sei realmente o que quereis dizer.
E fitava d'Artagnan, que a tinha abraada, com olhos que pareciam inflamar-se pouco a pouco.
- Bom, sou um homem que assume a responsabilidade dos seus actos - respondeu d'Artagnan, decidido a acabar com aquilo - e uma vez que o vosso amor me pertence, que 
estou bem certo de o possuir... porque o possuo, no  verdade?
- Todo inteiro. Continuai.
- Enfim, sinto-me como que deslumbrado e pesa-me uma confisso.
- Uma confisso?
- Se duvidasse do vosso amor no a faria; mas amais-me, minha bela amante, no  verdade que me amais?
- Sem dvida.
- Ento, se por excesso de amor me tivesse tornado culpado para convosco, perdoar-me-eis?
- Talvez...
D'Artagnan tentou, com o mais terno sorriso que conseguiu esboar, aproximar os lbios dos de Milady, mas ela afastou-o.
- Essa confisso... - disse, empalidecendo - que confisso  essa?
- Tnheis marcado encontro a Wardes na ltima quinta-feira, neste mesmo quarto, no  verdade?
- No, isso no  verdade! - respondeu Milady num tom de voz to firme e com um ar to impassvel que, se d'Artagnan no tivesse absoluta certeza do que dizia, duvidaria.
- No mintais, meu belo anjo - disse d'Artagnan, sorrindo -, pois seria intil.
- Como assim? Falai! Matais-me!
- Oh, sossegai, no sois de modo algum culpada para comigo, pois j vos perdoei!
- E depois, e depois?
- Wardes no pode vangloriar-se de nada.
- Porqu? Vs prprio me dissestes que o anel...
- O anel, meu amor, sou eu que o tenho. O conde de Wardes de quinta-feira e o d'Artagnan de hoje so a mesma pessoa.
O imprudente esperava uma surpresa laivada de pudor, uma tempestadezinha que se desfaria em lgrimas; mas enganava-se redondamente e o seu erro no foi longe.
Plida e terrvel, Milady endireitou-se e, repelindo d'Artagnan com um violento soco no peito, saltou da cama.
O dia j nascera ento quase por completo.
D'Artagnan segurou-a pelo penteador, de fino pano da ndia, para implorar o seu perdo; mas ela, num gesto brusco e resoluto, tentou fugir. Ento, a cambraia de 
linho rasgou-se, deixando-lhe os ombros a descoberto, e num desses belos ombros torneados e brancos, d'Artagnan, com espanto inexprimvel, reconheceu a flor-de-lis, 
a marca indelvel impressa pela mo infamante do carrasco.
- Grande Deus! - exclamou d'Artagnan, largando o penteador. E ficou mudo, imvel e siderado na cama.
Milady sentiu-se denunciada pelo prprio espanto de d'Artagnan. Sem dvida ele vira tudo e conhecia agora o seu segredo, segredo terrvel, que toda a gente ignorava, 
excepto ele.
Virou-se no j como uma mulher furiosa, mas sim como uma pantera ferida.
- Ah, miservel, traste-me cobardemente e alm disso conheces o meu segredo! Morrers!
E correu para um cofre com embutidos colocado em cima do toucador, abriu-o com mo febril e trmula, tirou dele um punhalzinho de cabo de ouro e lmina aguada e 
fina, dirigiu-se de novo para a cama e saltou sobre d'Artagnan, seminu.
Embora o jovem fosse valente, como sabemos, ficou apavorado com aquele rosto transtornado, aquelas pupilas horrivelmente dilatadas, aquelas faces plidas e aqueles 
lbios cruis. Recuou at ao espao entre a cama e a parede, como faria  aproximao de uma serpente que rastejasse na sua direco, deu com a mo molhada de suor 
na espada e desembainhou-a.
Mas sem se preocupar com a espada, Milady tentou subir de novo para a cama a fim de o ferir e s se deteve quando sentiu a ponta aguada da espada na garganta.
Tentou ento agarrar a espada com as mos; mas d'Artagnan gorou-lhe os intentos e, ameaando feri-la ora nos olhos, ora no peito, deixou-se escorregar para debaixo 
da cama e procurou, para bater em retirada, a porta que comunicava com o quarto de Ketty.
Entretanto, Milady procurava atirar-se a ele, praguejando horrivelmente e rugindo como uma fera.
Pareciam ambos empenhados num duelo, mas d'Artagnan tornava-se pouco a pouco senhor da situao.
- Pronto, bela dama, pronto! Acalmai-vos por Deus, acalmai-vos, ou desenho-vos segunda flor-de-lis no outro ombro...
- Infame! Infame! - bramia Milady.
Mas d'Artagnan, continuando a procurar a porta, mantinha-se na
defensiva.
Ao ouvir o barulho que faziam, ela derrubando os mveis para se aproximar dele e ele abrigando-se atrs desses mesmos mveis para se defender dela, Ketty abriu a 
porta. D'Artagnan, que manobrara constantemente para se aproximar daquela porta, encontrava-se apenas a trs passos dela. Num nico salto passou do quarto de Milady 
para o da criada e, rpido como um relmpago, fechou a porta,  qual se encostou com todo o seu peso, enquanto Ketty corria os ferrolhos.
Ento Milady tentou derrubar a divisria que a separava do outro quarto, empregando para isso foras muito superiores s de uma mulher, mas quando verificou que 
isso era impossvel

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crivou a porta de punhaladas, algumas das quais atravessaram a espessura da madeira.
Cada punhalada era acompanhada de uma imprecao terrvel.
- Depressa, depressa. Ketty - disse d'Artagnan a meia voz, uma vez os ferrolhos corridos. - Faz-me sair do palcio, pois se lhe dermos tempo para isso mandar-me- 
matar pelos criados.
- Mas no podeis sair assim - observou Ketty. - Estais completamente nu!
-  verdade - reconheceu d'Artagnan, que s ento reparou no estado em que se encontrava. -  verdade... Veste-me como puderes, mas despachemo-nos;  uma questo 
de vida ou de morte, compreendes?
Ketty no compreendia muito bem; mas num abrir e fechar de olhos meteu-o num vestido s flores e cobriu-o com uma grande touca e com um mantelete; deu-lhe pantufas 
para se calar e depois arrastou-o pelos degraus. Era tempo: Milady j tocara e acordara todo o palcio. O porteiro abriu o porto  ordem de Ketty, no preciso momento 
em que Milady, seminua, gritava da janela:
- No abras!



        XXXVIII - COMO SEM SE INCOMODAR, ATHOS ARRANJOU
                 O SEU EQUIPAMENTO


        O jovem fugiu enquanto ela o ameaava ainda, num gesto impotente. Assim que o perdeu de vista, Milady caiu sem sentidos no seu quarto.
D'Artagnan estava de tal modo transtornado que, sem se preocupar com o que aconteceria a Ketty, atravessou metade de Paris, sempre a correr, e s parou diante da 
porta de Athos. A desorientao do seu esprito, o terror que o esporeava, os gritos de algumas patrulhas que o perseguiam e a assuada de alguns transeuntes que, 
apesar da hora matinal, iam  sua vida, s contriburam para que corresse ainda mais.
Atravessou o ptio, subiu os dois andares de Athos e bateu  porta estrepitosamente.
Grimaud veio abrir, com os olhos inchados de sono. D'Artagnan precipitou-se com tanta fora na antecmara que quase o deitou ao cho.
Apesar do mutismo habitual do pobre rapaz, desta vez a palavra acudiu-lhe aos lbios.
- Eh l, eh l!... - gritou. - Que queres daqui, galdria? Que pretendes, rameira?

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D'Artagnan tirou a touca e libertou as mos do mantelete. Ao ver aqueles bigodes e aquela espada nua, o pobre diabo verificou que estava diante de um homem.
Julgou ento tratar-se de algum assassino e desatou a berrar:
- Socorro! Quem me acode!
- Cala-te, desgraado! - ordenou-lhe o jovem. - Sou d'Artagnan, no me reconheces? Onde est o teu amo?
- Vs, o Sr. d'Artagnan?... - duvidou Grimaud, apavorado. - Impossvel!
- Grimaud - disse Athos, saindo do seu quarto em roupo -,
parece-me que vos permitistes falar.
- Ah, senhor,  que... - Silncio!
Grimaud contentou-se com indicar d'Artagnan ao amo, com o dedo.
Athos reconheceu o seu camarada e por mais fleumtico que fosse soltou uma gargalhada, alis perfeitamente justificada pela mascarada estranha que tinha diante dos 
olhos: touca s trs pancadas, saias cadas sobre as pantufas, mangas arregaadas e bigodes eriados de emoo.
- No riais, meu amigo - pediu d'Artagnan. - No riais, por Deus, porque juro-vos pela salvao da minha alma que no h nada para rir.
E pronunciou estas palavras com um ar to solene e com um pnico to sincero que Athos pegou-lhe imediatamente nas mos e perguntou:
- Fostes ferido, meu amigo? Estais to plido!
- No, mas acaba de me acontecer uma coisa terrvel. Estais s,
Athos?
- Por Deus, quem quereis que esteja em minha casa a esta hora?
- Est bem, est bem.
E d'Artagnan precipitou-se para o quarto de Athos.
- Eh, falai! - pediu o dono da casa, fechando a porta e correndo o ferrolho para no serem incomodados. - O rei morreu? Matastes o Sr. Cardeal? Estais muito perturbado. 
Vamos, vamos, falai, pois sinto-me realmente morrer de inquietao.
- Athos - disse d'Artagnan, desembaraando-se das suas roupas femininas e aparecendo em camisa -, preparai-vos para ouvir uma histria incrvel e inaudita.
- Vesti primeiro este roupo - disse o mosqueteiro ao amigo.
- D'Artagnan vestiu o roupo, mas trocou uma manga por outra, de tal modo estava ainda desorientado.
- Ento? - incitou-o Athos.
- Ento?... - respondeu d'Artagnan, inclinando-se para o ouvido de Athos e baixando a voz. - Ento, Milady est marcada com uma flor-de-lis no ombro.
- Ah! - gritou o mosqueteiro, como se tivesse recebido uma bala
no corao.
- Vejamos, estais seguro de que a outra se encontra bem morta?

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- A outra? - disse Athos em voz abafada, to abafada que d'Artagnan mal a ouviu.
- Sim, aquela de quem me falastes um dia em Amiens.
Athos soltou um gemido e deixou cair a cabea nas mos.
- Esta - continuou d'Artagnan -  uma mulher de vinte e seis a vinte e oito anos.
- Loura, no  verdade? - disse Athos. -Sim.
- De olhos azuis-claros, de uma luminosidade estranha, pestanas e sobrancelhas negras?
- Sim.
- Alta, bem feita? Falta-lhe um dente canino no maxilar superior...
- Sim.
- A flor-de-lis  pequena, de cor arroxeada e quase se no v debaixo das camadas de creme que lhe aplica.
- Sim.
- Contudo, dizeis que  inglesa!
- Tratam-na por Milady, mas deve ser francesa. Lorde de Winter  apenas seu cunhado.
- Quero v-la, d'Artagnan.
- Cuidado, Athos, cuidado! Quisestes mat-la e ela  mulher para vos pagar na mesma moeda e no falhar.
- No ousar dizer nada, pois isso equivaleria a denunciar-se a si mesma.
- Ela  capaz de tudo! Nunca a vistes furiosa?
- No - respondeu Athos.
-  pior do que um tigre, do que uma pantera! Ah, meu caro Athos, receio muito ter atrado sobre ns dois uma vingana terrvel!
D'Artagnan contou ento tudo: a clera insensata de Milady e as suas ameaas de morte.
- Tendes razo e, pela salvao da minha alma, trocaria a minha vida por um cabelo - declarou Athos. - Felizmente, deixamos Paris depois de amanh. Seguimos, segundo 
todas as probabilidades, para La Rochelle, e depois de partirmos...
- Seguir-vos- at ao fim do mundo, Athos, se vos reconhecer. Deixai portanto o seu dio exercer-se apenas sobre mim.
- Que me importa que ela me mate, meu caro? - redarguiu Athos. - Acaso julgais que estou agarrado  vida?
- H qualquer horrvel mistrio em tudo isto, Athos! Aquela mulher  espia do cardeal, tenho a certeza!
- Nesse caso, acautelai-vos. Se o cardeal no nutre por vs grande admirao depois do caso de Londres, em contrapartida deve ter-vos um dio de morte; mas como 
no fim de contas no vos pode censurar nada ostensivamente, o remdio para satisfazer o seu dio, e convm no esquecer que se trata do dio de um cardeal,  recorrer 
a meios escusos. Portanto, acautelai-vos! Se sairdes, no deveis sair sozinho;
quando comerdes, tomai as vossas precaues... Desconfiai de tudo, enfim, mesmo da vossa sombra.
- Felizmente - observou d'Artagnan -, trata-se de escapar sem contratempos apenas at depois de amanh  noite, porque uma vez no Exrcito s teremos, assim espero, 
homens a temer.
- Entretanto - declarou Athos -, renuncio  minha recluso e vou acompanhar-vos por toda a parte. Tendes de regressar  Rua dos Fossoyeurs; vou convosco.
- O pior  que por muito perto que a minha casa fique daqui no posso regressar neste estado - lembrou d'Artagnan.
-  verdade - concordou Athos. E tocou  campainha. Grimaud entrou.
Athos fez-lhe sinal para ir a casa de d'Artagnan buscar-lhe roupas. Grimaud respondeu por outro sinal que compreendia perfeitamente
e saiu.
- O pior  que nada disto contribui para resolvermos o problema do equipamento, antes pelo contrrio, meu caro amigo - observou Athos. - Porque se no me engano 
deixastes tudo o que tnheis em casa de Milady, que sem dvida no ter a ateno de vos devolver o vosso esplio. Felizmente, tendes a safira.
- A safira pertence-vos, meu caro Athos! No me dissestes que era um anel de famlia?
- Sim, o meu pai comprou-o por dois mil escudos, segundo me disse uma vez; fazia parte das prendas de noivado que deu a minha me;  um anel magnfico. A minha me 
deu-mo e eu, louco, em vez de o guardar como uma relquia sagrada, dei-o por minha vez a essa miservel.
- Ento, meu caro, recuperai o anel, que em meu entender s a vs pertence.
- Eu recuperar o anel que j passou pelas mos dessa infame? Nunca! Esse anel est emporcalhado, d'Artagnan.
- Nesse caso, vendei-o.
- Vender uma jia que foi da minha me? Confesso-vos que consideraria isso uma profanao.
- Ento empenhai-a; com certeza que vos emprestaro muito mais do que um milhar de escudos. Com esse dinheiro resolvereis os vossos problemas, e depois, com o primeiro 
numerrio que obtiverdes, desempenh-la-eis expurgada das suas antigas mculas, visto ter passado pelas mos dos usurrios.
Athos sorriu.
- Sois um excelente companheiro, meu caro d'Artagnan; animais com a vossa eterna boa disposio os pobres espritos aflitos. Seja, empenharemos o anel, mas com uma 
condio!
- Qual?
- Sero quinhentos escudos para vs e quinhentos escudos para
mim.

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- Que dizeis, Athos? S preciso de um quarto dessa importncia, visto ser das Guardas, e vendendo a minha sela arranj-la-ei. Que mais preciso? Um cavalo para Planchet, 
apenas. Alm disso, esqueceis-vos de que tambm tenho um anel.
- A que tendes ainda mais apego, parece-me, do que tenho ao meu; pelo menos foi o que julguei notar.
- Sim, porque numa circunstncia extrema nos pode tirar no s de qualquer grande apuro, mas tambm de algum grande perigo; trata-se no apenas de um diamante precioso, 
mas igualmente de um talism encantado.
- No vos compreendo, mas acredito no que me dizeis. Voltemos porm ao meu anel, ou antes, ao vosso; ficareis com metade da importncia que nos derem sobre ele ou 
lan-lo-ei ao Sena, e duvido que como a Policrates haja algum peixe to complacente que no-lo restitua.
- Pronto, aceito! - declarou d'Artagnan.
Neste momento, Grimaud entrou, acompanhado de Planchet. Este, inquieto a respeito do amo e curioso de saber o que lhe acontecera, aproveitara a oportunidade e trazia 
ele prprio as roupas.
D'Artagnan vestiu-se e Athos fez outro tanto; depois, quando ambos estiveram prontos para sair, Athos fez a Grimaud o sinal de um homem que leva uma espingarda  
cara. Grimaud despendurou imediatamente o seu mosqueto e aprestou-se para acompanhar o amo.
Athos e d'Artagnan, seguidos dos seus criados, chegaram sem incidente  Rua dos Fossoyeurs. Bonacieux estava  porta e olhou d'Artagnan com ar trocista.
- Eh, meu inquilino, apressai-vos! - exclamou. - Tendes uma linda rapariga  vossa espera em casa, e as mulheres, como sabeis, no gostam que as faam esperar!
-  Ketty! - exclamou d'Artagnan. E correu para o passadio.
Efectivamente, no patamar que levava ao seu quarto e encostada  porta, encontrou a pobre criana toda trmula, a qual, assim que o viu comeou a dizer:
- Prometestes-me a vossa proteco; prometestes-me livrar-me da sua clera; lembrai-vos de que fostes vs que me perdestes!
- Sim, sem dvida - respondeu d'Artagnan. - Tranquilizai-vos, Ketty. - Mas que aconteceu depois da minha partida?
- No sei - respondeu Ketty. - Os criados acorreram aos seus gritos; ela estava louca de clera. Tudo o que existe de imprecaes bolou contra vs. Pensei ento 
que se recordaria de que fora pelo meu quarto que tnheis entrado no dela e me consideraria vossa cmplice. Peguei no pouco dinheiro que tinha, nas minhas coisas 
mais preciosas e fugi.
- Pobre criana! Mas que hei-de fazer de ti? Parto depois de amanh...
- Tudo o que quiserdes, Sr. Cavaleiro; fazei-me sair de Paris, tirai-me de Frana.

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- No te posso levar comigo para o cerco de La Rochelle - disse d'Artagnan.
- Pois no, mas podeis colocar-me na provncia, em casa de alguma dama vossa conhecida; na vossa terra, por exemplo.
- Ah!, minha querida amiga, na minha terra as damas no tm criadas de quarto! Mas espera, tenho uma ideia. Planchet, vai-me buscar Aramis; que venha imediatamente. 
Temos uma coisa importantssima para lhe dizer.
- Compreendo - disse Athos. - Mas por que no Porthos? Parece-me que a sua marquesa...
- A marquesa de Porthos faz-se vestir pelos amanuenses do marido - redarguiu d'Artagnan, rindo. - Alis, Ketty no gostaria de morar na Rua dos Ursos, no  verdade, 
Ketty?
- Morarei onde quiserem - respondeu Ketty -, desde que esteja bem escondida e ningum saiba onde estou.
- Agora que nos vamos separar, Ketty, e portanto j no tens cimes de mim...
- Sr. Cavaleiro, de longe ou de perto, amar-vos-ei sempre - atalhou Ketty.
- Onde diabo se havia de ir aninhar a constncia... - murmurou Athos.
- Tambm eu - apressou-se a dizer d'Artagnan -, tambm eu te amarei sempre, podes estar certa. Mas vejamos, responde-me. Agora atribuo grande importncia  pergunta 
que te vou fazer: nunca ouvistes falar de uma jovem dama raptada certa noite?
- Esperai... Oh, meu Deus, Sr. Cavaleiro, tambm amais essa mulher?!
- No, quem a ama  um dos meus amigos. Olha,  Athos, aqui presente.
- Eu?! - exclamou Athos, no tom de voz de um homem que descobre ter pisado uma cobra.
- Evidentemente! - redarguiu d'Artagnan, apertando a mo de Athos. - Bem sabeis o interesse que nos merece a todos a pobre Sr.a Bonacieux. De resto, Ketty no dir 
nada; no  verdade, Ketty? Compreendes, minha filha - continuou d'Artagnan -,  a mulher do horrvel macaco que viste l em baixo  entrada.
- Oh, meu Deus! - exclamou Ketty. - Lembrais-me o meu medo; oxal me no tenha reconhecido!
- Reconhecer-te como? J tinhas visto aquele homem?
- Foi duas vezes a casa de Milady.
-  isso... Mais ou menos quando?
- H quinze ou dezoito dias, pouco mais ou menos.
- Exactamente...
- E ontem  noite voltou.
- Ontem  noite?...
- Sim, pouco antes de vs prprio chegardes.

169


- Meu caro Athos, estamos cercados por uma rede de espies! E achas que ele te reconheceu, Ketty?
- Baixei a touca, ao v-lo, mas talvez demasiado tarde.
- Descei, Athos, pois ele desconfia menos de vs do que de mim, e vede se continua  porta.
Athos desceu e tornou a subir pouco depois.
- Foi-se embora e a casa est fechada - informou.
- Foi fazer o seu relatrio e dizer que os pombos esto neste momento todos no pombal.
- Nesse caso, levantemos voo e deixemos aqui apenas Planchet, para nos transmitir as notcias - sugeriu Athos.
- Um momento! E Aramis, que mandmos buscar?
-  verdade - reconheceu Athos. - Esperemos por Aramis. Neste momento, Aramis entrou.
Expuseram-lhe o caso e disseram-lhe como era urgente que entre todos os seus altos conhecimentos arranjasse um lugar para Ketty. Aramis reflectiu um instante e perguntou 
corando:
- Ser realmente um grande favor para vs, D'Artagnan?
- To grande que vos ficarei reconhecido toda a minha vida.
- Bom, a Sr.a de Bois-Tracy pediu-me, creio que para uma das suas amigas que reside na provncia, uma criada de quarto de confiana. Se podeis, meu caro d'Artagnan, 
responder-me por esta menina...
- Oh, senhor - interveio Ketty -, serei completamente dedicada, podeis estar certo,  pessoa que me proporcione os meios de deixar Paris!
- Ento, est tudo resolvido - disse Aramis.
Sentou-se a uma mesa e escreveu um bilhetinho, que lacrou com um anel, e deu o bilhete a Ketty.
- Agora, minha filha - disse d'Artagnan -, bem sabes que nem para ns nem para ti convm permanecermos aqui. Portanto, separemo-nos. Encontrar-nos-emos de novo em 
melhores dias.
- Mas seja qual for o tempo que no nos vejamos e seja qual for o lugar onde esteja - disse Ketty -, encontrar-me-eis amando-vos tanto como vos amo hoje.
- Juramento de jogador - comentou Athos, enquanto d'Artagnan acompanhava Ketty  escada.
Pouco depois os trs jovens separaram-se, depois de combinarem encontrar-se s quatro horas em casa de Athos, e deixaram Planchet de guarda  casa.
Aramis regressou a sua casa e Athos e d'Artagnan foram tratar de empenhar a safira.
Como previra o nosso gasco, obtiveram facilmente trezentas pistolas pelo anel. Alm disso, o judeu declarou que se lho quisessem vender, como emparceirava maravilhosamente 
com uns brincos, daria at quinhentas pistolas.
Com a actividade de dois soldados e a cincia de dois peritos, Athos
e d'Artagnan gastaram apenas trs horas a comprar todo o equipamento do mosqueteiro. Alis, Athos era condescendente e grande senhor at  ponta das unhas. Quando 
uma coisa lhe agradava pagava o preo pedido sem sequer tentar obter um desconto. D'Artagnan bem desejaria fazer a tal respeito algumas observaes, mas Athos punha-lhe 
a mo no ombro sorrindo e d'Artagnan compreendia que estava bem para si, pequeno fidalgo gasco, regatear, mas no para um homem que tinha ares de prncipe.
O mosqueteiro arranjou um soberbo cavalo andaluz, negro como o azeviche, de narinas de fogo e pernas finas e elegantes, dos seus seis anos. Examinou-o e no lhe 
encontrou nenhum defeito. Pediram-lhe por ele mil libras.
Talvez lho vendessem por menos; mas enquanto d'Artagnan discutia o preo com o alquilador, Athos contava as cem pistolas na mesa.
Grimaud teve um cavalo picardo, atarracado e forte, que custou trezentas libras.
Mas depois de comprar a sela para o cavalo do criado e as armas para Grimaud, Athos verificou que no lhe restava um soldo das suas cento e cinquenta pistolas. D'Artagnan 
ofereceu ao amigo parte do quinho que lhe coubera, dizendo-lhe que mais tarde lhe pagaria o que lhe emprestasse. Mas Athos, como nica resposta, limitou-se a encolher 
os ombros.
- Quanto dava o judeu pela safira para ficar com ela definitivamente? - perguntou.
- Quinhentas pistolas.
- Quer dizer, mais duzentas pistolas; cem pistolas para vs, cem pistolas para mim. Mas  uma autntica fortuna, meu amigo! Voltemos a casa do judeu.
- Como, quereis...
- Decididamente, aquele anel trar-me-  memria recordaes demasiado tristes; depois, nunca teremos trezentas pistolas para o resgatar, de modo que perderamos 
duas mil libras no negcio. Ide dizer-lhe que o anel  dele, d'Artagnan, e voltai com as duzentas pistolas.
- Reflecti, Athos.
- O dinheiro  vista est caro nos tempos que correm e  preciso saber fazer sacrifcios. Ide, d'Artagnan, ide; Grimaud acompanhar-vos- com o seu mosqueto.
Cerca de meia hora depois, d'Artagnan regressou com as duas mil libras e sem que lhe tivesse acontecido nenhum acidente.
E foi assim que Athos se encontrou de posse de recursos com que no contava.

        170 - 171


        XXXIX - UMA VISO


        s quatro horas os quatro amigos estavam reunidos em casa de Athos. As suas preocupaes acerca do equipamento tinham desaparecido por completo e cada rosto 
conservava apenas a expresso das suas prprias e ntimas inquietaes; porque por detrs de toda a ventura presente esconde-se um temor futuro.
De sbito, Planchet entrou com duas cartas dirigidas a d'Artagnan.
Uma era um bilhetinho delicadamente dobrado ao comprido, com um bonito selo de cera verde representando uma pomba com um ramo de oliveira no bico.
A outra era uma grande carta quadrada, onde brilhavam as armas terrveis de Sua Eminncia o cardeal-duque.
Perante a cartinha, o corao de d'Artagnan deu um pulo, pois o jovem reconhecera a letra de quem a escrevera; e embora s tivesse visto aquela letra uma vez, fixara-lhe 
o talhe no mais profundo do seu corao.
Pegou pois na carta e abriu-a vivamente. Dizia:


Passeai na prxima quarta-feira, das seis s sete horas da tarde, na estrada de Chaillot, e observai com ateno as carruagens que passarem, mas se prezais a vossa 
vida e a das pessoas que vos amam no digais uma palavra nem faais um gesto que possa revelar que reconhecestes a que se expe a tudo para vos ver um instante.


Nenhuma assinatura.
-  uma cilada - disse Athos. - No vades, d'Artagnan.
- No entanto, estou certo de reconhecer a letra - observou d'Artagnan.
- Talvez seja falsa - redarguiu Athos. - s seis ou sete horas, neste tempo, a estrada de Chaillot est completamente deserta; seria o mesmo que irdes passear na 
floresta de Bondy.
- E se fssemos todos? - sugeriu d'Artagnan. - Que diabo, com certeza no devoraro os quatro! Mais quatro lacaios, mais os cavalos, mais as armas...
- Alm disso, seria uma oportunidade de mostrarmos os nossos equipamentos - adiantou Porthos.
- Mas se  uma mulher que escreve e essa mulher no deseja ser vista, lembrai-vos que a comprometeis, d'Artagnan, o que no fica bem a um gentil-homem - observou 
Aramis.
- Ns ficaremos para trs e s ele avanar - sugeriu Porthos.
- Pois sim, mas um tiro de pistola  fcil de disparar de uma carruagem a galope.

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- Ora, no me acertaro! - contraps d'Artagnan. - E se isso acontecer apanharemos a carruagem e exterminaremos quem l for dentro. Sero uns inimigos a menos.
- Ele tem razo - disse Porthos. - Lutar! De resto, precisamos de experimentar as nossas armas.
- Pronto, proporcionemo-nos esse prazer! - exclamou Aramis, com o seu ar suave e descontrado.
- Como quiserdes - declarou Athos.
- Meus senhores - disse d'Artagnan -, so quatro e meia e temos apenas o tempo necessrio para estarmos s seis horas na estrada de Chaillot.
- Alm disso, se sairmos demasiado tarde, ningum nos ver, o que seria uma pena - lembrou Porthos. - Preparemo-nos portanto, meus senhores.
- Esqueceis-vos da segunda carta - observou Athos. - No entanto, a julgar pelo selo, parece-me que merece bem ser aberta... Por mim declaro-vos. meu caro d'Artagnan, 
que me preocupa muito mais do que o bilhetinho que acabais de guardar suavemente junto do corao...
D'Artagnan corou:
- Bom, meus senhores - disse depois -, vejamos o que me quer
Sua Eminncia!
E d'Artagnan abriu a carta e leu:


O Sr. d'Artagnan, guarda do rei, companhia de Essarts,  esperado no Palais-Cardinal esta noite s oito horas.

La Houdinire, Capito dos Guardas.



- Diabo! - exclamou Athos. - Aqui est uma entrevista muito mais inquietante do que a outra.
- Irei  segunda no regresso da primeira - disse d'Artagnan. - Uma  s sete horas, a outra s oito; haver tempo para tudo.
- Hum!... Eu no iria - declarou Aramis. - Um cavaleiro corts no pode faltar a um encontro marcado por uma dama; mas um gentil-homem prudente pode dispensar-se 
de ir a casa de Sua Eminncia, sobretudo quando tem motivos para crer que no  para o cumprimentarem.
- Sou da opinio de Aramis - disse Porthos.
- Meus senhores - interveio d'Artagnan -, j uma vez, por intermdio do Sr. de Cavois, recebi um convite idntico de Sua Eminncia, no lhe liguei importncia e 
no dia seguinte aconteceu-me uma grande desgraa: Constance desapareceu. Seja o que for que me possa acontecer, irei.
- Se estais decidido, ide - disse Athos.
- E a Bastilha? - lembrou Aramis.

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- Ora, tirar-me-eis de l! - volveu-lhe d'Artagnan.
- Sem dvida! - redarguiram Aramis e Porthos, com uma descontraco admirvel e como se fosse a coisa mais simples deste mundo. - Sem dvida que vos tiraremos. Mas 
entretanto, como devemos partir depois de amanh, fareis melhor no vos arriscando a ir l parar.
- Faamos outra coisa - sugeriu Athos. - No o deixemos esta noite, esperemo-lo cada um a uma porta do palcio com trs mosqueteiros atrs de ns e se virmos sair 
qualquer carruagem fechada e meio suspeita cair-lhe-emos em cima. H muito tempo que no ajustamos contas com os guardas do Sr. Cardeal e o Sr. de Trville deve 
julgar-nos mortos.
- Decididamente, Athos, nascestes para ser general de exrcito - declarou Aramis. - Que dizeis do plano, senhores?
- Admirvel! - exclamaram em coro.
- Bom - disse Porthos -, eu corro ao quartel e previno os nossos camaradas para estarem prontos s oito horas. O encontro ser na Praa do Palais-Cardinal. Entretanto, 
mandai os criados selar os cavalos.
- Mas eu no tenho cavalo - disse d'Artagnan. - No faz mal, mando buscar um ao palcio do Sr. de Trville.
-  intil, montareis um dos meus - contraps Aramis.
- Quantos tendes? - perguntou d'Artagnan.
- Trs - respondeu Aramis, sorrindo.
- Meu caro sois sem dvida o poeta melhor montado de Frana e Na varra! - exclamou Athos.
- Escutai, meu caro Aramis, com certeza no sabeis que fazer de trs cavalos, no  verdade? Nem sequer compreendo para que comprastes trs cavalos...
- A verdade  que s comprei dois - respondeu Aramis.
- E o terceiro caiu-vos do cu?
- No, o terceiro foi-me trazido esta manh por um criado sem libr que no quis dizer-me a quem pertencia e que me afirmou ter recebido a ordem do seu amo...
- Ou da sua ama - interrompeu d'Artagnan.
- Isso no vem para o caso - observou Aramis, corando. - E que me afirmou, dizia eu, ter recebido ordem da sua ama, que o encarregou de meter o cavalo na minha cavalaria 
sem me dizer da parte de quem vinha.
- S aos poetas  que essas coisas acontecem - comentou gravemente Athos.
- Bom, nesse caso, faamos melhor - disse d'Artagnan. - Qual dos dois cavalos montareis: o que comprastes ou o que vos deram?
- O que me deram, indubitavelmente. Compreendeis, d'Artagnan, que no posso fazer essa injria...
- Ao ofertante desconhecido - concluiu d'Artagnan.
- Ou  ofertante misteriosa - acrescentou Athos.
- O que comprastes tornou-se-vos portanto intil?
- Mais ou menos.
- Escolheste-o vs prprio?
- E com o maior cuidado. A segurana do cavaleiro depende, como sabeis, quase sempre do seu cavalo.
- Ento, cedei-mo pelo preo que vos custou.
- Ia oferecer-vo-lo, meu caro d'Artagnan, dando-vos todo o tempo que vos fosse necessrio para me pagardes essa ninharia.
- Quanto vos custou?
- Oitocentas libras.
- Aqui esto quarenta pistolas duplas, meu caro amigo - disse d'Artagnan, tirando o dinheiro da algibeira. - Sei que  a moeda em que vos pagam os vossos poemas...
- Pelos vistos no vos falta dinheiro... - observou Aramis.
- Estou rico, riqussimo, meu caro!
E d'Artagnan fez soar na algibeira o resto das suas pistolas.
- Mandai a vossa sela para o quartel dos mosqueteiros e viro trazer-vos o vosso cavalo aqui, juntamente com os nossos.
- Muito bem. Mas so quase cinco horas; despachemo-nos.
Um quarto de hora depois, Porthos apareceu ao fundo da Rua Frou montado num ginete magnfico; Mousqueton seguia-o num cavalo da Auvrnia, pequeno, mas slido. Porthos 
resplandecia de satisfao e orgulho.
Ao mesmo tempo, Aramis apareceu na outra extremidade da rua montado num soberbo corcel ingls; Bazin seguia-o num cavalo ruo, trazendo pela rdea um vigoroso macklemburgus: 
era a montada de d'Artagnan.
Os dois mosqueteiros encontraram-se  porta; Athos e d'Artagnan observavam-nos da janela.
- Demnio, tendes a um soberbo cavalo, meu caro Porthos! - disse Aramis.
- Pois tenho - respondeu Porthos. - Era o que me deviam ter enviado primeiro se uma brincadeira de mau gosto do marido da minha dama o no tivesse substitudo por 
outro; mas o marido foi castigado e eu obtive todas as satisfaes.
Planchet e Grimaud apareceram ento por seu turno, trazendo pela mo as montadas dos seus amos. D'Artagnan e Athos desceram, montaram juntamente com os seus companheiros 
e todos quatro se puseram a caminho: Athos no cavalo que devia  mulher, Aramis no cavalo que devia  amante, Porthos no cavalo que devia  procuradora e d'Artagnan 
no cavalo que devia  sua boa fortuna, a melhor amante que se pode desejar.
Os criados seguiam-nos.
Como previra Porthos, a cavalgada produziu bom efeito; e se a Sr.a Coquenard se encontrasse no caminho de Porthos e pudesse ver que grande ar ele tinha montado no 
seu belo ginete espanhol, no lamentaria a sangria que fizera ao cofre-forte do marido.

174 - 175


Perto do Louvre, os quatro amigos encontraram o Sr. de Trville que regressava de Saint-Germain e os deteve para os cumprimentar pelo seu equipamento, o que num 
instante reuniu  sua volta algumas centenas de basbaques.
D'Artagnan aproveitou a oportunidade para falar ao Sr. de Trville da carta com o grande selo vermelho e as armas ducais; claro est que a respeito da outra no 
disse nada.
O Sr. de Trville aprovou a resoluo que ele tomara e garantiu-lhe que se no dia seguinte no tivesse reaparecido, ele, Trville, se encarregaria de o encontrar, 
onde quer que estivesse.
Neste momento o relgio da Samaritana deu seis horas; os quatro amigos desculparam-se com um encontro e despediram-se do Sr. de Trville.
Um tempo de galope levou-os  estrada de Chaillot; o dia comeava a declinar, as carruagens passavam e repassavam; d'Artagnan, guardado a poucos passos de distncia 
pelos amigos, mergulhava os olhos at ao fundo das carruagens e no via nenhuma cara conhecida.
Por fim, depois de um quarto de hora de espera e de o crepsculo cair por completo, surgiu uma carruagem vinda a todo o galope pela estrada de Svres. Um pressentimento 
disse antecipadamente a d'Artagnan que vinha naquela carruagem a pessoa que lhe marcara o encontro, e ele prprio se admirou muito de sentir o corao bater to 
violentamente. Quase no mesmo instante uma cabea de mulher destacou-se da portinhola, com dois dedos na boca, como que para recomendar silncio ou enviar um beijo; 
d'Artagnan soltou um gritinho de alegria: aquela mulher, ou antes, aquela apario, porque a carruagem passara com a rapidez de uma viso, era a Sr.a Bonacieux.
Num gesto involuntrio, e apesar da recomendao feita, d'Artagnan lanou o cavalo a galope e em pouco tempo apanhou a carruagem; mas o vidro da portinhola estava 
hermeticamente fechado: a viso desaparecera.
D'Artagnan recordou-se ento desta recomendao: "Se prezais a vossa vida e a das pessoas que vos amam, permanecei imvel e como se no tivsseis visto nada."
Deteve-se, pois, tremendo no por si, mas sim pela pobre mulher, que evidentemente se expusera a um grande perigo marcando-lhe aquele encontro.
A carruagem continuou o seu caminho sempre em grande velocidade, entrou em Paris e desapareceu.
D'Artagnan ficara interdito no mesmo lugar e sem saber que pensar. Se era a Sr.a Bonacieux e se ela regressava a Paris, porqu aquele encontro fugaz, porqu aquela 
simples troca de um olhar, porqu aquele beijo isolado? Por outro lado, se no era ela, o que tambm era muito possvel, porque a pouca luz que restava tornava o 
erro fcil; se no era ela, no seria o comeo de um golpe de mo montado contra ele com o engodo da mulher pela qual se conhecia o seu amor?


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Os trs companheiros aproximaram-se dele. Todos tinham visto perfeitamente uma cabea de mulher aparecer  portinhola, mas nenhum deles, excepto Athos, conhecia 
a Sr.a Bonacieux. Na opinio de Athos, era de facto ela, mas menos preocupado do que d'Artagnan com o bonito rosto feminino, Athos julgara ver segunda cabea, uma 
cabea de homem, no fundo da viatura.
- Sendo assim - disse d'Artagnan -, transportam-na sem dvida de uma priso para outra. Mas que pretendero da pobre criatura e quando a tornarei a ver?
- Amigo - disse gravemente Athos -, lembrai-vos de que os mortos so os nicos que no estamos expostos a encontrar na terra. Sabeis qualquer coisa parecida a meu 
respeito, no  verdade? Ora, se a vossa amante no est morta, se foi ela que acabmos de ver, encontr-la-eis mais dia menos dia. E talvez, meu Deus - acrescentou 
no tom misantrpico que lhe era prprio -, talvez mais cedo do que desejais?
Deram sete e meia; a carruagem viera atrasada cerca de vinte minutos em relao  hora marcada. Os amigos de d'Artagnan recordaram-lhe que tinha de fazer uma visita, 
embora lhe observassem que estava ainda a tempo de desistir.
Mas d'Artagnan era ao mesmo tempo obstinado e curioso. Metera na cabea que iria ao Palais-Cardinal e saberia o que queria dele Sua Eminncia. Nada seria capaz de 
o fazer mudar de resoluo.
Chegaram  Rua de Saint-Honor e  Praa do Palais-Cardinal, onde encontraram os doze mosqueteiros convocados, que passeavam de um lado para o outro  espera dos 
seis camaradas. S ento lhes explicaram de que se tratava.
D'Artagnan era conhecidissimo no respeitvel corpo de mosqueteiros do rei, onde se sabia que entraria um dia; consideravam-no portanto j como um camarada. Por tudo 
isto, todos aceitaram da melhor vontade a misso para que os convidaram; tratava-se, de resto, segundo todas as probabilidades, de pregar uma partida ao Sr. Cardeal 
e  sua gente, e para tais expedies os dignos gentis-homens estavam sempre prontos.
Athos dividiu-os em trs grupos, tomou o comando de um, deu o segundo a Aramis e o terceiro a Porthos, e depois cada grupo foi-se emboscar defronte de uma sada.
Pela sua parte, d'Artagnan entrou resolutamente pela porta principal.
Embora se sentisse bem apoiado, o jovem no subiu sem grande inquietao a grande escadaria. O seu comportamento com Milady assemelhava-se de certo modo a uma traio 
e d'Artagnan suspeitava das relaes polticas existentes entre aquela mulher e o cardeal; alm disso, Wardes, que to mal colocara, era um dos fiis de Sua Eminncia, 
e d'Artagnan sabia que se Sua Eminncia era terrvel com os seus inimigos tambm era muito dedicado aos seus amigos.
"Se Wardes contou tudo o que se passou entre ns e o cardeal,

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o que  quase certo, e me reconheceu, o que  provvel, posso considerar-me um homem condenado", dizia d'Artagnan para consigo, abanando a cabea. "Mas porque esperou 
ele at hoje?  muito simples: Milady deve ter-se queixado de mim, com aquela hipcrita dor que a torna to interessante, e o meu ltimo crime ter feito transbordar 
a taa... Felizmente", acrescentou, "os meus bons amigos esto l em baixo e no me deixaro levar sem me defender. No entanto, a companhia de mosqueteiros do Sr. 
de Trville no pode fazer sozinha a guerra ao cardeal, que dispe das foras de toda a Frana e perante o qual a rainha no tem poder e o rei no tem vontade. D'Artagnan, 
meu amigo, s valente, possuis excelentes qualidades, mas as mulheres perder-te-o!"
Chegara a esta triste concluso quando entrou na antecmara. Entregou a sua carta ao porteiro de servio, que o mandou entrar para a sala de espera e penetrou no 
interior do palcio.
Na sala de espera estavam cinco ou seis guardas do Sr. Cardeal que reconheceram d'Artagnan, e sabendo que fora ele quem ferira Jussac o olharam sorrindo de modo 
singular.
Tal sorriso pareceu a d'Artagnan de mau agoiro; mas como o nosso gasco no era fcil de intimidar, ou antes, como graas a um grande orgulho natural nas pessoas 
da sua terra no deixava ver facilmente o que lhe ia na alma, quando o que l ia se assemelhava ao medo, colocou-se orgulhosamente diante dos guardas e esperou com 
a mo na anca, numa atitude a que no faltava majestade.
O porteiro regressou e fez sinal a d'Artagnan para o seguir. Pareceu ao jovem que os guardas cochichavam uns com os outros ao verem-no afastar-se.
Seguiu por um corredor, atravessou um grande salo, entrou numa biblioteca e encontrou-se diante de um homem sentado a uma secretria a escrever.
O porteiro introduziu-o e retirou-se sem dizer palavra. D'Artagnan julgou ao princpio estar perante algum juiz que examinasse o seu processo, mas verificou que 
o homem da secretria escrevia, ou antes, corrigia linhas de comprimento desigual, medindo as palavras pelos dedos, e concluiu que estava na presena de um poeta. 
Ao cabo de um instante o poeta fechou o seu manuscrito, na capa do qual estava escrito: "MIRAME, tragdia em cinco actos", e levantou a cabea.
D'Artagnan reconheceu o cardeal.

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        XL - O CARDEAL


        O cardeal apoiou o cotovelo no manuscrito, a face na mo e olhou um instante o jovem. Ningum possua olhar mais perscrutador do que o cardeal de Richelieu, 
e d'Artagnan sentiu esse olhar percorrer-lhe as veias como uma febre.
No entanto, permaneceu impvido, de chapu na mo,  espera das ordens de Sua Eminncia, sem demasiado orgulho, mas tambm sem excessiva humildade.
- Senhor, sois um dos d'Artagnans do Barn? - perguntou-lhe o cardeal.
- Sou, sim, Monsenhor - respondeu o jovem.
- H vrios ramos de d'Artagnans, em Tarbes e nos arredores - disse o cardeal. - A qual pertenceis?
- Sou filho daquele que fez as guerras de religio com o grande rei Henrique, pai de Sua Graciosa Majestade.
- Exacto. Fostes vs que partistes, h cerca de sete ou oito meses, da vossa terra, para vir procurar fortuna na capital?
- Fui, sim, Monsenhor.
- Viestes por Meung, onde vos aconteceu qualquer coisa, j me no lembro o qu, mas enfim, qualquer coisa...
- Monsenhor, eis o que me aconteceu... - comeou d'Artagnan.
-  intil,  intil - atalhou o cardeal, com um sorriso que indicava que conhecia a histria to bem como aquele que lha queria contar. - Vnheis recomendado ao 
Sr. de Trville, no  verdade?
- Vinha, sim, Monsenhor; mas precisamente nesse malfadado caso de Meung...
- A carta perdeu-se - concluiu Sua Eminncia. - Sim, sei isso. Mas o Sr. de Trville  um hbil fisionomista que conhece os homens  primeira vista e colocou-vos 
na companhia do cunhado, o Sr. dos Essarts, deixando-vos na esperana de que mais dia menos dia passareis para os mosqueteiros.
- Monsenhor est perfeitamente informado - disse d'Artagnan.
- Desde ento, aconteceram-vos muitas coisas: passeastes por detrs do Convento dos Cartuxos num dia em que mais valia terdes ido para outro lado; depois, fizestes 
com os vossos amigos uma viagem s termas de Forges: eles ficaram pelo caminho, mas vs continuastes a viagem, simplesmente porque tnheis que fazer em Inglaterra...
- Monsenhor - atalhou d'Artagnan, muito confuso -, eu ia...
-  caa, a Windsor ou a outro lado, o que no  da conta de ningum. Sei isso, porque tenho obrigao de saber tudo. No vosso regresso fostes recebido por uma augusta 
pessoa, e vejo com prazer que conservastes a recordao que vos deu.

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D'Artagnan levou a mo ao diamante que lhe dera a rainha e virou vivamente o engaste para dentro; mas era demasiado tarde.
- No dia seguinte a esse, recebestes a visita de Cavois - prosseguiu o cardeal. - Ia pedir-vos que passsseis pelo palcio; no fizestes essa visita e procedestes 
mal.
- Monsenhor, receava ter incorrido no desagrado de Vossa Eminncia.
- E porqu, senhor? Por terdes cumprido as ordens dos vossos superiores com mais inteligncia e coragem do que qualquer outro no era caso para incorrerdes no meu 
desagrado, mas sim para serdes felicitado! Quem castigo so as pessoas que no obedecem, e no aqueles que, como vs, obedecem... demasiado bem... E a prova... Recordai-vos 
da data em que vos mandei dizer que me visitsseis e procurai na vossa memria o que aconteceu nessa noite...
Fora nessa noite que tinham raptado a Sr.a Bonacieux. D'Artagnan estremeceu, e recordou-se que meia hora antes a pobre mulher passara perto de si, sem dvida ainda 
levada pelo mesmo poder que a fizera desaparecer.
- Enfim - continuou o cardeal -, como no ouvia falar de vs h algum tempo, quis saber o que fazeis. Alis, deveis-me algum reconhecimento: decerto notastes que 
fostes poupado em todas as circunstncias...
D'Artagnan inclinou-se com respeito.
- Isso deveu-se - continuou o cardeal - no s a um sentimento de equidade natural, mas tambm a um plano que tracei a vosso respeito.
D'Artagnan estava cada vez mais espantado.
- Queria expor-vos esse plano no dia em que recebestes o meu primeiro convite; mas no viestes... Felizmente, nada se perdeu com o atraso, e hoje ides ouvi-lo. Sentai-vos 
aqui, diante de mim, Sr. d'Artagnan: sois bastante bom gentil-homem para no ouvir de p.
E o cardeal indicou com o dedo uma cadeira ao jovem, que estava to atnito com o que se passava que, para obedecer, esperou segundo sinal do seu interlocutor.
- Sois valente, Sr. d'Artagnan - continuou a Eminncia -, e sois prudente, o que ainda  melhor. Gosto dos homens de cabea e corao; no vos admireis - disse sorrindo 
-, pois por homens de corao entendo homens de coragem. Mas apesar de muito jovem e de mal terdes entrado na sociedade, j tendes inimigos poderosos que, se no 
vos acautelardes, vos perdero!
- Infelizmente, Monsenhor - respondeu o jovem -, consegui-lo-o com facilidade, sem dvida, porque so fortes e esto bem apoiados ao passo que eu estou sozinho!
- Sim,  verdade; mas por mais s que estejais j fizestes muito, e fareis ainda mais, no duvido. Entretanto, creio que tendes necessidade de ser guiado na aventurosa 
carreira que empreendestes; porque se no me engano viestes a Paris com a ambiciosa ideia de fazer fortuna.

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- Estou na idade das esperanas loucas, Monsenhor - disse d'Artagnan.
- S os tolos tm esperanas loucas, senhor, e vs sois um homem inteligente. Vejamos, que direis a uma bandeira nas minhas guardas e a uma companhia depois da 
campanha?
- Ah, Monsenhor!...
- Aceitais, no  verdade?
- Monsenhor... - murmurou d'Artagnan, com ar embaraado.
- Como, recusais?! - exclamou o cardeal, atnito.
- Estou nas guardas de Sua Majestade, Monsenhor, e no tenho motivo para estar descontente.
- Mas parece-me - observou a Eminncia - que os meus guardas tambm so guardas de Sua Majestade, e que desde que se sirva num corpo francs, serve-se o rei.
- Monsenhor, Vossa Eminncia compreendeu mal as minhas palavras.
- Quereis um pretexto, no ? Compreendo. Pois esse pretexto j o tendes. A promoo, a campanha que vai comear, a oportunidade que vos ofereo, so um bom pretexto 
para os outros; para vs, a necessidade de proteces seguras. Porque  bom que saibais, Sr. d'Artagnan, que tenho recebido queixas graves contra vs e consta-me 
que no dedicais exclusivamente os vossos dias e as vossas noites ao servio do rei.
D'Artagnan corou.
- De resto - continuou o cardeal, pousando a mo num mao de papis -, tenho aqui um processo completo a vosso respeito; mas antes de o ler quis conversar convosco. 
Sei que sois um homem decidido e que os vossos servios, bem orientados, em vez de vos levarem por mau caminho, poderiam render-vos muito. Vamos, reflecti e decidide-vos.
- A vossa bondade confunde-me, Monsenhor - respondeu d'Artagnan -, e reconheo em Vossa Eminncia uma grandeza de alma que me torna pequeno como um verme da terra; 
mas enfim, uma vez que Monsenhor me permite falar francamente...
D'Artagnan deteve-se.
- Sim, falai.
- Bom... direi a Vossa Eminncia que todos os meus amigos esto nos mosqueteiros e nas guardas do rei, e que todos os meus inimigos, por uma fatalidade inconcebvel, 
esto com Vossa Eminncia; seria portanto mal recebido aqui e mal visto pelos meus amigos se aceitasse o que Monsenhor me oferece.
- Tereis j a orgulhosa ideia de que no vos ofereo o que valeis, senhor? - perguntou o cardeal, com um sorriso desdenhoso.
- Monsenhor, Vossa Eminncia  cem vezes demasiado bom para mim, e pelo contrrio, penso no ter ainda feito o bastante para ser digno das suas bondades. O cerco 
de La Rochelle vai comear, Monsenhor; servirei sob as vistas de Vossa Eminncia,

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e se tiver a sorte de me comportar de forma a merecer a vossa ateno... Pois bem, depois terei pelo menos por mim alguma aco brilhante que justifique a proteco 
com que vos digneis honrar-me. Todas as coisas devem ser feitas a seu tempo. Monsenhor, talvez mais tarde tenha o direito de me dar, ao passo que neste momento pareceria 
vender-me.
- Quer dizer que recusais servir-me, senhor - disse o cardeal, num tom de despeito em que transparecia no entanto uma espcie de estima. - Permanecei portanto livre 
e conservai os vossos dios e as vossas simpatias.
- Monsenhor...
- Bem, bem, no vos quero mal - atalhou o cardeal. - Mas como compreendeis devemos defender os nossos amigos e recompens-los, e no dever nada aos nossos inimigos. 
Mesmo assim, dou-vos um conselho: acautelai-vos, Sr. d'Artagnan, porque no momento em que vos retirar a minha proteco no darei nada pela vossa vida.
- Procurarei que isso no acontea, Monsenhor - respondeu o gasco, com nobre confiana.
- Mais tarde, se em dado momento vos acontecer algum contratempo - disse Richelieu com inteno -, lembrai-vos de que fui eu que vos procurei e de que fiz o que 
pude para que esse contratempo no vos acontecesse.
- Seja o que for que me acontea - disse d'Artagnan pondo a mo no peito e inclinando-se -, guardarei eterno reconhecimento a Vossa Eminncia pelo que fez por mim 
neste momento.
- Pronto, Sr. d'Artagnan! Como dissestes, ver-nos-emos durante a campanha e ter-vos-ei debaixo do olho. Porque eu estarei l - acrescentou o cardeal, mostrando com 
o dedo a d'Artagnan uma magnfica armadura que mandara fazer -, e no nosso regresso... bom, conversaremos!
- Ah, Monsenhor, poupais-me o peso do vosso desagrado! - exclamou d'Artagnan. - Permanecei neutro, Monsenhor, e vereis que procedi como um homem de bem.
- Meu rapaz - redarguiu Richelieu -, se puder dizer-vos outra vez o que vos disse hoje, prometo que vo-lo direi.
Esta ltima declarao de Richelieu exprimia uma dvida terrvel e consternou mais d'Artagnan do que se lhe tivessem feito uma ameaa, pois era uma advertncia. 
O cardeal procurava portanto preserv-lo de qualquer desgraa que o ameaava. Abriu a boca para responder, mas com um gesto altivo o cardeal despediu-o.
D'Artagnan saiu; mas  porta o corao esteve prestes a fraquejar-lhe e por pouco no voltou atrs. Apareceu-lhe porm o rosto grave e severo de Athos; se firmasse 
com o cardeal o pacto que este lhe propunha, Athos no lhe estenderia mais a mo, Athos reneg-lo-ia.
Foi esse receio que o deteve, de tal forma  poderosa a influncia de um carcter verdadeiramente nobre sobre tudo o que o rodeia.
D'Artagnan desceu pela mesma escada que subira e encontrou diante da porta Athos e os quatro mosqueteiros que esperavam o seu regresso e comeavam a inquietar-se. 
Com uma palavra, d'Artagnan tranquilizou-os e Planchet correu a prevenir os outros postos de que era intil montar mais longa guarda, pois o seu amo sara so e 
salvo do Palais-Cardinal.
Regressados a casa de Athos, Aramis e Porthos quiseram saber o motivo daquela estranha audincia; mas d'Artagnan limitou-se a dizer-lhes que o Sr. de Richelieu o 
chamara para lhe propor entrar para as suas guardas com o posto de comandante de bandeira e que ele recusara.
- E fizestes bem! - exclamaram em unssono Porthos e Aramis. Athos caiu em profunda meditao e no disse nada. Mas quando ficou sozinho com d'Artagnan disse-lhe:
- Fizestes o que deveis fazer, d'Artagnan, mas talvez tenhais feito mal.
D'Artagnan suspirou; porque aquela voz correspondia a uma voz ntima da sua alma que lhe dizia que grandes perigos o esperavam.
O dia seguinte passou-se em preparativos de partida; d'Artagnan foi despedir-se do Sr. de Trville. Naquela altura ainda se julgava que a separao dos guardas e 
dos mosqueteiros seria momentnea, pois o rei reuniria o seu conselho no mesmo dia e partiria no dia seguinte. O Sr. de Trville limitou-se portanto a perguntar 
a d'Artagnan se precisava de alguma coisa dele, ao que d'Artagnan respondeu que tinha tudo o que precisava.
 noite reuniram-se todos os camaradas da companhia de guardas do Sr. dos Essarts e da companhia dos mosqueteiros do Sr. de Trville, que se tinham tornado amigos. 
Separavam-se para s se tornarem a ver quando aprouvesse a Deus e se aprouvesse a Deus. A noite foi pois das mais ruidosas, como se pode imaginar, porque em casos 
semelhantes s se pode combater a extrema preocupao com a extrema despreocupao.
No dia seguinte, ao primeiro toque dos clarins, os amigos separaram-se: os mosqueteiros correram para o palcio do Sr. de Trville e os guardas para o do Sr. dos 
Essarts. Cada um dos capites conduziu imediatamente a sua companhia para o Louvre, onde o rei lhes passaria revista.
O rei estava triste e parecia doente, o que lhe diminua um pouco a majestade. Com efeito, na vspera a febre atacara-o no meio do conselho, quando presidia aos 
trabalhos. Mas nem por isso estava menos decidido a partir naquela mesma noite; e, apesar das observaes que lhe haviam feito, quisera passar a revista, esperando 
que aquela primeira demonstrao de energia lhe permitisse vencer a doena que comeava a domin-lo.
Passada a revista, os guardas puseram-se sozinhos em marcha, pois os mosqueteiros deveriam partir apenas com o rei, o que permitiu a Porthos ir dar uma volta pela 
Rua dos Ursos na sua soberba montada.

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A procuradora viu-o passar no seu uniforme novo, montado no seu belo cavalo. Amava demasiado Porthos para o deixar partir assim; por isso, fez-lhe sinal para desmontar 
e ir ter com ela. Porthos estava magnfico: as suas esporas telintavam, a sua couraa brilhava, e a espada batia-lhe orgulhosamente nas pernas. Desta vez os amanuenses 
no tiveram nenhuma vontade de rir, de tal modo Porthos tinha o ar de um cortador de orelhas.
O mosqueteiro foi introduzido junto do Sr. Coquenard, cujos olhinhos cinzentos brilharam de clera quando viu o primo to flamante. No entanto, uma coisa o consolou 
intimamente: toda a gente dizia que a campanha seria dura e por isso esperava no fundo do corao, pacientemente, que Porthos fosse morto.
Porthos apresentou os seus cumprimentos a mestre Coquenard e despediu-se dele; mestre Coquenard desejou-lhe toda a espcie de prosperidades. Quanto  Sr.a Coquenard, 
no conseguiu reter as lgrimas, mas ningum interpretou maldosamente a sua dor, pois sabiam-na muito dedicada aos seus parentes, por causa dos quais tivera sempre 
grandes discusses com o marido.
Mas as verdadeiras despedidas realizaram-se no quarto da Sr.a Coquenard e foram pungentes.
Enquanto a procuradora pde seguir com os olhos o amante, agitou um leno debruada da janela, a ponto de se poder recear que quisesse precipitar-se dela abaixo. 
Porthos recebeu todos esses sinais de ternura como homem habituado a semelhantes demonstraes. S ao dobrar da esquina da rua tirou o chapu e o agitou em sinal 
de despedida.
Pela sua parte, Aramis escrevia uma longa carta. A quem? Ningum sabia. No quarto contguo, Ketty, que devia partir naquela mesma tarde para Tours, esperava essa 
carta misteriosa.
Athos bebia aos golinhos a ltima garrafa do seu vinho de Espanha.
Entretanto, d'Artagnan desfilava com a sua companhia.
Ao chegar ao Arrabalde de Santo Antnio virou-se para olhar alegremente a Bastilha; mas como s olhava para a Bastilha, no viu Milady que, montada num cavalo isabel, 
o indicava com o dedo a dois homens de m catadura, que se aproximaram imediatamente das fileiras para o reconhecer. A uma interrogativa deles com a vista, Milady 
respondeu com um sinal de que era ele. Depois, certa de que no poderia haver equvoco na execuo das suas ordens, esporeou o cavalo e desapareceu.
Os dois homens seguiram ento a companhia e,  sada do Arrabalde de Santo Antnio, montaram em cavalos j preparados que os esperavam, seguros  mo e por um criado 
sem libr.


Fim do Segundo Volume
